História da Ciência


O Brasil que conheceu o Brasil

 

 

O Brasil que conheceu o Brasil


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

 

 

Nísia Trindade Lima

Na Primeira República, cientistas do Instituto Oswaldo Cruz desbravaram os sertões do país

O Brazil não conhece o Brasil. / O Brasil nunca foi ao Brazil. Os versos da música “Querelas do Brasil”, de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, resumem um sentimento de distância e estranhamento na nossa imaginação. A sociedade brasileira, há tempos, parece reunir múltiplos países ao mesmo tempo em que é desconhecida pela população. Durante a Primeira República (1889-1930), esse foi um tema recorrente, que pode ser percebido na afirmativa dos médicos Arthur Neiva (1880-1943) e Belisário Penna (1868-1939) após uma viagem que realizaram em 1912 pelo país: “Raro é o indivíduo que sabe o que é o Brasil.”

Como na canção da década de 1970, a frase revela a situação das populações sertanejas, que não demonstravam qualquer sentimento de identidade nacional. A constatação também poderia se referir aos habitantes do litoral, pois, na denúncia feita nesse documento, sobressaía a ideia de um país que era estrangeiro a si mesmo. Mais do que separação geográfica, tratava-se de distância social e cultural, parecida com a que Euclides da Cunha (1866-1909) afirmara ao presenciar o dramático desfecho da Guerra de Canudos.

As ideias de Euclides foram muito difundidas nas três primeiras décadas do século XX, quando militares, médicos, educadores e literatos referiam-se ao tema da incorporação dos sertões brasileiros. Não havia precisão geográfica no uso do termo “sertão”, o que se evidencia na diversidade de lugares designados: da Amazônia aos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro. Em poucas palavras, o sertão se localizava onde estava ausente o poder público. Naquele contexto, as viagens realizadas por cientistas do Instituto Oswaldo Cruz desempenharam importante papel.

Desde sua origem, em 1900, quando ainda se chamava Instituto Soroterápico Federal com o objetivo de criar soro contra a peste bubônica, o Instituto Oswaldo Cruz não limitou suas atividades ao Rio de Janeiro, ainda que, naquele momento, fossem mais acentuadas as intervenções sobre as condições sanitárias da então capital da República. Buscando conhecer os problemas médicos do país, as ações dos cientistas do Instituto logo tomaram o rumo do interior.

A partir de 1907, na mesma época em que a Comissão Rondon desbravava os sertões para construir linhas telegráficas, intensificaram-se as viagens promovidas pelo Instituto Oswaldo Cruz. Foi naquele ano que Carlos Chagas (1879-1934) e Belisário Penna dirigiram-se a Lassance, no norte de Minas Gerais, por requisição da Estrada de Ferro Central do Brasil, que projetava estender a ferrovia até Pirapora. A finalidade principal era realizar a prevenção da malária, que dizimava os trabalhadores contratados para prolongar a linha férrea. Durante os trabalhos, Chagas descobriu uma doença que levaria seu nome e se tornou um símbolo da medicina brasileira, constituindo o foco de interesse de muitas das viagens que se seguiram.

A tentativa de compor um retrato do Brasil adquiriu tons ainda mais vivos nas expedições científicas relacionadas a projetos de desenvolvimento regional. Esse foi o caso das que ocorreram por requisição da Superintendência da Defesa da Borracha e, sobretudo, pela Inspetoria de Obras contra as Secas. Por solicitação dessa agência estatal, organizaram-se três viagens para levantar as condições epidemiológicas e socioeconômicas de regiões percorridas pelos rios São Francisco e Tocantins. Dentre elas, a que se tornou mais conhecida foi a de Arthur Neiva e Belisário Penna a localidades dos estados da Bahia, Pernambuco, Piauí e Goiás. De março a outubro de 1912, eles efetuaram amplo levantamento das condições de vida e de trabalho, com um expressivo registro fotográfico, além de redigirem o relatório que se tornou uma referência para o movimento em prol do saneamento rural na Primeira República.

Os dois médicos já haviam realizado importantes atividades no campo da saúde pública. Arthur Neiva, reconhecido por seus trabalhos em entomologia, pertencia aos quadros de Manguinhos desde 1906. Belisário Penna, por sua vez, era inspetor do Departamento Geral de Saúde Pública, cargo que ocupava desde 1904.

Na leitura do relatório que escreveram, verifica-se que um dos principais objetivos da viagem de Neiva e Penna foi encontrar evidências para a importância epidemiológica da doença de Chagas, o que se constata tanto no texto como nas fotografias que o acompanhavam. Os autores ressaltaram o ‘espírito de rotina’, o qual se manifestava na ausência de moeda, no uso do tear manual, no sistema de medidas adotado e na linguagem. Observaram que, à exceção dos fazendeiros e alguns indivíduos viajados, ninguém dava importância ao dinheiro, e se poderiam oferecer quantias relativamente grandes por uma dúzia de ovos sem sucesso. O espírito de rotina se revelava também na linguagem caracterizada pelo uso de arcaísmos, a exemplo do verbo assistir, que era empregado com o mesmo significado de morar.

Percorrendo longos trechos em lombos de burro, atravessando regiões secas até chegarem aos gerais goianos, em muitos momentos, os médicos enfatizaram as dificuldades encontradas no extenso trajeto, principalmente a carência de recursos e de água na região das secas. Observaram a miséria e abandono das populações em todo o caminho, mas principalmente no norte de Goiás. Essa situação era atribuída à ausência de autoridade pública que garantisse os mais elementares direitos civis. No texto do relatório, afirma-se que os sertanejos viviam abandonados de toda e qualquer assistência: sem estradas, polícia, escolas e cuidados médicos ou higiênicos. Contavam exclusivamente “com seus parquíssimos recursos, defendendo suas vidas e propriedades a bacamarte, sem proteção de espécie alguma, sabendo da existência de governos, porque se lhes cobram impostos de bezerros, de bois, de cavalos e burros.”

Ao associarem o conhecimento da bacteriologia aos métodos e à perspectiva da medicina tropical, Neiva e Penna levaram em conta diversos aspectos: doenças, fatores ambientais, hábitos, linguagem e atividades econômicas das populações. A busca de conhecimentos da geografia, da cultura e da história dessas localidades, fundamentais para a compreensão da incidência de determinadas doenças e sua distribuição no tempo e no espaço, favoreceu uma perspectiva mais ampla sobre os indivíduos com quem tiveram contato. Assim, esses médicos não restringiram seu campo de observação e seus interesses ao microscópio e ao laboratório. Essa perspectiva ampla contribuiu para que participassem do debate político sobre a questão nacional durante a Primeira República ao acentuarem a estreita relação entre isolamento, doença e atraso.

A repercussão do relatório, publicado originalmente em Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, um periódico científico de circulação restrita, tornou-se mais ampla com a criação da Liga Pró-Saneamento do Brasil, em 1918, sob a liderança de Belisário Penna. Era um ano marcado pelo término da Primeira Guerra Mundial, quando se intensificou a crítica tanto ao ufanismo em torno das grandezas nacionais quanto às concepções negativas, que ressaltavam a inferioridade racial da população.

Uma das polêmicas da época havia sido motivada pelo personagem Jeca Tatu, criado, em 1914, por Monteiro Lobato. Retratado como um “piolho da terra”, um “parasita”, atrasado e indolente, o caipira do Vale do Paraíba foi considerado o principal obstáculo ao progresso do país. O Jeca, que se tornou um ícone dos pobres na literatura brasileira, seria, posteriormente, olhado com mais indulgência por seu criador na medida em que se intensificava o debate sobre as precárias condições de saúde como explicação para a apatia do homem do interior. Em contato com as denúncias feitas por Arthur Neiva e Belisário Penna, dentre outros médicos, Lobato passa a responsabilizar as doenças e o descaso dos governos pela situação de atraso em que se encontravam as populações rurais. Daí a frase que se tornou bastante conhecida: “Jeca Tatu não é assim, ele está assim.” Em 1918, num texto publicado no livro Problema Vital, a ressurreição do Jeca foi narrada na forma de uma parábola dirigida às crianças. Ao passar a acreditar na ciência médica e a seguir as prescrições higiênicas, o personagem se transformou. Livre das verminoses e, como consequência, do estado de apatia, tornava-se produtivo e, em pouco tempo, um próspero fazendeiro e um educador sanitário. Passou a figurar em campanhas educativas, propaganda de complementos alimentares como o Biotônico Fontoura, bem como em programas de rádio.

Além da popularização do personagem lobatiano, outras medidas vinham sendo tomadas para a prevenção de doenças. Em razão do movimento político desencadeado a partir das missões científicas nos sertões, foi criado, em 1920, o Departamento Nacional de Saúde Pública sob a liderança de Carlos Chagas. Foram montados postos de profilaxia rural em diferentes estados. Ainda que o resultado para a melhoria das condições de vida fosse pequeno, significava a presença do Estado na criação de políticas de atenção à saúde de populações, as quais, como afirmaram Arthur Neiva e Belisário Penna, só sabiam de governos pelos impostos que lhes eram cobrados.

A campanha contribuiu para a composição de novos retratos do Brasil em forte diálogo com as ideias médicas. Os exemplos são numerosos tanto nas artes quanto nos ensaios sociais e políticos. Um exemplo está na conhecida frase do livro Macunaíma, de Mario de Andrade: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são.” Alusões à metáfora da doença para se referir ao país e à presença de discussões em torno do Jeca Tatu também estão presentes em textos de intelectuais de diferentes posições, estilos e épocas, como Rui Barbosa, Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Fernando de Azevedo e Antonio Candido.

Todo esse referencial constitui o resultado das viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz. Ainda que pouco conhecidas hoje, alcançaram notável repercussão em sua época, revelando para as elites urbanas um sertão pouco conhecido, mas que era quase do tamanho do Brasil.

Nísia Trindade Lima é pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e autora de Um Sertão Chamado Brasil: Intelectuais e Representações Geográficas da Identidade Nacional (Rio de Janeiro: Revan/Iuperj, 1999).

Saiba Mais

KROPF, S. P. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação (1909-1962). 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009.

KROPF, Simone e Sá; DOMINICHI Miranda de (org.). Chagas do Brasil: ciência, saúde e sociedade. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, v. 16, suplemento 1, 2009.

HOCHMAN, Gilberto. A era do saneamento. As bases da política de saúde pública no Brasil. São Paulo: Hucitec/Anpocs, 1998.

SANTOS, Luiz Antonio de Castro. O pensamento sanitarista na Primeira
República: uma ideologia de construção da nacionalidade. Dados. Revista de
Ciências Sociais. Rio de Janeiro, v. 28, n. 2, pp.193-210, 1985.

 

 


 

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