Quando se fala em missões jesuíticas, é comum imaginar padres adentrando a mata brasileira nos períodos coloniais para catequizar e subordinar os índios nativos. No entanto, o evento do Balaio de Histórias em parceria com o Ponto de Cultura Ninho do Sol mostrou que esta relação pode ser muito mais complexa e atual do que se imagina.
Realizado no dia 24 de setembro, o debate com a historiadora Patrícia Woolley abordou a importância da pedagogia no trabalho realizado pelos jesuítas. Segundo ela, se hoje educação é um tema da moda e figura na fala de todos os candidatos, no século XVI a situação era bem diferente. Não existiam escolas públicas ou algum tipo de educação para as massas. Educação era símbolo de status.
“Os jesuítas valorizavam a educação para facilitar seu trabalho de evangelização. Com isto, eles conseguiram ir aos quatro cantos do mundo e chegaram ao Japão, China e até países como a Alemanha e a Polônia, que já tinham abraçado a doutrina protestante”, afirmou Woolley.

Segundo ela, é preciso se questionar se o contato da população indígena com os colonos foi um processo de mão única, seja no Brasil colonial ou no século XX. Reduzir esta problemática a uma dualidade entre opressores e oprimidos seria simplificar o debate. “É mentira a noção de que o índio é manipulado e inocente. Eles tinham estratégias e, às vezes, sujeitavam-se a ficar sob a tutela das missões para escapar da escravidão. No Grão-Pará e no Maranhão, sempre predominou o trabalho compulsório indígena e esta era uma maneira de escapar deste destino”, critica.
Para Patrícia, os jesuítas foram os primeiros estudiosos das línguas nativas. Isto porque era preciso que os padres adentrassem no universo das tribos para se comunicar com elas. Assim, foram feitas as primeiras gramáticas e vocabulários de tupi-guarani, a raiz lingüística comum entre as diversas etnias da costa brasileira. Fruto de uma sempre presente preocupação com uma documentação, esta ação dos jesuítas foi de extrema importância, pois o português só predominou com a língua mais falada a partir de meados do século XVIII.
Sobre os registros da presença dos jesuítas no Mato Grosso, Patrícia Woolley considera que grande parte desta documentação permanece intocada. “É uma tradição da Companhia de Jesus registrar tudo em diários, anotações ou fotos. Parte deste material está na UNISINOS, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Outra parcela considerável está no Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. É um manancial de documentos sobre a História do Brasil, muitos talvez nem tenham sido inventariados”, esclarece.
Um dia após o debate, Patrícia Woolley também deu uma pequena entrevista para o documentário realizado pela equipe do Balaio de Histórias sobre a Missão Jesuítica de Utiariti. Ocorrida entre a década de 1930 e 1970, a Missão catequizou diversos índios da região próxima a Diamantino (MT). Além da historiadora, padres e índios diretamente envolvidos com a Missão deram depoimentos, além de moradores e pesquisadores locais, que abordaram a importância de personagens como Padre Arlindo e Madre Tarcila. Aguarde em breve mais informações sobre a série de episódio do Balaio.

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