Conspiração dos alfaiates

Nova versão para teatro lembra um dos mais originais levantes populares da História do Brasil

  • A História, cada vez mais, invade também – e com sucesso – o teatro brasileiro. É o caso de um dos maiores levantes populares que sobe ao palco da Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia. “Búzios: A Conspiração dos Alfaiates” estreia dia 8, não à toa, o dia em que quatro líderes da rebelião foram executados no Largo da Piedade, em Salvador. A temporada vai até o dia 13 e o ingresso será trocado por dois quilos de alimentos não perecíveis.

    O espetáculo retrata o movimento ocorrido em 1798 na Bahia conhecido também como Revolta dos Búzios, Conspiração dos Alfaiates ou Conjuração Baiana. Um grupo de ex-escravos, alguns deles soldados e alfaiates de ofício, se insurgiu contra o governo português com o apoio intelectuais e comerciantes, especialmente aqueles ligados à maçonaria.

    O episódio se destaca na nossa historiografia pela audácia de suas reivindicações, que incluíam não só a independência do Brasil como a igualdade social e racial e até a liberdade de expressão. Para o pesquisador da UFMG, Luiz Carlos Villalta, é possível até fazer um paralelo com outros movimentos anteriores, como a Inconfidência Mineira.

    “A Conspiração dos Alfaiates foi, de fato, mais contundente que a Inconfidência Mineira. A liberdade de expressão, proposta nesses termos, não constituiu uma bandeira propriamente do movimento, mas ela pode ser inferida da ação de alguns dos que nele se envolveram, particularmente de Cipriano Barata”, sustenta Villalta.

    Barata foi um dos criadores da “Academia dos Renascidos”, uma associação de intelectuais, criada na loja maçônica “Cavaleiros da Luz”, que discutia os ideais do iluminismo e os problemas sociais que afetavam a sociedade. Na época, a elevada carga tributária e a escassez de alimentos oprimiam ainda mais os setores mais pobres, ao ponto de, em 1797, ocorrerem vários saques a estabelecimentos comerciais portugueses em Salvador.

    Entre as lideranças do movimento destacaram os alfaiates João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira (então com apenas 18 anos), além dos soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, todos mulatos. O grupo tomou as ruas de Salvador para fazer uma panfletagem a fim de incitar à rebelião e angariar apoio da população.

    Mais do que uma ação revolucionária, o movimento se notabilizou por seu caráter visionário, uma vez que o pleito incluía um conjunto de direitos humanos e sociais pelos quais ainda se levaria mais de um século até a sua difusão e aceitação. Os líderes foram enforcados na Praça da Piedade e suas cabeças expostas ao público.

     

    A peça

    A peça foi montada pela primeira vez em 1992 em Salvador, com grande sucesso de público e crítica. Com Aninha Franco e Cleise Mendes, o texto ganha novo fôlego a partir do reconhecimento oficial dos “Alfaiates” como Heróis da Pátria pelo Congresso Nacional em Brasília.

    O elenco é composto por 20 pessoas, entre atores e músicos atuando numa espécie de “teatro épico”. A música é presente durante todo o tempo do espetáculo, que conta ainda com a participação do Grupo Olodum, que já produziu mais de 100 composições inspiradas na Conspiração dos Alfaiates.

    Com direção de Paulo Dourado, o espetáculo terá seis apresentações de 8 a 13 de novembro, sempre às 19h. O ingresso deverá ser trocado por 2 kg de alimentos na bilheteria do Teatro Castro Alves.

     

    Imagem de capa: Praça da Piedade, local da execução dos conjurados. Wikimedia Commons

     

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