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Festa do Divino


20 de agosto de 2010, por 1

Uma das maiores manifestações populares de Goiás, a Festa do Divino Espírito Santo embalou as discussões do primeiro evento do projeto História no Ponto, no Cine Pirineus, localizado em Pirenópolis (GO). Com a presença do historiador William de Souza (foto à esquerda), professor da UFRJ, o debate ocorreu na tarde do dia 14 de agosto, após um workshop com professores da rede pública da região. Todo evento foi realizado pela Revista de História da Biblioteca Nacional em parceria com o Ponto de Cultura Quintal da Aldeia.

Cine Pirineus
Fachada do Cine Pireneus

William (foto abaixo) abriu sua palestra abordando o surgimento da preocupação acerca dos patrimônios culturais, aproveitando o fato de que a festa do Divino fora reconhecida como tal pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em abril deste ano. "Inicialmente, só havia uma preocupação com patrimônios físicos. No próprio IPHAN, criado na Era Vargas, os bens reconhecidos eram majoritariamente prédios e edifícios coloniais. Pouco atenção era dada às manifestações imateriais. O reconhecimento das manifestações culturais de origem africana, nativa ou de imigrantes estrangeiros, por exemplo, faz parte de um movimento maior de democratização da sociedade brasileira", apontou o historiador.

Segundo o autor, foi esta ampliação que permitiu o reconhecmento da Festa do Divino Espírito Santo pelo Iphan. Mas isto não quer dizer que não existam atritos entre com o poder público atualmente. Uma das tentativas de controle dos governantes locais sobre a festa, por exemplo, diz respeito ao controle e numeração dos mascarados, que são certamente um dos elementos mais anárquicos da festa. Ainda assim, alguns moradores de Pirenópolis permanecem céticos quanto a esta possibilidade. "Não é primeira vez que dizem que isto vai acontencer, mas nunca saiu do papel. Eu não acredito nisto", contesta Turiba, funcionário do Cine Pirineus, que foi a sede do debate.
 
Em artigo publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional, William de Souza mostra que os conflitos com o governo não são exatamente uma novidade na trajetória da Festa do Divino. "Em 1809, o intendente da Polícia, Paulo Fernandes Viana, informou ao juiz de Crime de Santa Rita que “o imperador do Espírito Santo de Santana pôs na rua uma folia que já fez certa desordem. Vossa mercê passe a indagar quais foram as pessoas que entraram na dita folia, que me consta serem homens, e não meninos, como é costume, e os recolha todos à cadeia”. Se os costumes tradicionais toleravam a eleição de adultos para o papel de imperador do Divino, o controle maior do espaço público ocorrido no período joanino impedia tal prática", escreveu William no texto "Abram alas para a folia". No debate, o historiador recordou também da perseguição movida pelos jornais contra a festividade. "A imprensa pegava no pé mesmo. Dizia que a Festa era algo atrasado e que as pessoas deveriam buscar o progresso", afirmou.

Para Paulo Sérgio Galeão, represente do Iphan em Pirenópolis, muitas das intervenções visam justamente o bem estar dos participantes. Segundo ele, foi este caso da construção do Cavalhódromo, um estádio construído especialmente para abrigar as Cavalhadas, importante momento nas celebrações para o Divino Espírito Santo que antes era celebrado nas ruas próximas à Igreja Matriz.

De acordo com Turiba, "ninguém foi consultado" antes da decisão de construir o Cavalhódromo e, assim como outros moradores, o estádio fez as Cavalhadas perderem muitas de suas características originais. Galeão concorda, mas vê benefícios na ação do governo. "De fato, o Cavalhódromo endureceu algumas manifestações da Festa do Divino, mas muito disso foi para cuidar da proteção de quem faz a festa e também de quem a assiste", disse o representante do Iphan.



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