Pelas graças de Aparecida

Mulher de cônsul revela bastidores do sequestro que abalou as relações entre Brasil e Uruguai

  • Na manchete do jornal O Globo, de 7 de agosto de 1970, os esforços de Aparecida em libertar o marido, que ficou em cativeiro por 217 dias. Amigos íntimos da esposa do cônsul, Marcos e Maria Elisa de Azevedo ajudaram a levar o dinheiro aos sequestradores. (Foto: Aline Salgado)Era cedo. Tinha acabado de levar o último filho para o colégio. Ainda estava na porta de casa quando um técnico da companhia telefônica disse que faria reparos na linha que estava muda. Realmente, a gente nunca conseguia falar direito. Deixei-o entrar. Na verdade, o que eu não sabia era que eles tinham cortado os fios. Segundos depois, dez encapuzados amordaçaram minha empregada e, com a arma no meu peito, se dirigiram para o quarto onde Aloysio dormia. 'Somos tupamaros, vamos levar seu marido, não tente nos reconhecer, será pior'.”

    O relato guardado na memória bastante lúcida de Maria Aparecida de Dias Gomide, de 83 anos, dá o tom daquela manhã fria de 31 de julho de 1970, quando os tupamaros – Movimiento de Liberación Nacional (MLN) – sequestraram seu marido, Aloysio Marés Dias Gomide, cônsul brasileiro no Uruguai. Hoje, aos 84 anos de idade, o diplomata aposentado, que vive no Rio de Janeiro, evita falar com a imprensa.

    Já Maria Aparecida Gomide parece preferir espantar as lembranças ruins contando a sua luta. Com seis filhos à época, com idades entre 3 e 15 anos, e muito católica, Aparecida encampou uma cruzada em busca de apoio e dinheiro para a libertação de seu marido, preso por 217 dias. Do presidente Médici a Mujica (Pepe Mujica, líder tupamaro e atual presidente do Uruguai), ninguém escapou dos apelos da dona de casa.

    “Precisava falar com o presidente antes, para que ele me autorizasse a intervir para a libertação de meu marido”, relembra Aparecida. “Ele disse que, se fosse no Brasil, faria tudo para libertar um sequestrado, mas ele não poderia intervir no Uruguai”, diz ela, que citou que o governo alegou não poder dar dinheiro para não gerar uma onda de sequestros de brasileiros.

    Ao ser levado enrolado em um cobertor no seu próprio carro, um Mercedes-Benz, para o cativeiro no bairro de Perez Castellano, em Montevidéu, Aloysio Gomide se juntou a Dan Mitrione – um agente de segurança norte-americano que em passagens pelo Brasil e Uruguai ensinou técnicas de tortura aos militares e à polícia. Em troca da liberdade de Gomide, os guerrilheiros exigiam a libertação de 106 companheiros tupamaros da penitenciária de Punta Carretas e o pagamento de US$ 1 milhão.

    A situação ficou ainda mais crítica diante da posição do governo uruguaio de não negociar com os tupamaros – uma estratégia que tinha como fim enfraquecer o grupo diante da opinião pública – e o consequente assassinato de Dan Mitrione, no dia 8 de agosto de 1970.

    “O Itamaraty convocou o embaixador uruguaio no Brasil, Folle Martinez, para consultas sobre o caso Gomide”, conta o jornalista e historiador especialista nos tupamaros, Marco Antônio Vargas Villalobos, que analisou os despachos diplomáticos da época. Ele cita um telegrama secreto da Secretaria de Relações Exteriores em que é manifestado o descontentamento ante a recusa dos uruguaios em publicar o manifesto dos tupamaros como um caso que poderia agravar a situação do cônsul mantido em cativeiro.

    A crítica do corpo diplomático brasileiro revela a diferença no tratamento de guerrilheiros pelos dois países. Mesmo sob o julgo de uma ditadura – situação contrária à do Uruguai, governada por uma democracia civil – os guerrilheiros brasileiros que sequestraram o embaixador americano Charles Elbrick, em 1969, conseguiram ter o manifesto lido em cadeia nacional e suas exigências atendidas: a liberação de 15 presos políticos.

     

    Mas há um ponto que coloca em comum as ações de sequestro das guerrilhas no Brasil e no Uruguai: a facilidade de se atingir o alvo. Assim como o diplomata americano Charles Elbrick, Gomide se tornou objeto de captura porque não contava com escolta policial. Segundo Geraldo Canali, repórter especial do Jornal do Brasil à época e que foi enviado ao Uruguai, Gomide foi escolhido por mais duas razões: sua relação direta ou indireta com a ditadura no Brasil e a suposta ligação com a Tradição, Família e Propriedade (TFP), organização conservadora católica que apoiou o golpe de 1964.

    Contudo, Aparecida Gomide batalhou para criar uma rede de apoio político e tentar provar que seu marido era apenas um diplomata. Para isso, contou com a ajuda de gente como Chacrinha, o ministro das Relações Exteriores, Mário Gibson Barbosa, Luiz Bastian Pinto, embaixador do Brasil no Uruguai, e até o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

    Essas ajudas não eram oficiais. “Até uma caixa de doações da população teve de ser retirada por ordem do governo”, revela Aparecida. “Foram criadas contas em vários estados do país com nomes como ‘Maria Aparecida’ e ‘Só o amor constrói’. Mas, com medo de contrariar o governo, a federação dos bancos pediu autorização aos militares para que as contas fossem abertas”, acrescenta, lembrando que recebeu joias e dinheiro de uma empresa, cujo diretor teve que passar a madrugada se explicando no DOI-Codi.

    Há provas, porém, que o governo brasileiro agia nos bastidores pela libertação de Gomide: um telegrama entre o Itamaraty e o gerente do Banco do Brasil em Montevidéu. No documento, apresentado pelo historiador Marco Villalobos, o embaixador Luiz Bastian Pinto menciona que a quantia pedida pelos sequestradores seria disponibilizada pelo governo em qualquer momento para um eventual resgate. Oficialmente, entretanto, o dinheiro para o resgate – que de US$ 1 milhão passou para US$ 250 mil – não saiu das mãos do governo.

    Após sete meses de campanha em rádios e TV no Brasil e no Uruguai e negociações sigilosas com os tupamaros, Aparecida conseguiu que os guerrilheiros aceitassem a segunda quantia oferecida. O desafio agora era atravessar a fronteira com o dinheiro, já que a transação não era possível pelos meios oficiais e Aparecida não quis abusar de sua imunidade diplomática. Funcionários e respectivas companheiras não poderiam interferir no caso para não ferir a soberania uruguaia. Além disso, com os boatos veiculados pelos jornais de que o sequestro do cônsul estava perto do fim, o governo Pacheco Areco reforçou a segurança na fronteira para impedir a passagem dos dólares.

    “Estávamos tão confiantes em Deus e em Nossa Senhora Aparecida que indiquei o meu próprio marido”, relembra Maria Elisa de Azevedo, amiga íntima de Aparecida.

    O marido de Maria Elisa, o advogado Marcos Ribeiro de Azevedo, guarda até hoje jornais da época sobre o caso e a sacola em que levou o dinheiro aos sequestradores. “Para que não houvesse riscos na missão, uma voluntária com experiência em trazer mercadorias contrabandeadas para o Brasil me acompanhou na viagem de ônibus. Dona Inácia tinha familiaridade com as relações ‘amistosas’ na fronteira e, diante das minhas súplicas em levar o dinheiro em uma bolsa à prova de fogo, se dispôs a camuflar o esconderijo com roupas sujas”, ri, hoje, Marcos, ao se lembrar da aventura.

    Do Rio a São Paulo, depois para Porto Alegre e, finalmente, Chuí, na fronteira do Brasil com o Uruguai. Ao meio-dia em ponto, a sacola com alça vermelha deveria ser entregue a uma pessoa em frente a uma determinada loja. A senha para a troca? “Que Nossa Senhora Aparecida nos proteja!”. A resposta? “Estamos protegidos”.

    “Um carro luxuoso parou na minha frente e um homem jovem e bem vestido saltou. Entreguei o dinheiro a ele, logo depois de ouvirmos o código. De um posto telefônico ligamos para Aparecida, que estava em Montevidéu na casa do diplomata brasileiro Quintino Deseta, para dizer que a operação estava terminada. Foi quando fomos convidados a nos juntar a ela. Ao chegar à casa do diplomata, para a minha surpresa, o homem que nos abriu a porta era o mesmo que tinha recebido o dinheiro do resgate”, diz Marcos.

    Para despistar a polícia uruguaia, o diplomata Quintino Deseta se prontificou a pegar a quantia, que só chegou verdadeiramente às mãos dos tupamaros dias depois, passando por misteriosas redes que contaram com a ajuda de amigos de Aparecida, em Montevidéu. Mas, até a libertação de Gomide, seria necessário esperar mais 23 dias. Os tupamaros exigiram ainda a suspensão do estado de sítio pelo governo do presidente civil Pacheco Areco, que foi aceito. Num domingo de carnaval, Gomide foi solto com esparadrapos nos olhos. Era o fim do sequestro mais longo da história envolvendo um brasileiro.


    Os Tupamaros

    Até a década de 1950, o Uruguai era visto como a “Suíça latino-americana”. Uma democracia modelo em um cenário econômico que o colocava em situação de privilégio em face dos vizinhos. Mas, a partir da década seguinte, uma crise econômica abalaria as estruturas deste Estado, impulsionando o surgimento de grupos sociais de resistência, como o Movimiento de Liberación Nacional (MLN) – autodenominados tupamaros, em alusão ao combatente inca Túpac Amaru, que lutou contra os espanhóis no século XVI. Professora de Ciências Sociais pela PUC-RS e especialista em regimes autoritários no Cone Sul e política externa brasileira, Teresa Cristina Schneider Marques explica que os tupamaros eram conhecidos por suas ações heroicas e em defesa do povo. “Os uruguaios os chamavam de Robin Hood, pois eles roubavam dos ricos para distribuir entre os pobres”. A partir de meados dos anos 1960 o grupo ganhou um tom mais radical. Adotaram a luta armada como estratégia e ações de sequestros e assassinatos de lideranças políticas passaram a ser usadas como meio de pressão por mudanças estruturais, a fim de se instituir um novo Estado. A organização foi desmantelada em 1972, com suas lideranças presas e membros assassinados.

     

    Saiba mais - Bibliografia

    FERNANDES, Ananda Simões. “Quando o inimigo ultrapassa a fronteira: as conexões repressivas entre a ditadura civil-militar brasileira e o Uruguai (1964-1973)”.Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS, 2009. Disponível em http://www.lume.ufrgs.br/

    GRAVAS-Costa & SOLINAS Franco. Estado de Sítio. L&PM, 1979.

     Filme Estado de Sítio ( direção de Costa-Gavras, 1972).
     

    Leia também artigo sobre o agente norte-americano Dan Mitrione: rhbn.com.br/c/1824.

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