Balaio de Histórias


Respeitável circo


16 de setembro de 2010, por 1

“A pátria do circense é o próprio circo”, garante Sula Mavrudis. No entanto, mesmo alegre e festiva, a cultura circense precisa travar uma batalha diária para sobreviver no Brasil. As dificuldades impostas a estes artistas foram o tema da palestra da pesquisadora pelo projeto Balaio de Histórias. O evento ocorreu no 'Ponto de Cultura CIRCO – Inclusão Cultural', em São Paulo, no dia 11 de setembro.

Tratando como cidadão apenas as pessoas com moradia fixa, o Estado brasileiro fecha os olhos para uma considerável população nômade, que vive a transitar entre cidades para mostrar seus espetáculos. Os artistas circenses sofrem descriminação até da Igreja, que se recusa a casá-los em alguns casos. Para Sula, muitas vezes esta perseguição é baseada em mitos, como a crença que os circos maltratam os animais.

“O direito ao trabalho do circense é cerceado pela ampla gama de documentação necessária para obter o alvará. Vistoria dos bombeiros, segurança, laudos técnicos de engenharia, instalação de medidores de luz e água são apenas alguns exemplos da imensa quantidade de despesas e procedimentos que um circo tem que fazer para passar uma semana em alguma cidade. Isto quando o próprio prefeito não gosta de circo e proíbe. Tem cidades com faixas na entrada com dizeres como: não recebemos circos ou parques”, desabafou Sula Mavrudis, que já falara sobre sua trajetória de vida e o início de seu envolvimento com o circo em entrevista para a Revista de História no ano passado.

Ao mesmo tempo em que ignora estes artistas brasileiros, o Estado cria financiamento milionários para circos de fora do país. Tudo com dinheiro público – o que não impede os valores exorbitantes dos ingressos. Realidade deveras bastante diferente de parte dos circenses brasileiros, que trabalham sem apoios do governo e a preços populares.

Por conta deste descaso crônico, faltam dados precisos sobre a amplitude da cultura circense no país. Parceira histórica nas lutas dos artistas do picadeiro, a Fundação Nacional das Artes contratou recentemente o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para resolver este problema. Em breve, será realizado um censo do circo no Brasil. Enquanto isto, Sula estima que cerca de 80 mil trabalhadores estão envolvidos diretamente com o circo.

O pontapé inicial da cooperação do Estado com os circenses ocorreu em uma visita da ex-primeira dama Lucy Geisel ao circo de Ruy Bartolo, durante uma passagem por Brasília. Terminado o espetáculo, ela foi aos camarins e perguntou a Ruy o que o governo estava fazendo pelo circo brasileiro. Após muito pensar, ele respondeu taxativo: nada.

Então, Lucy iniciou uma movimentação nos corredores oficiais que culminou com a aprovação da lei 6553, que dispõe sobre a regulamentação da profissão dos artistas. Vantagens para muitos, menos para os circenses. “Até hoje não temos registro profissional, talvez por ser considerada uma arte muito familiar”, analisou Sula. Segundo ela, uma segunda exclusão ocorreu com a criação da Lei Rouanet de incentivo à cultura. “Quando ela passou a funcionar, os circos não conseguiram mais conseguir nada através de permuta, o que era bastanet comum até então. A lei de incentivo exige um grau de escolaridade e eles acabaram ficando à margem deste processo”, disse.

No entanto, não foram poucas as vitórias do circenses ao longo das últimas décadas. Ainda em 1987, graças a uma mobilização em diversas regiões, foi organizado o I Encontro Nacional de Artistas Circenses. Hoje, esta articulação rende frutos, como os avanços conquistados em Minas Gerais. “Lá, o circo não precisa mais de um alvará para cada apresentação, fingindo que se trata apenas de um evento. Agora, há um alvará anual válido para todas as cidades dentro de Minas. Estamos tentando levar esta lei para outros locais, mas em São Paulo, por exemplo, novas leis impostas pelo prefeito Gilberto Kassab estão prejudicando o circo”, apontou Sula.

Segundo ela, hoje o circo vive uma tendência de renovação fora dos picadeiros. As escolas de circo se multiplicam, empresas levam atividades circenses para seus funcionários relaxarem após o expediente, atores de teatro pesquisam este universo para melhorar sua linguagem cênia, entre muitas outras iniciativas. Mesmo com tanta badalação, Sula sente falta de alguém importante neste cenário de incentivo ao circo. “Não se encontra um circense tradicional neste espaço. O circo não é uma mera técnica, é um estilo de vida. Existem diversas pessoas que nasceram ali e tem no circo o seu habitat, porém, por conta das condições difíceis de sobrevivência, muitas vezes os pais circenses não passam sua arte para os filhos, pois não querem que passem pelo que eles tiveram que passar”.



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Gostaria de deixar registrado o nosso agradecimento e satisfação pela estadia entre nós da hsitoriadora Sula Mavrudis, bem como de toda a equipe da Revista de História da Biblioteca Nacional, em São Paulo, nos dias 10, 11 e 12 de setembro. O projeto HISTÓRIA NO PONTO nos estimulou por demais a “cavocar” sob os nossos pés toda uma cultura escondida. É como uma mina de ouro que está bem pertinho da gente, mas a gente não reconhece e passa por cima ou ao lado… Mais uma vez, agradecemos aos integrantes do projeto e a todos os envolvidos aqui em São Paulo, que fizeram isso acontecer. Agora é tocar o projeto e sua sequencia. Queremos o nosso patrimônio material e imaterial preservado, queremos de volta a nossa Estação Invernada por onde o Trenzinho da Cantareira passava.


[...] This post was mentioned on Twitter by Revista de História, Dário Benedito. Dário Benedito said: RT @RHBN: Sula Mavrudis falou no #balaiodehistorias sobre a luta diária dos circenses para manterem viva a sua arte http://mostre.me/circo [...]


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