Balaio de Histórias


Abram alas para a folia


2 de agosto de 2010, por 9

No domingo de Pentecostes, labaredas de fogo desceram aos apóstolos que, tomados pelo Espírito Santo, começaram a falar em outras línguas. É o que diz a Bíblia. Em 1323, tomada por semelhante fervor religioso, D. Isabel, a rainha santa (1271-1336), casada com o rei de Portugal, D. Diniz, decidiu celebrar a festa do Espírito Santo coroando simbolicamente um imperador e dois reis. Após a cerimônia, realizada em um convento franciscano da vila de Alenquer, o “império do Divino” saiu às ruas ao som de trombetas e acompanhado por uma multidão. Começava ali uma longa tradição de celebrações religiosas, que resiste até hoje.

No Brasil, as festividades do Divino Espírito Santo praticamente desapareceram das grandes cidades. Ocorrem mais em municípios do meio rural, como Pirenópolis (GO) e Parati (RJ). Há alguns séculos, no entanto, eram realizadas nos maiores centros urbanos coloniais e causavam tamanho envolvimento da população que chegaram a preocupar as autoridades, como uma ameaça à ordem pública.

Antes de chegar por aqui, a tradição fez escala no arquipélago de Açores, no início da expansão marítima lusitana. No Pentecostes – período que compreende os cinqüenta dias após a Páscoa –, os açorianos promoviam banquetes públicos em que os devotos ofertavam alimentos para toda a comunidade. A importância das cerimônias torna-se visível nas Ordenações Manuelinas (1521). A lei maior do reino português tolerava apenas as refeições festivas em devoção ao Divino, proibindo outras práticas, como a dos vodos ou bodos, que eram banquetes realizados para satisfação de promessas a diferentes santos.

Divino Espírito SantoNa colônia, antes do início da cerimônia de coroação simbólica do imperador e dos banquetes públicos, aconteciam as folias: grupos formados por devotos do Divino percorriam grandes distâncias e recolhiam esmolas e doações para serem distribuídas ou leiloadas nos dias da festa. Algumas vezes, no entanto, este ritual não foi cumprido. Em 1801, o vigário-geral do Rio de Janeiro, Francisco Gomes Villas-Boas, relatou que nas igrejas e capelas da cidade nas quais se festejava o Divino foram realizados leilões “em que se compram e vendem as esmolas que a louvável devoção dos fiéis vai oferecer nesses dias, para ser o seu produto distribuído pelos pobres”. E tratou de proibir a continuidade daquela prática contrária aos Evangelhos e à legislação eclesiástica.

Os primeiros registros dos festejos em terras brasileiras são do século XVIII. Sob o título Livro das sortes que se tiraram na igreja matriz da vila de Itu para festejos do Divino Espírito Santo (1765-1799), estão relatadas, ano após ano, todas as providências para o evento, como as contribuições em dinheiro para missa, o sermão e a música, e doações de alimentos (carne, trigo, farinha, arroz, azeite, ovos etc.). Em 1765, por exemplo, foram arrecadadas naquela vila cerca de 150 quilos de carne. O documento também lista os devotos escolhidos para compor os personagens da festa. Havia o imperador, o capitão da guarda, o pajem do estoque (provavelmente responsável pela guarda e distribuição de alimentos), o alferes da bandeira, entre outros.

Um dos elementos que mais chamam a atenção nas festas é a ocorrência do “tempo alegre”, prática marcada pelas inversões simbólicas da ordem social, em que crianças ou adultos eram coroados como imperadores do Divino. Antes disso, havia a saída das folias, momento em que grupos de devotos percorriam as ruas em busca de esmolas para a festa portando bandeiras vermelhas com pombinhas bordadas em branco, símbolo do Espírito Santo.

Enquanto no reino de Portugal e nos Açores essas práticas eram toleradas, no Brasil foram logo vistas com desconfiança pelas autoridades coloniais. Em 1765, na cidade de Salvador, um grupo de devotos da irmandade do Divino organizou uma folia com acompanhamento musical de tambores e pandeiros, seguida por mulatos. Em carta enviada ao Conselho Ultramarino, o governo da Bahia – nessa época formado por uma junta interina composta do arcebispo, do chanceler do tribunal da Relação e de um comandante militar – informou que os devotos pediam que, à passagem da folia, a guarda do palácio pegasse em armas em sinal de respeito ao imperador, justificando que “assim se pratica em Lisboa e nas demais partes do reino”. A reação de surpresa das autoridades faz supor que a festa fosse ainda desconhecida, trazida havia pouco tempo por indivíduos procedentes dos Açores.

O governo entrou em pânico quando soube que a comitiva estava determinada a “soltar os presos de dívidas civis, pagando eles – isto é, os irmãos do Divino – toda a quantia por que estavam presos, mas sem requerer mandado de soltura, tendo na idéia que o carcereiro lhes devia soltar, sem outra alguma diligência prévia”. Havia ainda a intenção da irmandade de ofertar “mesas públicas na rua com o título de jantar aos pobres”, fartos tonéis de vinho e “império com música”. As autoridades se preocupavam, acima de tudo, com “a ínfima plebe de mulatos insolentes e presumidos, e de pretos sem consideração alguma” que iria ao festejo.

A folia foi afinal realizada, mas acompanhada apenas por doze irmãos brancos da irmandade – e com a condição de que “o Imperador se abstivesse da insolência de mandar parar gente na rua para o cortejar”. Os jantares públicos foram proibidos.

Esse impressionante registro revela o temor das autoridades em relação aos africanos e seus descendentes, que, segundo o mesmo documento, representavam três quartos dos habitantes da cidade da Bahia. Era preciso impedir o envolvimento desta população com os rituais de alteração simbólica da ordem e da hierarquia social, característicos daquelas festividades. Os agentes da Coroa temiam que a brincadeira virasse realidade, que a festa lúdica acabasse inspirando revoltas efetivas.

Em várias partes da América portuguesa foram criadas irmandades dedicadas ao Divino Espírito Santo. As irmandades eram associações de fiéis que, obtendo o reconhecimento das autoridades eclesiásticas ou civis, se encarregavam do culto aos santos e de práticas de caridade. Em Salvador, a irmandade do Divino elaborou em 1770 seu primeiro “compromisso”, espécie de estatuto que continha as normas básicas de funcionamento da instituição. A sede ficava no templo de Santo Antônio Além do Carmo, situado ao norte do Pelourinho. No Recife, a irmandade do Divino erigida no convento franciscano de Santo Antônio foi oficialmente reconhecida em 1767. Em Santa Catarina, o compromisso da irmandade do Divino constituída na matriz de Nossa Senhora do Desterro foi extraviado em 1777, “quando os Espanhóis invadiram a dita ilha”. Este ataque, liderado pelo comandante castelhano D. Pedro de Cevallos, representou uma reação à vitória militar portuguesa obtida um ano antes na região do Rio Grande.

Mas em nenhum outro lugar do Brasil as irmandades do Divino tiveram tanta importância quanto na cidade do Rio de Janeiro. Em 1745, Henrique da Costa Corrêa e sua esposa, Antônia Maria de Jesus, doaram parte das terras que lhes pertenciam aos moradores da Bica dos Marinheiros, para que ali fosse erguida uma capela com a invocação do Divino. Localizada onde atualmente está a matriz do Divino Espírito Santo, no bairro do Estácio, aquela foi a única irmandade da cidade a ter um templo próprio – todas as outras eram erguidas em altares laterais de igrejas alheias. Na região central da cidade, foi fundada em 1755 uma irmandade na igreja matriz de Santa Rita de Cássia. E em 1793, outra no templo do antigo seminário da Lapa do Desterro. Isso indica que somente naquela parte da cidade já existiam, antes da virada do século, três associações de devotos para cultuar o Divino. E elas continuariam a surgir.

Durante o período joanino (1808-1821), uma irmandade freqüentava a capela do Campo de Santana, palco das mais importantes festividades em devoção ao Espírito Santo na Corte. Uma das construções açorianas conhecidas como “império” fora erguida em frente ao templo, em terras doadas por Manoel José da Costa Martins Gil e sua esposa. No entanto, em 1810 o proprietário ofereceu a mesma área à Coroa, para a construção de um quartel. No local encontra-se atualmente o Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste. A irmandade chegou a mover uma ação judicial, mas foi vencida pela Coroa após receber uma indenização. Em 1820, foi a vez de os irmãos do Divino de Santana recorrerem à Coroa para impedir as atividades de uma devoção concorrente que surgira ali perto, “por serem ambas eretas em uma só freguesia, com mesmo título e Protetor”. Não era a primeira vez que uma irmandade tentava garantir o monopólio do culto ao Divino na cidade. Mas sua força entre a população impedia que ele fosse concentrado em poucas associações.

Assim como na Bahia, as folias do Divino ganhavam as ruas do Rio de Janeiro. Como descreve o pintor e tenente inglês Henry Chamberlain (1796-1844), o imperador do Divino era “precedido de um grupo de jovens músicos, com roupas vistosas e plumas nos chapéus. Acompanham-no dois homens, um de cada lado, que carregam estandartes vermelhos, em cujo centro encontram-se ricamente bordados os emblemas do Espírito Santo”. Mais uma vez as autoridades urbanas procuraram intervir na organização das folias. Em 1809, o intendente da Polícia, Paulo Fernandes Viana, informou ao juiz de Crime de Santa Rita que “o imperador do Espírito Santo de Santana pôs na rua uma folia que já fez certa desordem. Vossa mercê passe a indagar quais foram as pessoas que entraram na dita folia, que me consta serem homens, e não meninos, como é costume, e os recolha todos à cadeia”. Se os costumes tradicionais toleravam a eleição de adultos para o papel de imperador do Divino, o controle maior do espaço público ocorrido no período joanino impedia tal prática. Uma possível explicação para a intervenção das autoridades urbanas na tradição pode estar no fato de que os meninos imperadores e as folias de rapazolas reduziam os riscos de desordem nas ruas do Rio de Janeiro, repletas de escravos.

O pintor francês Jean-Baptiste Debret detalha os componentes musicais da folia: “tocadores de violão, de pandeiros e de ferrinhos precedidos de um tambor”. Na ilustração correspondente, os participantes da folia são nitidamente brancos, fato revelador da origem açoriana e lusitana da festividade. As folias, no entanto, se adaptaram ao contexto americano, marcado pelas relações escravistas. Em 1822, os irmãos do Divino da capela de Santo Antônio dos Pobres requereram ao “Intendente Geral da Polícia licença para sair à rua com folia para se tirar as esmolas pelos seus devotos para ajuda de sua festa”. O pedido foi negado pelo funcionário régio, que só permitiu o acompanhamento com “música de barbeiros”. Na época, os escravos ou libertos dedicados a este ofício eram conhecidos também por tocarem instrumentos musicais.

Esta autorização é intrigante. Por que razão teria a Polícia aceitado a música dos negros barbeiros em detrimento da tradicional folia feita por rapazes brancos? Afinal, qualquer manifestação que aglomerasse a população de cor era motivo de temor. Uma hipótese para explicar esta aparente incoerência está no caráter desordenado da folia tradicional, formada por músicos improvisados, na qual predominavam instrumentos de percussão. Em contraste, nas folias dos negros barbeiros predominavam instrumentos de sopro, em cuja execução demonstravam certa habilidade, pois eram músicos profissionais. Assim, a festa transcorreria mais tranqüila.

Após a emancipação política (1822), aumentou a intolerância das autoridades urbanas com os festejos. Em 1849, o fiscal da freguesia de Santana notou que “esta festa de aldeia no centro da cidade capital do Império é já olhada pelo homem civilizado como imprópria”. Em nome dos ideais de progresso e civilização, os “imperadores” e as pombas brancas do Divino tornaram-se figuras raras nas grandes cidades.
  
William de Souza Martins é professor de História da Universidade Gama Filho e da UNIRIO e autor da tese “Membros do corpo místico: ordens terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700-1822)” (São Paulo: USP, 2001).



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jucilene pereira da costa Disse:

3 julho de 2011 as 1:34

divino espirto santo e meu protetor


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