A Universidade de Coimbra berço do Brasil?

Historiador português Diogo Ramada Curto contesta argumento utilizado pelo reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva

Diogo Ramada Curto

  • Numa entrevista recente ao PÚBLICO (20/06/2015), o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra argumentou que a unidade do Brasil era obra da sua própria instituição. Em tempos coloniais, anteriores a 1822, cerca de 5000 estudantes oriundos daquela colónia americana formaram-se na Universidade situada nas margens do Mondego. Por isso, foram os Estudos Gerais que criaram a unidade entre os que fizeram a independência desse grande país. De forma diferente procedeu a vizinha Espanha, quando, ao autorizar a criação de universidades desde os seus tempos coloniais, criou as condições para uma maior fragmentação dos países. No Peru, Bolívia, Venezuela e noutras futuras nações da América Espanhola foram formados cerca de 170.000 estudantes, correspondendo às antigas universidades do tempo dos vice-reis.  Em conclusão, a Universidade de Coimbra unificou o que a política espanhola dos vice-reis dividiu. 
     

    [Foto Moisés Moraes]

    Discordo frontalmente deste argumento, bem como de outros. O que significa, por exemplo, que os juízes, os bispos  e os administradores dos territórios – formados em Coimbra – foram os obreiros da independência e não os que a ela resistiram? O que quer dizer que, quando havia revoltas, os mesmos obreiros da independência estavam ao lado dos revoltosos e não “lavavam as mãos”? E como interpretar que tudo isto foi feito a bem de um qualquer espírito de solidariedade, uma espécie de “cola”, oriunda dos tempos de Coimbra?
     
    Embora não seja este o espaço mais adequado para discutir toda uma série de erros de análise, noto apenas que, se as relações de causalidade estabelecidas pelo Reitor fossem transferidas para a engenharia civil, elas levariam seguramente à queda de pontes. E, sem deixar de reconhecer tudo aquilo que me poderia unir à Universidade de Coimbra, no ano em que esta comemora os seus 725 anos, parece-me que nem esta necessita de patranhas para se projectar como a maior universidade brasileira fora do Brasil; nem, tão pouco, a história do Brasil tem que aturar o ranço insuportável de um comemorativismo ávido das propinas de estudantes brasileiros e chineses. Um afã comemorativo, aliás, associado a falsas ambições de globalização da universidade, que implica manipulações do passado e a respectiva redução da unidade da nação brasileira a uma construção feita em Coimbra, em tempos coloniais.  
     
    Por detrás de qualquer discussão acerca da não existência de ensino universitário no Brasil colonial, encontramos as ideias de Sérgio Buarque de Holanda. De facto, em Raízes do Brasil (1936), o grande historiador brasileiro considerou que a cultura brasileira anterior ao século XVIII tinha sido determinada por políticas que proibiram a instalação de tipografias e a criação de universidades. Assim, o mercado do livro e a frequência dos mais altos níveis de ensino fizeram com que a colónia ficasse submetida à metrópole. A ausência de um tribunal da Inquisição próprio, instalado no Brasil, reproduziu a mesma falta de autonomia da colónia, em relação ao reino.  
     
    O argumento revisionista do Reitor recorre, pois, a velhas ideias acerca do Brasil colonial, mas investe-as de uma conotação diferente. Onde Buarque de Holanda via a hegemonia da metrópole na criação de uma colónia sem autonomia, o Reitor passou a ver uma herança colonial positiva, digna de ser celebrada, porque dotada de uma força emancipadora e capaz de criar a unidade que o Brasil necessitou para se constituir numa nação independente. 
     
    Ora, é este tipo de revisionismo historiográfico que me assusta, por três diferentes razões. Primeiro, porque faz parte de um modo de manipulação pública do passado feito, ao sabor das comemorações, por parte de quem tem responsabilidades e capacidade de decisão. Em lugar de cair nessa mesma manipulação, não poderia o Reitor informar-se junto de quem sabe, dentro da sua própria instituição? Estou certo que Joaquim Romero Magalhães, professor emérito da Universidade de Coimbra, um dos maiores especialistas internacionais da história do Brasil colonial, poderia ajudar a evitar tamanho dislate revisionista.
     

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    A segunda razão prende-se com a comparação entre heranças coloniais. O argumento segundo o qual uma política de proibição de universidades nas colónias criava formas de identidade mais unificadas foi particularmente utilizado nos círculos oficiais do Estado Novo. Os estudantes provenientes das colónias, não dispondo de universidades nos seus territórios de origem (também chamados províncias) eram obrigados a vir estudar para a metrópole com o objectivo oficial de aqui adquirirem uma visão unitária do Império (ou de um Mundo Português que se pretendia multicultural). Pouco importa que esta política de estrangulamento do ensino universitário, a bem da unidade, tivesse desencadeado reivindicações por parte das colónias, no sentido da criação de universidades naqueles territórios, e suscitado por parte dos estudantes coloniais movimentos de revolta, alguns deles organizados em torno da Casa dos Estudantes do Império e suas respectivas delegações. O certo é que o que estava em causa nessa mesma política colonial eram mecanismos de controlo das populações, incluindo dos seus estratos mais jovens e letrados, sobretudo quando se tratava de grupos com um potencial de resistência ao Estado colonial.        
     
    Por último, nenhuma política de comemoração de uma instituição – sobretudo, quando se trata de uma universidade com responsabilidades elevadas na criação científica e na formação da cidadania – justifica a manipulação do passado. Que o Reitor queira atrair os estudantes brasileiros a virem estudar para o Mondego, parece-me um objectivo legítimo. Mas que o Reitor o pretenda fazer com base numa deturpação do que se passou, jogando com o peso da história da sua própria instituição, que teria servido de berço à unidade brasileira, já me soa a uma atoarda e das grandes! Uma atoarda só desculpável num panorama universitário e académico que, com honrosas excepções (Romero Magalhães, Ângela Domingues, Nuno Gonçalo Monteiro, Francisco Bethencourt), pouco conhece a história do Brasil.
     
    Diogo Ramada Curto é professor da Universidade Nova de Lisboa
     

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