História da Ciência


Do cárcere à nova psiquiatria

 

 

Do cárcere à nova psiquiatria


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

 

 

Walter Melo

Nise da Silveira esteve presa durante a ditadura Vargas e, após comparar o presídio com o hospício, revolucionou a área da saúde mental no Brasil

 

A imagem pela qual a médica alagoana Nise da Silveira (1905-1999) ficou conhecida – a “libertadora dos loucos por meio da arte”– representa de maneira simplista o percurso intelectual da psiquiatra. Sua trajetória contribuiu efetivamente para a reabilitação psicossocial de diversas pessoas, além de modificar a visão histórica negativa que recai sobre o chamado doente mental.

Nise se formou em 1926 na Faculdade de Medicina da Bahia e, em seguida, foi morar no Rio de Janeiro. Naquela época, o clima era de disputas entre dois grupos: o dos católicos, liderados por Tristão de Athayde (1893-1983), e os de esquerda, tendo Castro Rebelo (1884-1970) à frente. Certa noite, ela assistiu a uma palestra deste último e, arrebatada pela força do discurso, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Inscrita em um concurso para psiquiatria, a médica, nesse período, concentrou-se nos estudos e deixou de frequentar as reuniões do PCB, sendo, então, expulsa como trotskista. Em setembro de 1933, foi aprovada no concurso e passou a morar no Hospital Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro. Ali, Nise tentava estabelecer vínculos com os pacientes, como ocorreu com a interna Luísa, que todos os dias lhe levava café da manhã.

Em seus períodos de folga do hospital, a psiquiatra fazia atendimentos médicos voluntários na União Feminina do Brasil (UFB), entidade feminista que, no dia 21 de junho de 1935, aderiu à Aliança Nacional Libertadora (ANL). Em menos de um mês, porém, o governo de Getúlio Vargas fechou as sedes da ANL e da UFB.

O trabalho no hospital foi interrompido em março de 1936, durante a repressão do regime ditatorial de Vargas, que levou à prisão grande parte da intelectualidade brasileira – pessoas que lutavam pelos ideais democráticos e, após a Insurreição Comunista de 26 de novembro de 1935, passaram a ser consideradas inimigas do governo brasileiro. Nesse clima de desconfiança, Nise foi denunciada por uma enfermeira do Hospital Nacional de Alienados porque possuía livros comunistas.

Enquanto esteve presa, rapidamente percebeu as semelhanças entre o presídio e o hospício. Observou que muitos prisioneiros começaram a apresentar alterações psicológicas, e, a fim de suportar a situação de isolamento social, organizavam ações recreativas, esportivas e de estudos. A médica afirmou, então, que “todo prisioneiro busca uma atividade para não sucumbir psiquicamente”. O mesmo método poderia ser aplicado em relação aos internos do hospital psiquiátrico. A partir dessa experiência no presídio, imaginou que o local de tratamento deveria ser aberto e com diversas ocupações.

Uma terceira análise se deu após lhe contarem, durante uma visita, o que acontecera no hospício: no dia seguinte ao da prisão, Luísa foi levar o café da manhã para a médica. Mas como não a encontrou, a moça procurou saber o que havia ocorrido. Quando lhe disseram que Nise havia sido denunciada, a interna deu uma surra na enfermeira. Assim, a psiquiatra chegou à conclusão de que o novo local de tratamento teria de ser também pautado pela afetividade.

Liberdade, atividade e afetividade são as noções em que Nise da Silveira se baseou para a ampliação dos horizontes da psiquiatria. Com esses três parâmetros de trabalho, a médica subverteu toda a ordem que fez dos hospícios locais de exclusão, de inatividade absoluta e de impossibilidade de qualquer relação entre os técnicos do hospital e os internos.

Anos mais tarde, as observações efetuadas dentro do presídio e os paralelos que estabeleceu com o hospício foram sistematizados pelo sociólogo Erving Goffman (1922-1982). Em seu clássico livro Manicômios, Prisões e Conventos, o autor afirma que toda instituição tende ao fechamento e, mais ainda, que algumas delas apresentam a característica de serem totalmente fechadas. Nesse caso se encontram, por exemplo, o presídio e o hospital psiquiátrico, locais denominados como “instituições totais”. São caracterizadas como total por possuírem, em um mesmo lugar, a concentração do que se costuma fazer em dimensões sociais diversas, com pessoas diferentes e com autoridades específicas para cada situação: dormir, ter lazer e trabalhar. Na questão do hospital psiquiátrico, a cultura da internação acarreta um processo de mortificação do eu.

As características asilares por si só já afetam a personalidade daqueles que estão internados. O trabalho que Nise da Silveira pretendia desenvolver teria de ir de encontro a esse processo devastador de mortificação. A médica permaneceu presa até junho de 1937, e sua volta ao trabalho foi permitida apenas em 1944. Justamente durante o período em que esteve afastada, surgiram novos métodos de “tratamento”: eletrochoque, coma insulínico e lobotomia.

Diante desse pesado arsenal, mas com a visão ampliada pelas experiências que passou e as reflexões que fez no presídio, Nise da Silveira reiniciou seu trabalho na psiquiatria. Ao assumir a direção da Sessão de Terapêutica Ocupacional, no Centro Psiquiátrico Nacional, recusou-se terminantemente a utilizar os novos modelos “terapêuticos” e começou a colocar em prática o tratamento pautado no afeto, definindo-o como “método não agressivo”.

Antes de Nise, as atividades de terapia ocupacional seguiam a lógica das instituições totais, ou seja, não estavam a serviço nem da terapia nem da reabilitação; integravam, sim, o burocrático mecanismo de organização institucional. Rompendo com esse padrão, abandonou diversas ações, como juntar estopa, carregar roupas sujas para a lavanderia, varrer o chão, e promoveu atividades expressivas, como pintura, modelagem, teatro, dentre outras. A médica tinha por objetivo descobrir quais eram os pensamentos e as emoções daquelas pessoas.

Para serem caracterizadas como uma modalidade de psicoterapia de cunho não verbal, as atividades expressivas deveriam ser organizadas em ambiente afetivo, totalmente diverso do que se encontrava estabelecido nas enfermarias e pátios do hospital psiquiátrico. A afetividade é tão importante no modelo de tratamento preconizado por Nise da Silveira que ela cunhou o termo “afeto catalisador” para definir a função que um terapeuta deveria exercer na relação com os frequentadores dos ateliês. A relação afetiva transformou o ambiente hospitalar, assim como a maneira de o terapeuta compreender o chamado doente mental.

Com as atividades expressivas e a relação afetiva, estavam criadas as condições mínimas para se iniciar uma proposta de tratamento. Faltava, ainda, outro fator de suma importância na total transformação no campo da saúde mental: a liberdade.

Em 1956, junto com a psiquiatra Maria Stella Braga, a assistente social Lygia Loureiro e a artista plástica Bellah Paes Leme, Nise fundou a Casa das Palmeiras com o propósito de evitar as internações psiquiátricas. O local congrega as atividades expressivas, a função terapêutica do afeto e a liberdade. Esse pequeno espaço funciona com as portas abertas e, em sua simplicidade, subverte completamente as características apresentadas pelas instituições totais. Em lugar de grandes espaços físicos, uma pequena casa; em vez de muros altos e dos arames farpados, portas e janelas abertas. Lá, o abandono é substituído pelo afeto, e os métodos agressivos pelas atividades expressivas. Não são mais poucas pessoas administrando muitos internos; são terapeutas atentos aos desdobramentos intrapsíquicos. A segregação deu lugar à reabilitação psicossocial. E não existe mais a mortificação do eu, e sim verdadeiros processos de renascimento.

Quando questionada sobre o motivo de não criar uma filial da Casa das Palmeiras, a psiquiatra respondia que não era necessário, pois, um dia, os órgãos governamentais iriam perceber que “tratar não combina em nada com excluir da sociedade”. Estava certa: em 1987, foi instituído o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do país. Em 2001, dois anos após o falecimento da psiquiatra, foi aprovada a Lei 10.216 (Lei Paulo Delgado), que dispõe sobre a diminuição gradual dos leitos asilares e a criação de serviços substitutivos. Atualmente, já existem mais de mil Caps por todo o território nacional, e o número de leitos com características asilares foi reduzido significativamente.

O campo da saúde mental no Brasil está em pleno processo de transformação. O cenário de terror dos grandes asilos psiquiátricos está sendo substituído pelos novos modelos de tratamento, sendo Nise da Silveira uma das principais responsáveis por essa ampliação dos horizontes.

Walter Melo é professor da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ) e autor de Nise da Silveira (Imago/CFP, 2001).

 

Saiba Mais

BEZERRA, Élvia. A Trinca do Curvelo: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

GULLAR, Ferreira. Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996.

LUCCHESI, Marco. Viagem a Florença: cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

SILVEIRA, Nise da. O Mundo das Imagens. São Paulo: Ática, 1992.

 Filmes: 

“Imagens do Inconsciente”, dirigido por Leon Hirszman (1983 a 1985).

“Estrela de Oito Pontas”, dirigido por Marcos Magalhães e Fernando Diniz (1996).

 Sites:

www.museuimagensdoinconsciente.org.br/

 www.espacoartaudciadeteatro.blogspot.com/

 

 


 

Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta.

 

 

Deixe um comentário



 


 

 

PUC-Minas: Terminam inscrições para o vestibular 2013 de inverno
AM: Pai flagra professor violentando filho de 11 anos dentro de instituto federal
Sem acordo, professores municipais de SP decidem manter greve
Governo de SP ganha disputa sobre jornada de professores

 

 

 

 

 

CNPq Fundação Biblioteca Nacional SABIN Universidade Federal Fluminense Revista de História da Biblioteca Nacional
Edições Impressas - 1ª Edição e 2ª Edição | Contéudo Online | Galerias De Videos | Links Interessantes | Contato
Licença Creative Commons
Todo conteúdo do portal História da Ciência pode ser livremente copiado e transformado para fins não-comerciais, desde que seja mantida a referência aos autores e a obra derivada compartilhe da mesma licença ou outra similar.

2010 - Revista de História da Biblioteca Nacional - Desenvolvido por FBS WebHouse