Física verde-amarela
sexta-feira, 29 de outubro de 2010 |
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Passadas as eleições, o presidente Lula irá assinar em breve um decreto declarando o acervo do pesquisador Cesar Lattes uma documentação de interesse público e social. Já reconhecido como tal pela Comissão Nacional de Arquivos, órgão vinculado ao Arquivo Nacional, o material está dividido entre o Instituto de Física e o Sistema de Arquivos da UNICAMP, podendo agora ser reunido em um único espaço. A iniciativa pela valorização da história de Lattes partiu do pesquisador Jonas Federman, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nesta conversa, Jonas conta como surgiu seu interesse pela história da física e sua atual pesquisa sobre as aproximações entre ciência e arte.
Como surgiu seu interesse pela física e por Lattes? Qual era a abordagem inicial da pesquisa sobre ciência e patrimônio histórico na reforma da Museu Nacional de Belas Artes?
Minha tese de doutoramento em História da Ciência defendida no HCTE/UFRJ em 2008 teve o seguinte título: Um processo decisório do IPHAN: o caso do Museu Nacional de Belas Artes. A abordagem da tese inspirou-se, entre outros autores, em Steven Shapin (A Revolução Científica. Lisboa, 1999). Portanto a tensão entre ciência, arte e patrimônio foi entendida como uma interseção de saberes. Uma forte e crescente disputa institucional entre a Coppe/UFRJ, o MNBA e, o IPHAN. O interesse por Lattes veio depois quando já havia reunido, ao longo do doutoramento, uma boa experiência sobre sobre como o país oficialmente preserva sua memória. Na sequência fui em busca do meu pós doutoramento e pensei no projeto URCA.
Quando surgiu a ideia de tornar público o acervo de Lattes? Por quê?
Conhecendo os principais caminhos de defesa e tomabamento percebi que eu poderia defender e tombar o campus da Praia Vermelha. Foi aí que eu pensei no projeto URCA. Era uma homenagem aos grandes nomes da ciência que colocaram o país na fronteira do conhecimento na área da física, na década de 50. Mais adiante, estudando a história dos predios da Praia Vermelha percebi que era mais importante buscar documentos que comprovassem a importância dos nomes que construíram o primeiro prédio do CBPF, ainda hoje chamado Pavilhão Mário de Almeida, onde hoje está instalada a redação da Revista Ciência Hoje. César Lattes e José Leite Lopes foram nomes que mudaram a história da Ciência. O primeiro contribuiu decisivamente para a descoberta do méson pi em 1947 e no ano seguinte, Leite fez trabalhos importantes de física teórica a partir da década de 1950, como a previsão de uma partícula, a Zzero, que seria detectada cerca de duas décadas mais tarde.
Na prática, qual a vantagem deste reconhecimento oficial?
Esse tombamento declara seu objeto de interesse público e social. Uma vez o decreto assinado pela Presidência da República esses documentos passam a fazer parte do Patrimônio Histórico Científico Nacional. Este reconhecimento oficial significa que esses documentos não podem saír do país e garantem um cuidado que até o momento o acervo não vinha tendo, conforme documentado no processo que encaminhei ao CONARQ. Na prática esse reconhecimento garante por decreto que essa chapas e toda a documentação relativa a César Lattes passe a ser cuidada com toda atenção que merece.
Quais são as preciosidades deste acervo do Lattes?
As chapas de Chacaltaya e outras que hoje se encontram na Universidade Estadual de Campinas são a prova, a confirmação da pesquisa do Prof. Cesar Lattes e seus colaboradores. Todo o acervo em questão é precioso. As chapas possibilitaram o estudo dos raios cosmicos. Foi a partir de pesquisas nessa área que Lattes constatou, na prática, a suspeita do fisico Hideki Yukawa a respeito da existência méson pi, particula que mantem o núcleo do átomo estável. Nas chapas de Chacaltaya, há fenômenos associados aos raios cósmicos que ainda não são bem entendidos pela física. São os chamados fenômenos exóticos, aos quais Lattes deu nomes brasileiros, como guaçu, açu, mirim, centauro, por exemplo. Os físicos no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), em Genebra, onde está o mais potente acelerador de partículas da atualidade, tentarão reproduzir esses fenômenos naquela máquina gigantesca. Se eles tiverem sucesso, as chapas de Chacaltaya se tornarão ainda mais importantes, pois permitirão comparar como a natureza e as máquinas produzem esse mesmo fenômeno.
Por que a mudança de foco da pesquisa para arte digital? Qual as novas relações que este gênero estabelece com a ciência?
A mudança de foco se deu quando percebi a ligação da pesquisa de base na área da física com o surgimento da Web. Em março de 1989, o britânico Tim Berners-Lee escreveu no Cern, em Genebra, um projeto chamado "Information Management: A Proposal" (gerenciamento de informação: uma proposta), que deu origem à internet. "1990 foi um ano de importantes acontecimentos mundiais. Em fevereiro, Nelson Mandela foi libertado após 27 anos de prisão. Em abril, o ônibus espacial Discovery colocou o telescópio espacial Hubble em órbita. E, em outubro, a Alemanha foi reunificada. Então, no final de 1990, ocorreu uma revolução que mudou a forma como vivemos hoje. Foi no Cern, Organização Europeia para Pesquisa Nuclear, onde tudo começou em março de 1989." Assim começa a mensagem de boas-vindas que se lê hoje no site do primeiro servidor mundial da história da internet: http://info.cern.ch. Foi no Cern, Organização Europeia para Pesquisa Nuclear, onde tudo começou em março de 1989.
Minha atual pesquisa - ARTE em TRÂNSITO - partiu daí, do entendimento que a pesquisa de base na área da Física há duas décadas transformou o campo da Comunicação. Percebi que se passaram mais de 50 anos e "As duas culturas" (C.P. Snow, 1959) ainda é uma publicação instigante que toca indiscriminadamente toda a academia. Assim meu atual projeto de pós doutoramento na área de Comunicação da PUC SP aproxima as duas culturas, a científica e humana buscando perceber através de entrevistas e leituras como especificamente a estética digital e o entendimento do que seria hoje um gesto artístico tem uma íntima relação com a ciência e em especial, com campo da comunicação e da arte telemática.
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Cristina Rego Monteiro da Luz Disse:
1 novembro de 2010 as 0:57Parabéns pela sistematização e seriedade como pesquisador do Prof Jonas Federman, nosso colega na Escola de comunicação. É uma satisfação ver o reconhecimento do resultado de seu trabalho!
Parabéns a ela e grata pela possibilidade de tornar acessível o fruto de seu esforço.