Manifestação reprimida no século XIX, o Tambor de Crioula sobreviveu às perseguições e continua mais vivo do que nunca no Maranhão e também em outros lugares do Brasil. Porém, para chegar até os dias de hoje, essa marcante manifestação passou por profundas transformações. É o que observa Sérgio Ferreti, ex-presidente da Comissão Maranhense de Folclore, um dos maiores especialistas no assunto. Professor Emérito da Universidade Federal do Maranhão, Ferreti proferiu palestra no Ponto de Cultura Draga de Ubuntu (Fortaleza), no dia 11 de dezembro de 2010 na cidade de Fortaleza (CE).
Antropólogo, e autor de “Repensando o Sincretismo: Estudo sobre a Casa das Minas” (USP: 1991), o palestrante chamou atenção para as diferenças, às vezes sutis, entre Tambor de Crioula e Tambor de Mina. Enquanto o primeiro tem um caráter lúdico, de entreter, o segundo tem um sentido mais religioso. A despeito da origem, se africano ou brasileiro, Ferreti salienta que o mais prudente é considerar o Tambor de Crioula como uma manifestação afro-brasileira. São irrefutáveis as raízes africanas, mas não se pode ignorar as características brasileiras que adquiriu quando trazidas pelos africanos.
Ferreti alerta que o Tambor de Crioula vem passando por transformações. Alguns praticantes ao adotarem novas religiões passam a retirar alguns elementos tradicionais da dança, como o consumo de bebida alcoólica. Como advertiu o estudioso, “o Tambor de Crioula não funciona muito bem sem álcool”. A bebida serve muitas vezes como um estimulante já que muitos dos participantes costumam ficar uma noite inteira dançando e tocando os instrumentos. Mesmo com essas transformações pelas quais vem passando, o Tambor de Crioula está mais vivo do que nunca. Se no século XIX o Tambor era reprimido pelas autoridades e proprietários, receosos que durante as danças os escravos tramassem alguma fuga ou rebelião, nos dias de hoje o Tambor é praticado como uma maneira de sociabilidade e considerado uma importante manifestação da cultura local.
Esse aspecto é o que mais vem se destacando ultimamente já que muitos visitantes quando chegam em São Luis, por exemplo, querem ver a dança e mesmo participar dela. Muitos praticantes do tambor passaram a se organizar em grupos participando de festivais folclóricos no Brasil e mesmo no exterior. Esse maior interesse também não deixa de trazer implicações, já que, a manifestação perdeu a sua espontaneidade de outrora, passando a ser praticada também com um caráter mais artístico.

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