Mais valioso que ouro. Assim é o samba para o historiador Marcos Alvito. “Os alquimistas buscavam transformar qualquer coisa em ouro. Já o samba transforma tristeza em alegria. É a tecnologia que os americanos queriam ter, mas não tem”, garantiu o pesquisador no debate do Balaio de Histórias no Ponto de Cultura Samba de Roda, em Santo Amaro (BA). Professor da Universidade Federal Fluminense, ele apresentou a história de João da Baiana, mostrando como o músico usava sua arte para virar de cabeça para baixo os preconceitos raciais da época.
Atravessando o samba, a polícia do início do século passado tratava os sambistas como marginais. E João da Baiana não foi exceção. Mas ele soube usar seu prestígio em prol do seu sossego. “João da Baiana conseguiu um pandeiro assinado pelo senador Pinheiro Machado, que era seu fã. Aí ele andava com um pandeiro pra tocar e este assinado ficava guardado para ele mostrar quando a polícia vinha dar paulada”, afirmou Alvito.
João da Baiana aprendeu as primeiras músicas ainda pequeno, através de seus avós. “Os negros tiveram que deixar tudo na África quando foram escravizados. Mas trouxeram seus cantos, danças e tradições. O corpo dos negros guardou sua memória”, disse. Segundo ele, precisar o local de nascimento do samba é uma tarefa impossível. “Não dá para dizer quem inventou a música. Do mesmo modo, não dá para falar onde o samba nasceu. Foram milhares de pessoas. É uma invenção do povo que vai se aperfeiçoando. Em cada lugar você encontra uma modalidade diferente. O samba é fruto dessa reinterpretação da tradição africana”. O próprio samba de João da Baiana se mostra bastante diferente da maioria das músicas do gênero atuais, com batidas mais “amarradas”.
O historiador recordou ainda o resultado de uma pesquisa do etnomusicólogo Armênio Graça Filho para exemplificar sua ideia. Durante uma viagem para a África Oriental, o maestro registrou cantos e tambores no Burundi e teve a estranha sensação de familiaridade com a música. Tempo depois, percebeu que a estrutura rítmica era bastante semelhante a algumas manifestações da festa da Nossa Senhora do Rosário, em Diamantina (MG). Tradições próximas, mas separadas por quase 10 mil kilômetros de distância. “Ou seja, não dá para dizer onde o samba começou. O samba começou no coração”, concluiu.
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