A outra noiva do imperador

O casamento com D. Pedro I e toda a trajetória no Brasil da princesa bávara Amélia de Leuchtenberg

Claudia Thomé Witte

  • Aos 17 anos, a princesa Amélia de Leuchtenberg (1812-1873) conseguia atender aos dois pré-requisitos para substituir a recém-falecida imperatriz Leopoldina (1797-1826): era bela e virtuosa, ou seja, virgem. Ainda que tenha permanecido no Brasil por menos de dois anos, entre 1829 e 1831, quando D. Pedro I (1798-1834) abdicou do trono e voltou à Europa, a nova consorte foi uma figura relevante para nossa História.

    Mas encontrar uma nova esposa para o imperador foi missão bastante difícil. A morte de D. Leopoldina, aos 29 anos, deixou D. Pedro viúvo com cinco filhos e mergulhado num clima de impopularidade. Segundo muitos, a imperatriz morreu de desgosto e infelicidade por causa das traições do marido, sobretudo com a marquesa de Santos (1797-1867).

    O imperador havia reconhecido publicamente a filha da amante, que foi presenteada com um palacete vizinho à Quinta da Boa Vista, residência oficial da família imperial, e nomeada primeira dama da imperatriz. Tanta humilhação não passaria despercebida. Se internamente a imagem de D. Pedro I estava desgastada com tantos escândalos, na Europa também se sabia da amante brasileira, chamada por lá de “Pompadour dos trópicos”. Só um casamento de conto de fadas poderia resgatar a popularidade do imperador.

    O problema é que não serviria qualquer princesa europeia. D. Pedro estipulara quatro condições que sua segunda esposa deveria reunir: nascimento, beleza, virtude e cultura. Não seria fácil convencer uma princesa com todas estas qualidades a abandonar a Europa, assumir cinco enteados e ainda acreditar que o passado de infidelidades do imperador não se repetiria. A difícil empreitada de achar esta noiva coube ao marquês de Barbacena (1772-1841), homem de confiança de D. Pedro I. Depois que oito princesas recusaram a mão do imperador, ele desistiu de duas condições – a primeira e a quarta –, passando a exigir apenas que a noiva fosse uma nobre bela e “virtuosa”.

    Após tantos fracassos, Barbacena percebeu que havia ainda outro problema comprometendo o sucesso de sua missão. O imperador da Áustria (Francisco I, 1768-1835), pai de Leopoldina, a quem D. Pedro inicialmente pedira auxílio para encontrar uma substituta para a imperatriz, estava boicotando as negociações do imperador brasileiro. Francisco I não queria que seu ex-genro se casasse de novo, pois os prováveis filhos homens do segundo matrimônio de Pedro I roubariam a possibilidade de que suas netas viessem a substituir D. Pedro II no trono, caso não sobrevivesse à infância. Além disso, o imperador da Áustria, defensor do absolutismo na Europa, não simpatizava com o genro que promulgara uma Constituição para o Brasil e outra para Portugal: monarquias constitucionais eram modernas demais para os palácios de Viena.

    Eis que finalmente surgiu uma candidata, a princesa Amélia. Por parte de mãe, era de uma linhagem secundária, já que não era descendente do rei, mas impecavelmente nobre. A ascendência paterna poderia ser um problema, pois era filha do príncipe Eugênio (1781-1824), enteado adotado por Napoleão Bonaparte (1769-1821) ao se casar com Josefina de Beauharnais (1763-1814). Toda a Europa tentava anular as nomeações bonapartistas, de modo que a princesa não era reconhecidamente nobre. Mas, a essa altura, D. Pedro já manifestara tolerância quanto ao quesito nascimento.

    Restava saber se a princesa realmente tinha beleza. Retratos podiam ser bastante lisonjeiros e D. Pedro não queria ser enganado por um bom pintor. A finalidade era conseguir ver pessoalmente a pretendente. O marquês de Resende (1790-1875), amigo do imperador, enviou a seguinte descrição da moça: “(Amélia) tem um ar de corpo como o que o pintor Correggio deu nos seus quadros à rainha de Sabá. Valham-me as cinco chagas de N. S. Jesus Cristo, já que pelos meus enormes pecados não sou o imperador do Brasil. Que fará o nosso amo na primeira, na segunda, e em mil e uma noites?”

    Beleza confirmada, o contrato nupcial foi assinado em maio de 1829 na Inglaterra. Augusta, mãe de Amélia, sabia que sua filha enfrentaria grandes dificuldades. Contratou o maior especialista em Brasil que havia na época na Baviera para preparar Amélia, o cientista Carl Friedrich von Martius (1794-1868), e nomeou uma dama da nobreza brasileira como acompanhante de Amélia. Durante os dois meses que levaria a viagem ao Brasil, a condessa de Itapagipe deveria instruí-la sobre a língua portuguesa, as pessoas com quem Amélia iria conviver, a personalidade de D. Pedro I e, não menos importante, manter a mãe informada sobre a marquesa de Santos. E redigiu para a filha um documento intitulado “Conselhos à minha bem-amada filha”. Entre as recomendações, nota-se a sabedoria materna: “Demonstre seus sentimentos, timidez extrema pode levar D. Pedro, tão extrovertido, à indiferença. Mas não deixe transparecer o ciúme. Os homens são volúveis e levianos. Seja sempre uma mãe amorosa para as crianças. Os conflitos entre Brasil e Portugal serão inevitáveis, uma vez que é a relação entre uma metrópole e sua recém perdida colônia. Como imperatriz do Brasil, defenda sempre os interesses brasileiros”.

    Em paralelo, dote, enxoval, joias, vestido de noiva, tudo era preparado com urgência para que Amélia se casasse por procuração assim que completasse 17 anos. A cerimônia, realizada em Munique, foi singela, reunindo poucos convidados. Após o casamento, a princesa de Leuchtenberg e Eichstätt, Amélia Augusta Eugênia Napoleona de Beauharnais, já era oficialmente a segunda imperatriz do Brasil.
    Ao saber do “sim” de Amélia, D. Pedro rompeu definitivamente com a marquesa de Santos. Instituiu uma ordem honorífica para celebrar suas segundas núpcias: a Ordem da Rosa, cujo lema prometia “Amor e Fidelidade”. Consta que o imperador, ao ser avisado pelo telégrafo de Cabo Frio de que o navio que trazia sua noiva se aproximava, pegou, ansioso, um vapor e foi encontrá-la fora da barra da Baía da Guanabara. Ao vê-la dentro da fragata, D. Pedro, emocionado, perdeu momentaneamente os sentidos.
    Em 17 de outubro de 1829, dia seguinte ao da chegada ao Rio de Janeiro, comemorou-se a bênção nupcial. Amélia causou um deslumbramento em todos, com um vestido longo branco coberto por manto bordado em prata. Ao escurecer, dois soldados bávaros executaram do cume do Pão de Açúcar um magnífico espetáculo pirotécnico.

    Os primeiros meses após o casamento foram repletos de festas e celebrações. No baile de apresentação à corte, em janeiro de 1830, serviram até sorvete, iguaria ainda desconhecida no Brasil. No final daquele ano, houve piqueniques, passeios, visitas aos arredores da capital e até uma viagem mais longa a Minas Gerais no início de 1831.

    Passado o entusiasmo com o casamento, a popularidade de D. Pedro voltou a cair. A precária situação econômica do país e a falta de apoio político levaram-no a abdicar do trono brasileiro em abril de 1831 e voltar para a Europa, deixando o filho Pedro, de cinco anos, como futuro imperador. No navio, Amélia percebeu que os enjoos que sentia não eram devidos apenas à viagem: finalmente estava grávida.

    A única filha de Pedro e Amélia, a princesa Maria Amélia, nasceu no exílio em Paris, em dezembro de 1831. Foi lá que mãe, filha e a enteada Maria da Glória aguardaram por dois anos enquanto D. Pedro liderava o exército liberal que derrotou D. Miguel. Em uma guerra quixotesca, na qual 10 mil soldados venceram 100 mil, o carisma de D. Pedro e o apoio à causa liberal permitiram que ele instalasse a filha Maria da Glória no trono e restituísse a Constituição em Portugal. Mas os meses de batalha, o frio e a má alimentação agravaram seus problemas renais e desencadearam a tuberculose que o matou pouco tempo depois. D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal faleceu aos 36 anos.

    Amélia sobreviveria ao marido por quase 40 anos. Viúva aos 22, passou as duas décadas seguintes se dedicando à educação da filha, a bela princesa Maria Amélia, dotada de grande inteligência e vocação musical. Amélia passou a alternar residência entre Lisboa e a Baviera, a fim de que a filha crescesse nas duas culturas a que pertencia. No entanto, ainda solteira, Maria Amélia adoeceu e morreu aos 21 anos na Ilha da Madeira, onde tentava se curar de tuberculose. A coincidência da doença que levou seu marido e a única filha fez com que Amélia se dedicasse à construção e à manutenção de uma fundação para tratamento dos tuberculosos carentes.

    Sem descendentes, Amélia faleceu em 1873, aos 60 anos. Sua irmã Josefina, rainha da Suécia, foi sua principal herdeira. Em seu testamento, Amélia determinou que os documentos de D. Pedro I e tudo que se referisse à história do Brasil fossem devolvidos para o Rio de Janeiro. Graças a esse cuidado, a maior parte do material referente ao primeiro imperador se encontra hoje no Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis.

    A breve passagem de Amélia de Leuchtenberg pela nossa história trouxe não só a beleza de uma jovem às terras brasileiras, mas também um exemplo de companheirismo, solidariedade e preocupação com o futuro.

    Claudia Thomé Witte é pesquisadora independente e coautora do livro O Brasil como Império (Companhia Editora Nacional, 2009).


    Saiba Mais - Bibliografia

    MACAULAY, Neill. Dom Pedro I. Rio de Janeiro: Record, 1993.

    SAXE-COBURGO e Bragança, Carlos Tasso de. A princesa flor dona Maria Amélia. Funchal: DRAC Madeira, 2009.
    TORRES, Lygia Lemos. Imperatriz dona Amélia. São Paulo: Elvino Pocai, 1947.

    Saiba Mais - Serviços

    Museu Imperial de Petrópolis
    Fundação Maria Luísa e Oscar Americano em São Paulo.
    Túmulo de dona Amélia na Cripta Imperial (junto ao monumento à independência do Brasil) no Ipiranga, em São Paulo.
    Exposição em Munique: Top secret mission, Amelie von Leuchtenberg becomes Empress of Brazil. Até 30 de setembro no Leuchtenberg Palais, Odeonsplatz, 4.

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