INTRODUÇÃO
Por Alberto da Costa e Silva
Neste pequeno livro mostra-se por que e como os nossos antepassados africanos, apesar de maltratados e humilhados pela escravidão, contribuíram tão fortemente para o que somos e seremos.
Um grande nome do Império, Bernardo Pereira de Vasconcelos, num debate sobre a abolição do tráfico negreiro, disse no Parlamento que “a África civilizava a América”. Poderia ter acrescentado que povoava o Brasil e garantia a ocupação de seu território. E, se os africanos aprenderam com os europeus, também lhes ensinaram, e muito. Dentre outras coisas, como cultivar os solos tropicais, criar gado em campo aberto e minerar o ouro e o ferro. Mais importante ainda foi a bagagem que trouxeram consigo, e era toda a que lhes cabia na alma, compreendendo religião, tradições, valores, saberes e comportamentos.
Durante mais de três séculos, o Brasil, de um lado, e Angola e o Golfo do Benim, de outro, completaram-se economicamente: as portas dos barracões de escravos de Luanda como que se abriram para os do Rio de Janeiro. E os de Ajudá e Lagos para os de Salvador.
Aqueles que atravessavam essas portas pertenciam a muitas etnias, várias das quais se encontraram pela primeira vez no Brasil. Aqui, as que se aproximavam pelo idioma, pelas crenças ou pelos costumes construíram novas identidades e adaptaram suas estruturas sociais e rituais religiosos às novas condições de vida. Reinventaram-se. Seus descendentes foram abrasileirando e reafricanizando à brasileira os patrimônios culturais dos ex-escravos – como teria sucedido à capoeira os maracatus.
Por muito tempo, não se deu atenção ao que, hoje, nos parece evidente: o papel do negro como civilizador. Para essa mudança de perspectiva, muito contribuiu Gilberto Freyre não só com Casa Grande & Senzala, que é de 1933, mas também com o I Congresso Afro-Brasileiro, por ele organizado no ano seguinte no Recife.
Assistimos, durante o século XX, à multiplicação dos estudos sobre o negro no Brasil, quase todos, porém, sem lhe acompanhar o passado africano. A África parecia mais que esquecida, ignorada. Embora durante a descolonização do continente se tenha reacendido o interesse brasileiro pela África, o descaso por sua história persistiu até ontem, ou anteontem. Ao começar a ser corrigido o pecado, não nos demoramos, no entanto, em reconhecer que muito do que se passava num lado do Atlântico afetava a outra margem. E nos convencemos de que o Brasil também começa na África, e a África se prolonga no Brasil.
SUMÁRIO
- Mônica Lima e Souza
Venho de Angola: do vocabulário aos costumes, a identidade brasileira tem origem no outro lado do Atlântico.
- Renato da Silveira
Do calundu ao candomblé. Os rituais de fé africanos ganharam seu primeiro templo no início do século XIX.
- Luiz Felipe de Alencastro
Com quantos escravos se constrói um país? O Brasil não era viável sem Angola.
- Anderson José Machado de Oliveira
Negra devoção! A estratégia da Igreja para converter e disciplinar os escravos.
- João José Reis
Bahia de todas as Áfricas. A trajetória dos líderes e devotos do candomblé do século XIX.
- Yvonne Maggie
O arsenal da macumba. Os objetos de feitiçaria recolhidos pela polícia ao longo do século XX.
- Alberto da Costa e Silva
Notícias da África: as anotações de José Bonifácio sobre geografia e cultura africanas.
- Mathias Röhrig Assunção e Mestre Cobra Mansa
A dança da zebra. Será que foi do ‘n'golo’, jogo de combate angolano, que nasceu a nossa capoeira?
- Ivaldo Marciano de França Lima
Tradição mutante! Visto como herança africana, o maracatu pernambucano sobrevive.
- Gustavo Henrique Tuna
O negro deu régua e compasso. A difícil missão do I Congresso Afro-Brasileiro.
- Marcelo Bittencourt
Conexão Brasil ou como a luta anticolonialista angolana contou com o apoio de muitos brasileiros.
- Marina de Mello e Souza
A descoberta da África! Nova lei obriga o ensino da história do continente africano nas escolas brasileiras.
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