Um estrondo vindo das bandas da Rua das Águas Verdes deixou os recifenses assustados naquele cair de tarde do dia 17 de outubro de 1710. Pelo barulho, tratava-se de um disparo de arma de fogo. De boca em boca soube-se que o governador Sebastião de Castro e Caldas (?-1713) fora vítima de uma emboscada. Ele passava por ali em companhia de várias pessoas, vindo da Igreja de Nossa Senhora da Penha em direção à residência governamental no Palácio das Torres, antiga mansão construída pelo conde Maurício de Nassau (1604-1679).
As notícias sobre os disparos correram velozmente, quase sempre contadas com certo exagero. Não faltaram as que anunciavam a morte do governador. Na hora em que foi alvejado, ele teria visto um vulto na janela de uma casa e saíra em seu encalço, espadim na mão, mas tudo fora em vão, pois seu algoz e mais dois companheiros conseguiram escapar se embrenhando entre os manguezais atrás do Convento de Nossa Senhora do Carmo, alcançando em seguida a Ilha de Joana Bezerra.
Castro e Caldas foi conduzido às pressas ao palácio, sob cuidados médicos. Foram feitas rondas, sem qualquer resultado. A opinião nas ruas ficou dividida. Os que nutriam simpatia pelo governador achavam que, ainda que ele “fosse um Herodes, nunca os vassalos Del-Rei, de quem os governadores são lugares-tenentes, podiam ter liberdade para ação semelhante”. E foram mais longe ao suspeitarem que membros das famílias Bezerra e Cavalcanti, ligadas às atividades açucareiras, eram os mandantes do crime.
Contra essa opinião, vozes se levantaram acusando o governador de ter simulado o próprio atentado para incriminar a nobreza da terra – as famílias envolvidas com a produção agroexportadora em Pernambuco. Na verdade, Castro e Caldas vinha se indispondo com a elite açucareira, acusado de ser despótico e de utilizar o cargo para favorecer amigos. As relações já estavam muito tensas em princípios de 1710, quando, para desconsolo dos olindenses, ele se posicionou a favor dos mercadores recifenses, ditos mascates, que lutavam pela autonomia do Recife havia bastante tempo.
Toda essa insatisfação chegava ao ponto extremo devido à rivalidade entre a cidade de Olinda, que era a capital da capitania e controlada pelos senhores de engenho, e o povoado do Recife, que se transformara em importante centro mercantil depois da saída dos holandeses em 1654, superando a capital. Para inflamar os ânimos, os negócios da nobreza vinham diminuindo devido à queda do preço do açúcar, obrigando-a a recorrer aos empréstimos oferecidos pelos mascates, que pouco a pouco passavam a controlar a economia local. Mesmo sendo o Recife um importante centro econômico, dependia politicamente da vizinha Olinda, onde estava a Câmara Municipal. Indignados com a falta de espaço na política, os mascates, interessados em estabelecer a sede da administração da capitania no povoado, lutaram perante o monarca para separar o Recife de Olinda, pretensão que foi atendida pela carta régia de 19 de novembro de 1709, de D. João V, que elevava o Recife à categoria de vila. Com esse novo status, os moradores passaram a ter direitos políticos e a negociar com o rei sem a interferência dos senhores de engenho encastelados em Olinda.
Na realidade, a emancipação do Recife representava, entre outras coisas, a diminuição do alcance dos tributos cobrados pela Câmara olindense, que se via agora privada de importante fonte de receitas. A Câmara se recusou a registrar a carta régia em seus livros e pressionou o governador Sebastião de Castro e Caldas a não acatá-la. Visivelmente se posicionando ao lado dos mascates, o governador não atendeu aos desejos da Câmara e mandou providenciar a festa de instalação da nova vila, que ocorreu em grande estilo no dia 15 de fevereiro de 1710. O ponto alto das comemorações foi a inauguração do pelourinho, símbolo do poder municipal, erguido em frente à Matriz do Corpo Santo.
Desse momento em diante, a elite açucareira de Olinda, indignada, passou a conspirar para depor o governante. O atentado da Rua das Águas Verdes representou, na prática, uma tentativa frustrada de um desses planos. Aliás, não seria a primeira vez que a elite pernambucana depunha um governador. Em 1666, Jerônimo de Mendonça Furtado, conhecido como Xumbergas, foi vítima de uma conspiração que terminou com sua prisão e expulsão da capitania.
Castro e Caldas tinha conhecimento dessas armações, e informava essas tramas ao rei. Por isso procurou andar acompanhado de grande séquito, como aquele que tinha a seu lado quando foi baleado. A escolha do local do atentado tinha sido bastante pensada, uma vez que a área ficava na periferia recifense, o que facilitaria a fuga dos atiradores. O plano, conforme asseverou o médico Manoel dos Santos, que cuidou do convalescente e posteriormente descreveria em livro os episódios, supunha que, morto o governante, Recife seria sitiado pelas milícias comandadas pela nobreza açucareira. Sua Câmara seria tomada e os funcionários demitidos, voltando o poder, como antigamente, para Olinda. Comentou-se que as casas de negócio dos mascates seriam saqueadas e os livros contábeis destruídos, apagando vestígios das dívidas dos senhores de engenho. Nesse momento, os insurgentes aguardariam que D. João V revogasse a carta régia que criou a municipalidade recifense.
O governador não perdeu o ânimo de agarrar os criminosos, mandando prender vários suspeitos, e chegou a oferecer um prêmio no valor de 400 mil réis para quem os denunciasse e, caso fosse escravo, promessa de alforria. A nobreza não se deu por vencida e procurou não perder terreno, organizando no interior um movimento destinado a derrubá-lo. No dia 6 de novembro de 1710, o assunto nas ruas do Recife dava conta de que 10.000 homens armados, incluindo índios com seus arcos e flechas, gritando palavras de ordem de “viva o rei e morra o governador!”, haviam acampado nos arredores. Castro e Caldas procurou negociar um acordo com os insurgentes, e como não tinha homens suficientes para se defender, fugiu na madrugada do dia 7 de novembro para a Bahia.
Com a evasão do governador, o bispo D. Manuel Álvares da Costa (1651-1733) assumiu provisoriamente a governadoria até a chegada do substituto, Félix José Machado de Mendonça e Vasconcelos (1677-1731). Olinda festejou a saída de Castro e Caldas. Por suas ladeiras desfilou um boneco representando o fugitivo, enxovalhado e ridicularizado pelos passantes à semelhança do Judas que aparece no sábado de Aleluia. O fato é curioso porque naquela sociedade tradicional, na qual o respeito ao monarca era coisa sublime, a “festa de Judas” se constituiu em ato desrespeitoso, pois os governadores representavam o rei, que representava Deus.
Todos esses incidentes, que desembocariam na Guerra dos Mascates (1710-1711), mereceram consideração das autoridades de além-mar, e mesmo a Coroa entendendo que tudo não passara de brigas locais, sem deslealdade, era preciso vigiar os súditos da América portuguesa e evitar que seus intentos rebeldes pusessem em xeque a ordem estabelecida. Este teria sido o recado trazido pela maioria dos governadores nomeados para as terras brasileiras. Apesar de todas essas precauções, não se conseguiu pôr fim às insatisfações brotadas em forma de conspirações e protestos, demonstrando que os vassalos do rei não eram tão submissos assim.
Flavio José Gomes Cabral é professor da Universidade Católica de Pernambuco e autor de Paraíso terreal: a Rebelião Sebastianista na Serra do Rodeador. Pernambuco, 1820 (Annablume, 2004).
Saiba Mais - BibliografiaCOSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. 2ª ed. Recife: Fundarpe, 1984.
MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos: nobres contra mascates – Pernambuco, 1666-1715. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SANTOS, Manoel dos. Calamidades de Pernambuco. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1986.















































































