No mais antigo manifesto contra a dominação branca, o negro livre conhecido como Divino Mestre sentenciava: "Homens sem [h]umanidade / Lembra-te do futuro / Dá liberdade aos morenos / E temei a uma nuvem escura". Bastante ousados para a época, os versos ainda serviam como instrumento pedagógico para a alfabetização de negros no Recife (PE) no século XIX. Palavras que ecoaram no debate do projeto Balaio de História em Olinda, com o historiador Marcus de Carvalho no Ponto de Cultura Coco de Umbigada em outubro.
“Divino Mestre teve dezenas de seguidores, muitos negros e escravos. Ele os ensinava a ler e escrever. Isso é uma arma. Se hoje em dia tem tanta gente analfabeta, imagina em 1846”, disse Marcus. Espaço de prevervação e difusão da cultura negra, o Ponto de Cultura também convive com dificuldades similares, como o embate direto com as autoridades. O Mestre chamava-se Agostinho José Pereira e era líder de uma seita cristã, fato que não o impediu de conhecer de perto os corredores da Polícia da Província.
Passado mais de século, a polícia de Olinda age com truculência até mesmo com crianças durante as apresentações no Terreiro da Umbigada. Graças a mobilização da comunidade local, porém, ninguém foi preso ainda, apesar dos instrumentos terem sido apreendidos durante uma das abordagens policiais. Já Agostinho…
“Logo de cara foram presos ele e mais oito mulheres e oito homens. Ele ficou preso por 37 dias e depois desaparece da documentação oficial. Devem ter jogado ele em algum lugar, não se sabe”, lamenta Marcus.
Segundo ele, o ambiente no qual Agostinho foi criado favoreceu seu ativismo a favor da emancipação dos escravos e “morenos libertos”, como se referia. Em 1817, ele presenciou a Revolução Pernambucana. Pouco depois, a Independência do Brasil, quando Recife presenciou uma grande mobilização de negros. E em 1824, observou de perto também as lutas autonomistas da Confederação do Equador na cidade. Sua principal herança hoje é o texto-manifesto conhecido como ABC, através do qual Divino Mestre lecionava.
No entanto, Marcus observa que a história de Divino Mestre ainda é pouco conhecida, apesar de seu pioneirismo. Mas isso não diminui a importância de Agostinho, segundo o pesquisador. “Estudo a vida das pessoas comuns. Entre elas, às vezes, temos heróis, como no caso de Divino Mestre. Não tão reconhecido como outros, mas heróis. Pessoas que lutaram para mudar o mundo em que viviam”, afirmou. A liderança de Agostinho atraiu diversos seguidores leais que por vezes foram presos com ele e deram o apelido que o eternizou. “Não era ele que se chamava de Divino mestre, eram seus seguidores”, destacou Marcus.
Atualmente, o Ponto de de Cultura em Olinda também atrai diversos seguidores e entusiastas do coco, entre eles pesquisadores. Coordenadora do projeto, mãe Beth de Oxum afirma que toda semana acadêmicos vão bater em sua porta para conhecer um pouco mais sobre a história da música e da cultura afro-descendente na região. “No entanto, poucas vezes nós temos um retorno. O estudo é publicado e nem sequer avisam isto, não mandam uma cópia. É um desrespeito”, alertou.
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25 outubro de 2010 as 13:32[...] This post was mentioned on Twitter by Revista de História and Allysson F. Garcia, Josiele Alves. Josiele Alves said: @Macambiragyn Acho q vc vai gostar: Resistência Negra http://www.revistadehistoria.com.br/balaio/2010/10/25/resistencia-negra/ [...]