Nem centro nem periferia
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010 |
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Lorelai Kury
Novas abordagens sobre a historiografia das ciências brasileiras mostram que periferia é relativo quando se trata de invenções humanas
Refletir sobre as conexões entre local e universal é algo comum na historiografia das ciências. Desde o século XIX, os autores que analisaram as ciências no Brasil avaliaram o país “atrasado” em relação aos grandes centros. Os próprios conceitos e palavras utilizados pelos historiadores expressavam a opção interpretativa de tratar a ciência brasileira como dependente daquela praticada nos centros de poder. Falar, por exemplo, em “chegada” ou “difusão” da ciência moderna no Brasil ou na América portuguesa indicava, muitas vezes, a própria ciência como um conjunto de conteúdos estanque, criado sob o ponto de vista europeu. Assim, a produção científica seria considerada de boa qualidade se conseguisse reproduzir esses conteúdos. O tipo de postura historiográfica em questão inclui tanto autores que trabalhavam com uma ideia linear de progresso, típica do século XIX, quanto escritos mais recentes, influenciados pela abordagem difusionista de George Basala. Como as realidades são diferentes, por nem sempre se adequarem aos padrões internacionais, as interpretações falavam em cópias malfeitas, em empreendimentos mal realizados, em promessas a se cumprir. A explicação, então, no que se refere ao caso brasileiro, centrava-se no fato de não ter havido universidade no Brasil antes do século XX ou de não existirem instituições adequadas para a prática científica.
Dentro dos marcos dessas interpretações, mas basculando para o polo oposto, é comum a exacerbação do orgulho nacional, que buscava demonstrar que o Brasil já possuía ciência “de ponta” desde os tempos coloniais ou que muitos “brasileiros” geniais não foram reconhecidos em seu tempo. Um dos nomes mais citados pela historiografia é o de Bartolomeu de Gusmão, o padre voador, que teria inventado o primeiro balão de ar quente. Também os viajantes, como Alexandre Rodrigues Ferreira, tiveram seus trabalhos esquecidos, apesar de sua qualidade. Alguns autores acusavam certos estrangeiros, às vezes injustamente, de não realizarem trabalhos próprios, mas de terem se apropriado das pesquisas efetuadas por cientistas daqui, como é o caso das trocas científicas entre o viajante Martius e o botânico brasileiro Francisco Freire Alemão.
Para os historiadores atuais não se trata de negar as diferenças entre os países ou defender que não seja necessário investir em ciência e tecnologia. A questão se coloca por outro ângulo. Em primeiro lugar, a própria reavaliação do estatuto das ciências entende que o caminho traçado não foi o mesmo por todos. O que se conhece por ciência foi e é fruto de escolhas políticas, sociais e econômicas, que se refazem a cada dia formando possíveis horizontes futuros. O olhar da história sobre a ciência deve buscar as construções e invenções humanas. Em segundo lugar, os historiadores têm mostrado que não se pode falar em uma periferia colonial passiva, modelada por um centro de atividade científica dinâmica. As ciências se criam e se praticam a partir de lógicas de exclusão, inclusão, monopólios, grupos, escolhas. Cabe aos historiadores enfatizar os aspectos “negociados” dessas relações, mostrando como os centros e periferias são heterogêneos. Há setores mais ou menos integrados aos fluxos dominantes. As posições de força não dependem tanto da nacionalidade, mas dos grupos e do tipo de integração e movimentação das práticas científicas locais. Além disso, seria mais correto definir o universo científico como policêntrico, ao invés de considerar a existência de um único ponto central.
Lorelai Kury é pesquisadora e professora da Casa de Oswaldo Cruz (COC) e organizadora de Comissão Científica do Império: 1859-1861 (Andrea Jakobsson Estúdio, 2009).
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