O domínio das roupas

O luxo da nobreza era exibido em seus trajes. Mais do que riqueza, o vestuário representava o poder da monarquia

Camila Borges da Silva

  • No dia 7 de março de 1808, o Rio de Janeiro parou para ver a chegada da Corte portuguesa. O desembarque da nobreza na América impressionou moradores da Colônia, que viam nas roupas e nos ornamentos dos recém-chegados um luxo inacessível. No Antigo Regime, nem todo mundo podia vestir o que quisesse. O motivo não era apenas o alto preço dos trajes, mas também as regras sociais que impediam o uso de determinadas peças. E o rígido código de vestuário que mexia com a imaginação dos colonos já estava em decadência naquela época. Desde a Revolução Francesa (1789-1799), as proibições do uso de determinadas vestimentas estavam condenadas.

    A França se consolidou como potência do comércio de moda no reinado de Luís XIV (1638-1715). O ministro Jean-Baptiste Colbert (1619-1683) chegou a criar uma indústria de rendas finas, o que levou o rei a decretar que só essas rendas poderiam ser usadas no país. Mas a Revolução Francesa rompeu com a ostentação da corte. Motivados pelo ideal de que todos os homens são iguais, os franceses aprovaram um decreto em 1793 declarando que “nenhuma pessoa de qualquer sexo poderá constranger nenhum cidadão a se vestir de uma maneira específica sob pena de ser considerada e tratada como suspeita e perseguida como perturbadora da ordem pública: cada pessoa é livre para vestir-se de acordo com seu sexo como lhe convém”.

    Apesar da Revolução, a França continuou sendo referência mundial na moda. A novidade é que as roupas passaram a ser inspiradas na Antiguidade Clássica. Os vestidos desciam lânguidos, sem armações, imitando a forma das estátuas gregas. A cintura subia até abaixo dos seios. Os tecidos eram leves e transparentes, e de preferência brancos, em um primeiro momento. Os cabelos perderam o volume e passaram a ser baixos e cacheados ou presos em coque.

    No período de governo de Napoleão (1799-1815), o luxo voltou a ser acrescentado à roupa. Os cabelos passaram a ser encobertos com turbantes – principalmente depois das incursões napoleônicas no Egito, que contribuíram para a influência do orientalismo. Os xales foram adotados em 1799, quando Napoleão trouxe alguns modelos de sua campanha egípcia. Este estilo ficou conhecido como “Império”.

    Após a Revolução Francesa, a moda do país se inspirou na Antiguidade Clássica. Os vestidos desciam lânguidos, sem armações, imitando a forma das estátuas gregas

    Em Portugal e no Brasil, ainda permaneciam em vigor as leis suntuárias, espécie de código que regulava o luxo e impunha limitações a certas roupas, tecidos e cores. Era proibido às pessoas comuns usar bordados de ouro e prata, e tecidos de seda também eram restritos. Mas uma análise da Gazeta do Rio de Janeiro, principal jornal do início do século XIX, mostra que alguns pontos dessas leis foram caindo em desuso aos poucos. Já naquela época, era possível encontrar anúncios de vestidos de seda e bordados de ouro e prata.

    O costume das mercês régias – graças concedidas pelo rei a seus vassalos – ainda continuava firme, determinando o uso de algumas roupas e insígnias. Os uniformes, por exemplo, eram usados por quem trabalhava na administração do Estado ou da Casa Real. Havia as “fardas grandes” para cerimônias e as “fardas pequenas” para o dia a dia. Na maioria das vezes, eram casacas bordadas, calções e meias de seda nas cores azul, branco e vermelho.

    Os magistrados trajavam becas negras – as longas para o Judiciário e as curtas para os funcionários que cuidavam das finanças. Quem não tinha direito a uniforme – professores, pequenos negociantes, artesãos e artistas – era obrigado a trajar diante do rei casaca preta, colete branco, calções e sapatos pretos acompanhados de meias provavelmente brancas.

    As insígnias também indicavam a posição social de quem as usava. Havia mantos, faixas e medalhas das ordens militares (Ordem de Cristo, de São Bento de Aviz e de Santiago) e das ordens criadas por D. João VI (1767-1826), como a Ordem de Torre e Espada e a de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. As comendas dessas ordens eram concedidas às pessoas que prestavam serviços ao rei, e eram ostentadas com muito orgulho.

    Uma vez instalada no Brasil, a monarquia abusou da pompa como forma de se afirmar, tentando afastar as ameaças que vinham dos ideais da Revolução Francesa – sintetizados nos princípios Liberdade, Igualdade e Fraternidade – e o avanço do liberalismo. Por isso, os nobres se cercavam de luxo nas festas. Não eram ocasiões apenas para divertimento, mas, principalmente, para a apresentação à sociedade, como forma de alcançar distinção, prestígio e reconhecimento.

    “O luxo das mulheres é indescritível”, contou o viajante alemão Theodor von Leithold (1771-1826). “Jamais encontrei reunidas tantas pedras preciosas e pérolas de extraordinária beleza quanto nos beija-mãos de gala e no teatro (...). Seguem o gosto francês, ousadamente decotadas. Os vestidos são bordados a ouro e prata. Sobre a cabeça colocam quatro ou cinco plumas francesas, de dois pés de comprimento (...) e sobre a fronte, como em torno do pescoço e nos braços, diademas incrustados de brilhantes e pérolas de excepcional valor”.

    “As mulheres seguem o gosto francês, ousadamente decotadas. Os vestidos são bordados a ouro e prata.” Theodor von Leithold

    Durante a permanência da Corte no Brasil, até 1821, o sistema político tradicional, representado pela monarquia, coexistiu com elementos modernos – as ideias liberais – na política e também no traje. Assim, permaneceu em voga a norma de que todos deveriam trajar de acordo com seu lugar na hierarquia social e com seus cargos e distinções. Da mesma forma, o uso de uniformes e insígnias só podia ser modificado com o crivo do rei, pois era regulado pela tradição. Ao mesmo tempo, a moda passou a mudar com mais rapidez e houve certa liberdade no vestir, dependendo somente das possibilidades financeiras do comprador.

    A chegada da Corte ao Brasil também ampliou o comércio de roupas por causa da abertura dos portos às nações amigas. Essa decisão histórica foi anunciada pelo príncipe regente D. João em janeiro de 1808, dias após a chegada da família real a Salvador, última parada antes da capital, o Rio de Janeiro.

    Os primeiros produtos a invadir o Brasil vieram da Inglaterra. Analisando a Gazeta do Rio de Janeiro, é possível perceber que apenas os produtos ingleses eram anunciados nessa época. Entre a chegada da Corte e o ano de 1815 – quando ocorre a queda de Napoleão e a restauração da monarquia na França –, a importação de produtos franceses ficou proibida por causa do estado de guerra.

    Por ter idealizado e dado cobertura à fuga da família real, a Inglaterra recebeu ótimas condições de Portugal na exportação para o Brasil: uma tarifa de 24% para seus produtos, contra 16% dos navios luso-brasileiros. Após 1810, a situação se tornou ainda mais favorável para os ingleses. Seus produtos começaram a pagar apenas 15% de tarifa, contra 16% dos luso-brasileiros e 24% dos demais.

    Os comerciantes da Inglaterra, no entanto, sabiam do atrativo do país rival e, após 1815, não anunciavam apenas mercadorias inglesas, mas também as trazidas da França. Eram vendidos chapéus, plumas, xales, lenços, luvas, relógios, leques, vestidos e sapatos, entre outras peças.

    Casas comerciais especializadas em vender produtos de moda ainda não existiam no Brasil na época em que a Corte esteve por aqui. Elas só foram criadas na segunda metade do século XIX. Nas lojas do início dos Oitocentos, era possível encontrar qualquer tipo de mercadoria, como alimentos, livros, móveis, objetos de decoração e até mesmo armas. Os anúncios desses comerciantes procuravam atrair os clientes afirmando serem produtos “de último gosto”, “de última moda” ou “de gosto mais moderno”.

    Após 1815, o comércio da moda deixou de ser feito apenas por comerciantes. Desembarcaram no Brasil muitos modistas, alfaiates e cabeleireiros franceses que também ofereciam seus serviços nas páginas da Gazeta do Rio de Janeiro. A presença desses profissionais possibilitou a instalação de um mercado de moda na Corte do Rio de Janeiro, e seu desenvolvimento se fará sentir por todo o século XIX.

    Camila Borges da Silvaé autora da dissertação “O símbolo indumentário: distinção e prestígio no Rio de Janeiro (1808-1821)” (Uerj, 2009).

    Saiba Mais:

    LAVER, James. A roupa e a moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

    MELLO E SOUZA, Gilda de. O espírito das roupas: a moda no século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. 

    ROCHE, Daniel. A cultura das aparências: uma história da indumentária (séculos XVII-XVIII). São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2007.  

    Internet:

    Victoriaand Albert Museum (Londres)

    www.vam.ac.uk

    Fashion Plates – Ilustrações sobre a história da indumentária

    www.siue.edu/COSTUMES/history.html

    Coleções do Museu Nacional do Traje em Lisboa:

    www.matriznet.ipmuseus.pt/matriznet/home.aspx

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