O Stonehenge da Amazônia

Megalitos no Amapá são indícios de uma população pré-colombiana desaparecida.

Mariana Petry Cabral e João Darcy de Moura Saldanha

  • Grandes blocos de pedras alinhadas, fincadas no solo, formando um círculo. A descrição parece a de Stonehenge, na Inglaterra, mas não é. Trata-se dos chamados megalitos – grandes pedras – do Amapá, sítios arqueológicos construídos por povos amazônicos que ocupavam a região pelo menos desde o início da era cristã.

    O zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917) organizou, em 1895, uma das primeiras expedições científicas feitas na região, enviada pelo Museu Paraense. Tendo o tenente-coronel Aureliano Pinto de Lima Guedes (1848-1912) como responsável pelo serviço arqueológico, a empreitada encontrou um sítio que ainda hoje desperta o fascínio de pesquisadores.

    A expedição de Goeldi percorreu o Rio Cunani, no norte do atual estado: uma região costeira, de terras baixas e alagáveis, permeada por uma intrincada rede de rios e igarapés. Entre as peças coletadas pela equipe havia várias vasilhas cerâmicas inteiras. A delicadeza das pinturas e dos motivos modelados e a originalidade das formas fizeram com que Goeldi afirmasse que aqueles eram alguns dos “melhores produtos cerâmicos conhecidos dos indígenas da região amazônica” – uma cerâmica chamada pelos arqueólogos de “Aristé”.

    Essas vasilhas foram encontradas dentro de poços especialmente construídos para guardar urnas funerárias. Para tapá-los, os índios usavam grandes discos de granito. Talvez como um marco, um outro bloco de rocha também estava fincado no chão. Goeldi fez esta primeira descrição de um sítio com megalitos no Amapá em Excavações archeologicas em 1895 (1900). Ele escreveu: “N’uma exploração do Igarapé do Hollanda, tributário esquerdo do rio Cunany, desembocando no rio-mar pouco abaixo da Villa, descobriu-se n’um morro, chamado Monte Curú, uma pedra lavrada, quasi como um d’aquelles marcos, em toda parte usados para limites de terreno. (...) Este pedaço de granito (...) estava em posição obliqua, quer intencional, quer casual por queda posterior. Reflectindo-se sobre sua significação, não se tardou em descobrir, que elle marcava o meio entre dous grandes discos, granitos também. Estes discos por sua vez eram as tampas protectoras que cobriam duas espaçosas cavernas, artificiaes e de forma particular” (Goeldi, 1905: 5-6).

    Já na década de 1920, o etnólogo alemão Kurt Unkel (1883-1945) – mais tarde conhecido como Curt Nimuendajú, nome dado pelos apapokuvas guaranis do Araribá (SP) – encontrou uma série de sítios arqueológicos com megalitos. Esses alinhamentos de pedra, como ele chamava, lembravam menires (por serem blocos de pedra em posição vertical), e eram comuns em toda a costa. Ele fotografou e mapeou mais de dez estruturas megalíticas, mas ficou desapontado com as cerâmicas que encontrou. Bem diferentes dos achados de Goeldi, eram peças rústicas, com poucos ornamentos e, em grande parte, já estavam quebradas.

    Observações semelhantes foram feitas pelo casal de arqueólogos norte-americanos Betty Meggers e Clifford Evans (1920-1981). Eles visitaram a região na década de 1940 e propuseram, pela primeira vez, uma síntese sobre antigas ocupações na foz do Rio Amazonas. Os sítios com megalitos foram classificados por eles a partir de poucos fragmentos de cerâmica. Seriam vestígios de grupos emigrados da região do Caribe e de seu entorno.

    Essa tese se baseia nas ideias do antropólogo norte-americano Julian Steward (1902-1972), para quem os ambientes naturais determinariam o nível de evolução cultural. À Amazônia cabia um papel intermediário entre as altas culturas andinas e caribenhas e os chamados grupos marginais, de caçadores e coletores nômades. Com uma agricultura não muito eficiente, os povos amazônicos não teriam potencial para desenvolver sua organização social, política e religiosa.

    Mas as estruturas megalíticas do Amapá não se encaixavam nesse modelo. O trabalho envolvido na sua construção exigiu não só força bruta, mas também muita organização. Nossas pesquisas recentes em sítios megalíticos mostram que as rochas foram posicionadas no solo com muito cuidado e maestria, apesar do imenso tamanho e do peso de algumas delas. Para isso, foi necessária a coesão de muitas pessoas, um esforço coletivo para criar um espaço onde várias cerimônias seriam realizadas. Provavelmente, havia uma liderança forte por trás de tudo isso, capaz de reunir um grupo e convencê-lo de que o esforço valia a pena. Para Betty Meggers e Clifford Evans, a origem dessas construções estava fora da Amazônia, na região das Antilhas, reforçando a tese de que o ambiente amazônico limitava o desenvolvimento cultural. 

    As pesquisas atuais não comportam mais esse determinismo ecológico de Steward – essa rigidez na relação entre as pessoas, suas culturas e os ambientes onde vivem. Desde a década de 1990, vários arqueólogos vêm trabalhando em diferentes áreas da Amazônia e sugerindo ocupações antigas mais densas – com organizações sociais, políticas e religiosas mais formalizadas e hierarquizadas. A diversidade de sítios e de culturas arqueológicas demonstra que as limitações ambientais não foram determinantes para a organização social dos povos indígenas. Profundas alterações nas paisagens, como os geoglifos do Acre, os aterros de Marajó e as estradas no Alto Xingu, foram realizadas por povos amazônicos nos últimos mil anos. Os megalitos na costa do Amapá são mais um elemento desse contexto indígena antigo da Amazônia e expressam a riqueza cultural desses povos nativos.

    Apesar de poucas informações, o que dificulta interpretações mais elaboradas, os dados produzidos nos últimos anos permitem visões mais detalhadas dos usos desses monumentos megalíticos. Desde 2006, em uma área a dezesseis quilômetros da cidade de Calçoene, no nordeste do Amapá, uma grande estrutura tem sido pesquisada. Composta de mais de 150 blocos de rocha – alguns medindo mais de três metros de comprimento e muitos fincados com firmeza no solo –, ela forma um círculo no topo de uma pequena elevação. Muitas rochas foram entalhadas em formas específicas, e ainda que seus significados não sejam fáceis de decifrar, o esmero dedicado a essa tarefa não deixa dúvidas sobre a importância desses lugares.

    Ao contrário do que ocorreu durante as expedições de Nimuendajú, Meggers e Evans, as últimas escavações nesse sítio revelaram uma bela coleção de vasos cerâmicos completos, semelhantes, no estilo e na forma, aos que haviam sido coletados por Goeldi. O levantamento de sítios arqueológicos que está sendo feito na região mostra que outras áreas também propiciam descobertas parecidas. Em um dos sítios megalíticos que Nimuendajú havia visitado – e onde não encontrou cerâmica alguma –, coletas recentes revelaram uma coleção surpreendente de urnas encontradas no interior de poços funerários.

    As escavações nos sítios megalíticos mostram que eles não foram usados apenas como cemitérios. Há vasos cerâmicos colocados como oferendas por toda a estrutura. Alguns foram enterrados e outros deixados sobre os blocos, sofrendo a ação do sol e da chuva. Muitos foram quebrados lá mesmo, e outros trazidos já aos pedaços. Aqueles que haviam sido ornados com desenhos de sapos, cobras e lagartos foram colocados junto às pedras, enquanto os decorados com pássaros ficaram afastados.

    Havia, com certeza, um controle sobre o uso daquele espaço, regras a serem seguidas e, provavelmente, algumas datas reservadas para celebrações. Isso é o que indica o alinhamento de alguns blocos com o sol na região de Calçoene, durante o chamado solstício de dezembro, que marca o momento em que o sol está na sua posição máxima ao sul e atinge a superfície da terra a uma inclinação de aproximadamente 67 graus. Esta é também a inclinação de um dos blocos de rocha, que, alinhado com o sol, fica sem sombra nas laterais. Como isto só ocorre durante o solstício, o bloco serve como um marcador dessa data – assim como o alinhamento de outros dois blocos com o nascer do sol, que surge por trás das pedras.

    Ainda há poucas informações sobre as pessoas que construíram esses fascinantes monumentos. O que se conhece são alguns fragmentos de seus rituais, a importância da morte e dos ancestrais, dos animais e de ciclos naturais, como o do sol. O potencial artístico, a produção refinada de cerâmica e a capacidade de agrupar pessoas para a construção de monumentos especiais são reconhecidos, até o momento, como algumas de suas virtudes. Embora tivessem vivido nessa região por mais de quinze séculos e de terem passado por diversas transformações, ainda há muitos detalhes do seu cotidiano por descobrir.

    Mas, certamente, nenhuma dessas transformações foi tão violenta quanto o encontro com outros povos que vieram pelo mar: os europeus. Estudos históricos e etnográficos sugerem que, durante os primeiros momentos da “conquista”, pode ter existido, na mesma região de ocorrência dos sítios megalíticos, uma grande confederação, autônoma e refratária a todo tipo de intrusão, formada por muitas tribos diferentes. Apesar dessa organização, a escravidão e a violência impostas pelos invasores obrigaram esses povos a se reorganizar e procurar refúgio em outras áreas da costa do Amapá, menos acessíveis aos europeus.

    Rearranjados, eles pararam de reproduzir sua cultura dessa forma. O rico patrimônio cultural que herdamos desse período, como a cerâmica Aristé e os monumentos megalíticos, deixaram de ser produzidos. No entanto, alguns dos atuais indígenas que habitam a região do baixo Rio Oiapoque podem ser descendentes desses antigos povos, que seguem criando novas maneiras de pensar e expressar suas culturas.

    Mariana Petry Cabral e João Darcy de Moura Saldanhasão arqueólogos do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá e coordenadores do Projeto de Investigação Arqueológica na Bacia do Rio Calçoene.

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