A indústria cinematográfica também tirou muito proveito do, digamos, carisma dos monstros. Relembre alguns que aterrorizaram os espectadores mundo afora e ajudaram a divulgar o horror desses mitos, tema da edição de fevereiro da Revista de História da Biblioteca Nacional. Neste mês, a seção Cine História vai destacar alguns dos filmes que entraram para a história e mudaram paradigmas.
Drácula, King Kong, Godzilla, lobisomens, aliens, múmias, e por aí vai. Dá para formar uma gangue e tanto com todos os monstros que aterrorizam as telas dos cinemas. A estreia foi ainda no século XIX, no ano seguinte à invenção do cinematógrafo, com “Le manoir du diable” (1896), de Georges Méliès (1861-1938). O filme de três minutos é considerado por muitos o primeiro de terror e de vampiro.
“Méliès era ilusionista, ele inovou esse início do cinema com efeitos especiais. Seus filmes têm algumas criaturas monstruosas, como os aliens de "Viagem à lua" (1902) e o bicho que parece o Abominável Homem das Neves em "A conquista do polo" (1912), conta Luiz Nazario, professor de Cinema da UFMG e autor de Da natureza dos monstros (Arte & Ciência, 1998).
Apesar dos filmes de Méliès, foi só em 1910 que um monstro virou o astro principal, em “Frankenstein”, dirigido por J. Searle Dawley para a Edison Manufacturing Company, de Thomas Edison (1847–1931). O filme fez sucesso e, junto com o alemão “Nosferatu: Uma sinfonia de horror” (1922), de F. W. Murnau, incentivou a aparição de uma série de monstros nas telonas nas décadas seguintes.
Nos anos 1930 foram produzidos clássicos como “O Médico e o Monstro” (1931), de Rouben Mamoulian, “Frankenstein” (1931), de James Whale, “A Múmia” (1932), de Karl Freund, “A ilha do Dr. Moreau” (1932), de Erle C. Kenton, e “King Kong” (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack. “O Lobisomem”, de George Waggner, estreou em 1941.
“Na década de 1930 surgiram diversos filmes com monstros. Eles assumiram um contorno mais forte na cultura dessa época. Era a época da grande depressão, dos grandes medos. Esses filmes são um sintoma da cultura naquele momento, do medo do desconhecido”, afirma Simone do Vale, jornalista e ex-professora de História do Cinema de Horror na UFRJ.Frankenstein reflete questionamentos da época
Para Simone, em todas as culturas a monstruosidade é criada em situações inusitadas, que não podemos entender ou explicar. Frankenstein (1818), por exemplo, foi escrito pela britânica Mary Shelley (1797-1851) no período inicial da Revolução Industrial. O monstro reflete o questionamento da época sobre os limites da ciência e da tecnologia – tema atual até hoje.
Drácula é outro monstro com temática contemporânea, já que estaria relacionado à xenofobia, segundo Julio Jeha, professor de Literatura da UFMG e organizador do livro Da fabricação de monstros (UFMG, 2009). “Em 1897, quando foi lançado o romance de Bram Stoker, os britânicos haviam se espalhado por outros países e tinham medo de que os estrangeiros fizessem o caminho inverso. O vampiro representa o medo de ser contaminado pelo estrangeiro, é a demonização dos imigrantes na Europa. Eles tinham medo de que a sociedade inglesa perdesse o controle ao entrar em contato com os chamados ‘menos civilizados’”, explica Jeha.
O medo do desconhecido não cria monstros apenas no mundo ocidental. O terror de bombas e radiação atômica da Segunda Guerra gerou inúmeras histórias de animais mutantes no Japão dos anos 1950. Um dos grandes exemplos é a saga “Godzilla”, iniciada em 1954 com o filme de Ishir? Honda. Depois disso, o lagarto gigante criado por uma explosão nuclear já ganhou quase 30 sequências.
Nos últimos anos, porém, são vampiros e lobisomens que tomam conta do cinema mundo afora. De clássicos personagens de horror, eles se tornaram mocinhos sensíveis e guerreiros com corpos esculturais, como nas sagas “Crepúsculo” (2008-2012) e “Underworld” (2003-2012). “Os vampiros e lobisomens voltaram à moda, mas totalmente diferentes. O que era monstruoso nos anos 1930 hoje não faz nem cosquinha”, afirma Simone.
É possível que essa nova geração de criaturas com beleza imortal denuncie o medo de envelhecer, evidente pelo número de cirurgias plásticas e outros métodos inventados para retardar o inevitável. Se assim for, os filmes de monstros podem ter se tornado boas alegorias para os receios da sociedade. E, já que o medo é uma constante, a sétima arte terá sempre onde se inspirar.
Outros filmes de monstros:
O Mundo Perdido (1925) - Harry O. Hoyt
Drácula (1931) - Tod Browning
A Noiva de Frankenstein (1935) - James Whale
O Corcunda de Notre Dame (1939) - William Dieterle
O Monstro da Lagoa Negra (1954) - Jack Arnold
Tarantula (1955) - Jack Arnold
A Noiva do Monstro (1955) - Edward D. Wood Jr.
A 20 Milhões de Milhas da Terra (1957) - Nathan Juran
O Vampiro da Noite (1958) - Terence Fisher
A Noite dos Mortos-Vivos (1968) - George A. Romero
A Noite dos Coelhos (1972) - William F Claxton
King Kong (1976) - John Guillermin
Semente do Diabo (1979) – John Frankenheimer
Alien, o Oitavo Passageiro (1979) - Ridley Scott
Um Lobisomem Americano em Londres (1981) - John Landis
O Monstro do Pântano (1982) - Wes Craven
A Hora do Pesadelo (1984) - Wes Craven
A Hora do Lobisomem (1985) - Daniel Attias
A Criatura (1985) - William Malone
Predador (1987) - John McTiernan
A Bolha Assassina (1988) - Chuck Russell
Brinquedo Assassino (1988) - Tom Holland
O Ataque dos Vermes Malditos (1990) – Ron Underwood
Drácula de Bram Stoker (1992) - Francis Ford Coppola
Entrevista com o vampiro (1994) - Neil Jordan
Godzilla (1998) – Roland Emmerich
Blade, O Caçador de Vampiros (1998) - Stephen Norrington
Pânico no Lago (1999) - Steve Miner
King Kong (2005) - Peter Jackson
Cloverfield - Monstro (2008) - Matt Reeves
















































































Anderson Montagner
8/2/2012Muito legal a matéria! Acho que faltou falar um pouco sobre os zumbis, já que esse é um dos temas de terror mais explorados ultimamente.