Também estamos na busca
domingo, 9 de janeiro de 2011 |
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Ela se baseia em uma pergunta aparentemente simples, mas extremamente complexa e ainda sem resposta: o que é a vida? A astrobiologia é uma ciência conhecida apenas pela busca de vida extraterrestre, mas, embora este seja o objetivo principal, só pode ser alcançado por meio de um conhecimento cada vez mais aprofundado da vida em si e suas potencialidades.
No mundo, a astrobiologia é conhecida principalmente sob a sigla do Seti (Search for Extra-Terrestrial Intelligence), um programa norte-americano dedicado à busca por vida fora da Terra, principalmente por meio da captação de ondas de rádio. A Nasa, claro, tem programas de astrobiologia, mas há também a European Astrobiology Network Association (EANA), na Europa e... O AstroBio Brazil, localizado em território nacional.
É isso mesmo: o Brasil tem um grupo de pesquisa em astrobiologia. Organizado em 2006 após o primeiro
workshop na área, o AstroBio Brazil é vinculado à Universidade de São Paulo (USP) e galga seus primeiros passos para se consolidar. Seu laboratório está sendo construído no observatório da USP em Valinhos, no estado de São Paulo.
Ele terá equipamentos multidisciplinares que a área exige – biologia, física, química, astronomia – e um diferencial: uma câmara de simulação de ambientes espaciais. Na prática, trata-se de uma sala vedada de aço que suporta alto vácuo e pressões mais baixas que as da atmosfera terrestre.
“Ele pode ajudar a simular tanto o espaço, onde há vácuo, como outros planetas que têm atmosfera mais ‘fina’ que a da Terra”, explica o químico Fábio Rodrigues, pós-doutorando em química envolvido no AstroBio Brazil. “Haverá também um simulador solar para que possamos analisar o efeito do sol sobre certos elementos.”
Por ser uma área ainda recente no Brasil, ainda não há pesquisadores formados em astrobiologia. O grupo de pesquisa reúne, na verdade, cientistas de outras áreas relacionadas que estudem alguns dos – muitos – aspectos relacionados à vida fora da Terra.
Rodrigues conta que a astrobiologia envolve quatro elementos principais de estudo: a origem da vida, o caminho dela até os dias de hoje, qual o futuro da vida na Terra e – claro – se existe vida em outros planetas.
Lá fora e aqui dentro
Não apenas de sondas e buscas pelo espaço vive a astrobiologia. A maior parte das pesquisas, tanto brasileiras quanto internacionais, se dedica a estudar elementos na própria Terra. Além de serem mais baratos e de execução mais fácil, esses estudos são importantes para entender como a vida pode se manifestar fora do nosso planeta.
“Antes, se considerava a Terra uma caixa fechada. A astrobiologia nasceu quando se ‘abriu’ essa caixa e leva em conta elementos externos ao planeta”, explica Rodrigues. Microorganismos que vivem em ambientes extremos, como a Antártica ou o deserto do Atacama – chamados de extremófilos – são importantes para observarmos como a vida se adapta às mais diversas condições ambientais.
Aí está uma das maiores dificuldades da astrobiologia: como conhecemos apenas a vida existente na Terra, buscamos em outros planetas condições e elementos semelhantes aos daqui – uma idéia sobre a qual não se pode ter certeza.
Por isso, quando se tem descobertas como a da bactéria que utiliza arsênico (considerado um elemento tóxico) no lugar do fósforo (considerado elemento essencial à vida), os conceitos sobre o que é necessário para o estabelecimento de vida ficam abalados. “Temos que expandir o modelo que temos de vida, e a bactéria do lago Mono ajudou a vermos outras possibilidades”, opina Rodrigues.
Os estudos em astrobiologia mais antigos em curso Brasil são desenvolvidos pelos biólogos Claudia Lage e Ivan Lima, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e pelos astrônomos Eduardo Janot e Douglas Galante, da USP.
O doutorado de Lima, orientado por Lage, teve como tema o espalhamento de vida para outros planetas. Os biólogos estudaram microorganismos que sobrevivem, por exemplo, ao vácuo ou à radiação, e tentaram organizar modelos de como esses organismos poderiam sair da Terra e ir para outro planeta.
“Não é uma hipótese comprovada, mas Lage e Lima perceberam que quando uma rocha muito grande entra na atmosfera terrestre, ela queima e quaisquer microorganismos que possam estar nela morrem”, explica Rodrigues. “No entanto, se forem grãos muito pequenos, o atrito com a atmosfera é menor, podendo entrar e sair dela sem danos.” A ideia é que, assim, bactérias presentes nesses pequenos grãos possam ser ejetadas para fora da Terra e ir para outros planetas.
Fora do planeta, segundo o químico, as pesquisas mais relevantes envolvem a busca por planetas em outras galáxias – os exoplanetas -, que ampliam a gama de possibilidades para a existência de vida. Para estudá-los, precisa-se desenvolver tecnologias mais avançadas, o que é impulsionado por buscas em planetas mais próximos, como as sondas que vão até Marte.
Nada de ETs verdes
O fato é que não se sabe se existe vida fora da Terra. Se existir, no entanto, ela dificilmente será na forma de seres ultrainteligentes e desenvolvidos como sugerem os filmes de ficção científica.
“Nossas pesquisas na Terra apontam que as únicas criaturas que sobrevivem em ambientes extremos são microorganismos. Portanto, é mais fácil que em outros planetas, se existir vida, ela exista dessa forma”, explica Rodrigues.
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