O matadouro de Salvador ficou praticamente parado, em pleno dia útil de 1830, por falta de mão de obra. Em outra ocasião, na mesma cidade, os estivadores também não apareceram no cais. Nos dois casos, os trabalhadores estavam em greve, um tipo de protesto nada fácil, já que exige coragem e também muita clareza do que se deseja alcançar.
Para os abatedores de animais, o trabalho não era pouco. Os esfoladores – eram todos negros livres ou mulatos – matavam cerca de 550 reses por semana e recebiam 80 réis por cabeça abatida. Em 1830, de repente, anunciaram que só trabalhariam se este valor fosse aumentado para 200 réis.
O administrador – um empregado público sob a direção da Câmara Municipal – fez uma contraproposta de 120 réis e, por algum tempo, os esfoladores se conformaram. Mas quando alguns criadores de gado e marchantes – comerciantes de gado – anunciaram que conseguiriam trabalhadores que fariam o serviço por 110, o acordo caiu. No dia 16 de outubro, apenas oito trabalhadores dos 40 de costume compareceram ao serviço. Por causa dessa paralisação, a Câmara Municipal foi alertada de que no dia seguinte haveria “pouca carne à venda”. O administrador do matadouro apelou para os mercadores de gado, pedindo que mandassem seus escravos para este trabalho. Alguns colaboraram, mas não foi suficiente: no dia 5 de novembro, apenas dois cativos apareceram. O porteiro do matadouro saiu à procura dos esfoladores livres, mas eles se recusaram a trabalhar. Em desespero, o presidente da Câmara ordenou ao administrador: “Amanhã faça a esfolagem por todos os meios ao seu alcance, pagando ainda mais alguma coisa, contanto que não deixe de haver fornecimento de carne”. A questão parecia estar resolvida.
No entanto, essa vitória dos abatedores durou pouco. No dia seguinte, vários marchantes ofereceram seus escravos para trabalhar gratuitamente. Um deles conseguiu ainda recrutar substitutos entre os negros livres, alegando que, se não topassem, perderiam seus empregos para os escravos. O fato causou conflitos entre trabalhadores livres e cativos que resultaram em brigas na base da faca.
No final, a greve foi derrotada e os grevistas ficaram sem opção, a não ser aceitar a antiga baixa remuneração de 80 réis por cabeça abatida, uma quantia que compraria meio quilo de carne ou três litros de farinha. Por esse salário miserável, eles continuaram a abater, limpar, esfolar, esquartejar, tirar a sujeira, levar a carne até a balança e depois pendurá-la em ganchos.
A ameaça de perda do emprego acabou causando conflitos entre trabalhadores livres e cativos, com direito a brigas na base da faca
Essa foi a primeira greve feita no Brasil por salários mais altos, representando uma noção capitalista, em que o trabalho do indivíduo é considerado uma mercadoria que se pode comprar e vender. A partir dessa paralisação, entrando em confronto com a classe dos patrões, os esfoladores se deram conta de que eles também formavam uma classe com interesses distintos daqueles dos patrões.
Um tipo de paralisação diferente ocorreu cinco anos mais tarde na mesma cidade, e desta vez foi mais bem-sucedida. Ela envolveu carregadores e estivadores. Escravos de ganho – que prestavam serviços e repassavam a remuneração aos seus senhores – e negros libertos, na maioria africanos, carregavam grandes sacos de farinha do celeiro público até as vendas e conduziam as barcaças que transportavam mercadorias dos navios aos cais. Como era costume entre outros carregadores da cidade, uniam-se em grupos de trabalho que alugavam seus serviços no porto. O chefe era um capitão eleito por eles próprios, e cada vez que um novo líder assumia a posição, o fato era comemorado num ritual festivo. Os trabalhadores esperavam que ele conseguisse os clientes, designasse as tarefas e interferisse em eventuais querelas. Sentiam-se com poder para resistir a qualquer coação.
Mas uma nova legislação os ameaçou. Diante do esforço furioso da população branca de Salvador para recuperar sua supremacia sobre os africanos – responsáveis pela famosa Revolta dos Malês, em janeiro de 1835 – a Assembleia provincial da Bahia aprovou uma lei para regulamentar e organizar o cadastramento de carregadores, estivadores e remadores. A partir de então, todos eles seriam, contra sua vontade, designados para tripulações específicas, sob o controle de capatazes.
As novas regras determinavam que cada trabalhador, escravo ou livre, usasse uma pulseira de cobre no pulso direito com uma etiqueta especificando seu número de cadastro e a tripulação a que pertencia. Os capatazes, que seriam homens livres de nascença, portariam uma tira de couro a tiracolo em que estaria afixada uma placa de latão com o número da sua tripulação. E mais: cada paróquia teria um inspetor, um “cidadão de bem” brasileiro, que soubesse ler e escrever, que iria cadastrar os trabalhadores, indicar os capatazes, fazer uma inspeção semanal e impor a disciplina.
Os estivadores e remadores não gostaram nada das novas exigências. E não foi à toa: eles seriam obrigados a pagar uma taxa diária, tivessem trabalhado ou não naquele dia. Um terço deste dinheiro ficaria com o capataz e o restante, com o inspetor. Além disso, os trabalhadores seriam organizados em turmas, com uma turma em cada área de atracação do cais, e os capatazes ficariam em terra para supervisionar o trabalho. As barcaças, por sua vez, mostrariam o número de seu cadastro afixado na popa. Tudo isso demonstraria o firme controle das autoridades.
Os estivadores teriam que pagar uma taxa diária, tendo trabalhado ou não naquele dia. Um terço deste dinheiro ficaria com o capataz e o restante, com o inspetor
Essas obrigações começaram a ser cobradas em março de 1837, na paróquia de Conceição da Praia, e o resultado foi perturbador: nenhum trabalhador compareceu. O juiz de paz relatou que nem mesmo a Casa da Alfândega tinha barcaças à disposição, e que a paralisação tinha criado “um terrível transtorno para o comércio e um desespero para os que precisam conduzir o que é mister para o seu próprio alimento”. Outro juiz de paz contou que “todos os saveiros amarraram-se”, e que só “os batelões das embarcações miúdas” estavam funcionando. Apesar de todos os esforços para convencer os homens a voltar ao trabalho, eles se recusaram e até insultaram os inspetores e capatazes nomeados.
O presidente da província acabou reconhecendo a reinvindicação: “Nenhuma lei há que obrigue alguém a seguir este ou aquele meio de vida, podendo por isso (...) deixarem de ser ganhadores os indivíduos assim alistados”. O jeito foi mandar que os trabalhadores do Arsenal da Marinha descarregassem sacas de farinha de algumas embarcações, para então suspender a aplicação da lei até que uma nova lei fosse emitida. Os legisladores, então, optaram por sepultar o assunto nos meandros de uma comissão. A greve, enfim, tinha alcançado a vitória.
Carregadores, estivadores e remadores – apoiados na sua organização informal de costume – demonstraram sua solidariedade e sabiam da própria importância para o funcionamento do comércio. Já os capatazes negros foram rejeitados pelo grupo: a tira de couro preta com a placa de latão, embora tivesse sido projetada pelos brancos para conferir a eles um certo status, tinha surtido o efeito contrário entre aqueles acostumados a escolher seus próprios líderes. Por outro lado, muitos trabalhadores poderiam se sentir ofendidos com a exigência que equiparou libertos a escravos ao obrigar todos a usar uma pulseira de cobre, que se assemelhava a algemas.
Mas o que pretendiam preservar, principalmente, era sua autonomia. Diferentemente dos esfoladores, eles não fizeram greve por salários maiores ou condições de trabalho melhores.Como a maioria das pessoas naquela época, eles não se imaginavam como indivíduos protegidos por seus direitos, nem capazes de subir ou descer na estrutura social, mas sim como membros de um grupo ou corporação – irmandades, ordenanças ou organizações profissionais. Cada coletivo teria seus direitos e privilégios especiais definidos, seu lugar preciso nas procissões religiosas, seu modo de ser tratado – em suma, sua condição fixa. O que eles queriam é que seu papel naquela sociedade fosse simplesmente reconhecido e respeitado. Embora tenham saído vencedores a curto prazo ao manter seu status, o futuro seria mais de acordo com os desígnios dos esfoladores, que apontavam para uma sociedade de classes.
Richard Graham é professor da Universidade do Texas e autor de Feeding the city: from street market to liberal reform in Salvador, Brazil, 1780-1860 (University of Texas Press, 2010).
Saiba mais
ANDRADE, Maria José de Souza. A mão de obra escrava em Salvador, 1811–1860. São Pauloe Brasília: Corrupio e CNPq, 1988.
MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Bahia: A cidade de Salvador e seu mercado no século XIX. São Paulo e Salvador: Hucitec e Secretaria Municipal de Educação e Cultura, 1978.
VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII. Salvador: Itapuã, 1969.
Internet
REIS, João José. “A greve negra de 1857 na Bahia.” Revista USP, nº 18, 1993.
www.usp.br/revistausp/18/01-joaojose.pdf















































































