Em pleno encerramento da Semana Farroupilha de 2010, a cidade de Porto Velho (RO) recebeu o terceiro evento do Balaio de Histórias, com a presença do historiador Vinícius de Oliveira (Unisinos). No entanto, o clima não era de exaltação. Ao invés disto, o debatedor convidado levantou questões polêmicas sobre a identidade gaúcha, em palestra realizada no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) da capital rondoniense no dia 18 de setembro.
Durante o evento, participantes comentavam sobre a dificuldade que o historiador teria em apresentar a temática em CTGs “mais tradicionais”. Vinícius abordou a presença dos negros durante a Revolução Farroupilha e problematizou as representações do gaúcho como alguém com ascendência européia (confira a apresentação utilizada). “A base de formação dos gaúchos é formada pela mescla do português, espanhol, indígena e escravo. Em 1814, cerca de 60% da população em Charqueadas (RS) era não-branca. Normalmente, fala-se da presença dos escravos nos engenhos, mas se esquece que as estâncias produtoras de
charque também não ficavam atrás”, afirma.
O historiador recordou a Batalha de Porongos como um exemplo desta relação problemática entre as etnias na região. Último episódio da Revolução, o confronto terminou com a morte de diversos lanceiros negros que foram incorporados às tropas com a promessa da alforria no final do conflito. Segundo alguns relatos, a maior parte da tropa que iniciou a batalha pela independência da região era composta por índios, negros e mestiços.
”Sempre existiu uma invisibilidade do negro no Rio Grande do Sul. Porto Alegre tem o maior número proporcional de casas de religião de matrizes africanas. O estado teve a maior presença de clubes sociais formados por negros, que só participavam do clube dos brancos como serviçais. Então, do mesmo modo, os brancos não podiam entrar no clube de negros. Há uma série de CTG’s no sul onde os negros eram impossibilitados de participar. Então, eles resolveram criar seus próprios espaços”, criticou Vinícius.
Para ele, esta invisibilidade também produzir alguns mitos em relação à presença dos escravos no Rio Grande do Sul. Um deles diz que os negros teriam um melhor tratamento no sul, pois tinham fácil acesso a vestimentas e locomoção, através de cavalos. “Essas coisas eram os instrumentos de trabalho. Pelo contrário, o estado era marcado pela severidade, tanto que alguns escravos “considerados incorrigíveis” eram enviados para lá, segundo relato de John Luccock”, rebate.
Entre os revolucionários farroupilhas não havia consenso sobre a questão da escravidão, sendo este uma das principais divergências entre o grupo de insurgentes. Bento Gonçalves liderou um movimento a favor da abolição, mas acabou derrotado pelo grupo de David Canabarro. Segundo Vinícius de Oliveira, não era o bem estar dos negros que os abolicionistas gaúchos tinham em mente quando buscavam o término da escravidão.
“O próprio Bento Gonçalves deixou no seu inventário de bens 53 escravos. Os farrapos eram contra a vinda dos africanos porque a consideravam uma cultura inferior. Não era exatamente contra a escravidão, mas contra a cultura africana”, analisa.
Esta visão aumenta ainda mais a polêmica sobre a Batalha de Porongos. Segundo algumas interpretações históricas, o episódio foi um massacre nascido a partir de uma traição dos escravos feita pelo grupo de Canabarro. As tropas negras teriam sido desarmados e separados do restante dos combatentes algumas horas antes da chegada das tropas imperiais. Tudo para evitar ter de lidar com o posicionamento dos escravos após o final do conflito, que já se anunciava: por um lado, o Império não aceitaria premiar com a liberdade aqueles escravos já considerados insubordinados; e, por outro, seria extremamente difícil negar-lhes a liberdade já que estavam bastante militarizados e politizados, após dez anos de conflito.
Esta versão foi reforçada por um suposto documento de Duque de Caxias dizendo que a infantaria farroupilha receberia ordens para entregar as armas. “Era muito grande o medo de uma revolta, ainda mais com escravos que se consideravam traídos. Na Bahia, já havia acontecido, por exemplo, a Revolta dos Malês, que acabou sendo denunciada na sua véspera”, aponta o historiador.
Também há quem acredite que a carta teria sido falsificada tendo por objetivo difamar Canabarro. O documento ao qual temos acesso hoje não é o original, mas uma cópia. Há relatos da época mencionado a falsificação como uma bomba jogada sobre os Farroupilhas, pois teria injetado desconfiança entre o grupo.
“Até hoje a divergência existe. Há quem diga que já sabiam do ataque do Império. Há quem diga que não. Porém, mais do que decidir entre uma coisa ou outra, a mera possibilidade de uma traição já trouxe novos estudos sobre a importância dos negros como soldados na Revolução e seu papel na formação da identidade gaúcha. Isto é que importa”, concluiu o historiador.
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