Dança das cadeiras

De Robespierre a Hitler, esquerda e direita se constituíram como extremos ideológicos na cena política mundial

Marcello Scarrone

  • Esquerda e direita no parlamento francês, século XVIIINo começo, foi simplesmente uma questão de assentos na sala de reunião. Do lado direito do presidente da assembleia, o grupo dos deputados mais voltados para a manutenção da ordem constituída, do poder do rei e dos valores políticos tradicionais; do lado oposto, os que buscavam mudanças e novidades, moderadas ou radicais que fossem, como, por exemplo, a adoção da forma de governo republicana. Assim se dividiu e articulou a primeira assembléia política da França revolucionaria, ainda em 1789, a Assembléia Constituinte, e, da mesma forma, as duas que sucederam a ela, nos anos seguintes, a Assembléia Legislativa e a Convenção Nacional, esta última numa França já republicana. Direita agora queria dizer os Girondinos, partido da alta burguesia, e esquerda os Jacobinos, representantes dos interesses da pequena burguesia e das camadas mais populares, com um centro (a Planície ou o Pântano) composto por membros que apoiavam ora um ora outro lado da assembléia. 

    Leia também:

    Especial - Esquerda ou direita?

    Especial - Voto no Brasil

    Filosofia em tempos sombrios

    Com o passar do tempo, tanto na França como em outros países, os termos esquerda e direita se tornam rótulos para definir tendências políticas opostas: sob a bandeira da esquerda se arrolam os revolucionários, os fautores de reformas radicais na vida social e econômica ou simplesmente os partidários de soluções políticas que visem uma maior justiça e igualdade social, ao passo que expoentes da direita são aqueles que encarnam a fidelidade às tradições políticas, a manutenção da propriedade privada ou a legitimação de hierarquias sociais constituídas, quando não até a instauração de regimes que tentam restringir liberdades e diretos da população.

    Termos como revolucionários ou progressistas, e, do outro lado, reacionários ou conservadores, acabam se tornando, em diferentes contextos, equivalentes respectivamente de esquerda e direita. Mas o vocabulário político, com seus sinônimos e antônimos, se complica com o passar do tempo, pelos modelos institucionais que aparecem e sobretudo pelo surgimento do movimento dos trabalhadores e de partidos  que se inspiram no socialismo, nas suas várias modalidades.

    Se, para os partidos burgueses existentes nos parlamentos europeus na segunda metade do século XIX, esquerda e direita significam tão somente uma maior ou menor ênfase dada à centralização política ou a certo tipo de programa social, o nascimento, a partir das últimas décadas do século XIX, e, mais tarde, a entrada na competição eleitoral de agrupamentos de inspiração socialista, vão fazer com que eles ocupem progressivamente o espaço político da esquerda, e, com sua multiplicação e suas ramificações, criem as condições para que se possa passar a falar de “esquerdas”, no plural. Assim, ao lado de socialistas, marxistas ou não, teremos anarquistas, sindicalistas revolucionários, e mais tarde comunistas, com suas subdivisões políticas e partidárias. 

    Como a esquerda, também a direita se transforma numa família com muitos filhos. Dos simples restauradores de antigos privilégios e formas institucionais, aos propugnadores de governos fortes, centralizadores e autoritários nas mãos de membros das classes abastadas, aos expoentes de programas e governos ao serviço das classes burguesas,  até grupos, movimentos e partidos que têm como objetivo a aniquilação de qualquer presença política de esquerda.

    Tanto nas fileiras de um lado como nas do outro, é frequente a tendência a enaltecer seu próprio status e a rotular ou desqualificar o adversário. Assim, teremos constantes afirmações de uns serem mais de esquerda que os outros, leia-se mais progressista, mais aberto às necessidades das classes mais pobres, com recíprocas acusações, dentro das próprias esquerdas, de conservadorismo, mentalidade burguesa ou revisionismo, ou de pertencimento à direita política, assim como nos setores de direita as tentativas de juntar todos os setores que lutam para liberdades e reformas numa genérica esquerda revolucionária a ser erradicada.

    Partidos opostos, interesses parecidos

    No panorama político brasileiro, o partido conservador e o partido liberal que se revezam no governo do Segundo Reinado (1840-1889), às vezes buscando até composições, não representam de fato uma verdadeira contraposição esquerda/direita, sendo ambos praticamente expressão dos mesmos interesses econômicos e sociais. Somente com o surgimento nos anos 70 do século XIX do Partido Republicano e com o aparecimento das organizações abolicionistas é que se configuram agrupamento com pautas políticas diferentes, mais avançadas, qualificáveis como progressistas.

    Em tempos de Primeira Republica (1889-1930) a máquina do poder federal e local vai se ajustando com novos mecanismos de regulamentação política, sendo, porém, sempre oriundas das classes economicamente dominantes as forças que se alternam no comando da coisa pública. Os partidos socialistas, tímidos, com programas ainda pouco definidos, sem muito enraizamento nos setores operários e populares, ainda estão na periferia do poder e do parlamento. Anarquistas e sindicalistas revolucionários, com boa componente de imigrantes, agitam o mundo urbano e fabril, mas quase sempre se negando a uma entrada nas assembléias legislativas e nos correspondentes pleitos eleitorais – já que estes eram vistos como mecanismos da ordem que combatiam.

    A esquerda, então, ou as esquerdas, ativas do ponto de vista da organização dos trabalhadores, da propaganda e da luta sindical, não têm representação política partidária. O nascimento do Partido Comunista, em 1922, muda o cenário, pois ao longo da década de 1920, o novo agrupamento político, embora frequentemente posto na ilegalidade, busca uma representação nas assembléias municipais e nacionais, geralmente através de frentes populares, como o Bloco Operário e Camponês, embora com êxitos pouco expressivos.

    No plano internacional, a revolução bolchevique de 1917 na Rússia e o surgimento da União Soviética criam as bases para uma polarização que vai se radicalizando ao longo da primeira metade do século XX. O comunismo soviético se torna um exemplo a ser seguido, um modelo contagiante, com o nascimento de vários partidos comunistas. Socialistas sentam nos parlamentos de países da Europa ocidental, conquistando fortes eleitorados, nos anos imediatamente sucessivos à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) revoltas explodem em vários países da Europa ocidental, trabalhadores e camponeses se organizam e movimentam espaços urbanos e rurais.

    Saiba mais:

    FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (Org.). A Formação das Tradições (1889-1945). (As Esquerdas no Brasil, v.1) Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

    TEIXEIRA DA SILVA, F. C. (Org.); VIANNA, A. M. (Org.); MEDEIROS, S. E. (Org.). Dicionário Crítico do Pensamento de Direita. Rio de Janeiro: Mauda, 2000.  

    Diante de esquerdas que intensificam sua atuação, quase em resposta a elas, um novo ator surge na cena: o fascismo, na Itália, e seu irmão alemão, o nacional-socialismo. É a direita que se organiza e busca consensos e espaços de poder. Palavras de ordem e fundamentos do ideário fascista e nazista são a repulsa do sistema parlamentar burguês e da democracia liberal assim como de comunismo e socialismo, e a afirmação de um nacionalismo extremado, alimentado pela violência e o controle policial. Atrás destas duas formas de protagonismo político da direita, pode-se dizer da extrema direita, capazes de conquistar o poder e transformar o governo da coisa publica em regimes ditatoriais, outras organizações, entidades, agrupamentos de direita se formam em vários países europeus e extra-europeus, à imitação dos dois modelos. Por anos, diante desta escalada da extrema direita, as esquerdas europeias mostrarão suas contradições e divisões, até se lançarem em frentes unitárias de luta nos anos 1930. A Guerra Civil espanhola (1936-1939) será o espaço geográfico e político de um enfrentamento dramático entre os dois lados.  

    No Brasil, surge na extrema direita a Ação Integralista, em 1932, à qual se contrapõem nos anos seguintes as frentes das esquerdas como a Frente Única Antifascista e depois a Aliança Nacional Libertadora.  A repressão do governo Vargas e depois do Estado Novo (1937-1945), ele também, em seus inícios, imitador dos fascismos europeus, cancelará da vida política nacional os dois lados opostos e suas organizações, prendendo ou silenciando seus expoentes. 

    Marcello Scarrone é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional e autor da tese “Nello, Libero e Giuseppe: do Rio contra Mussolini. Percursos políticos do Antifascismo Italiano na Capital Federal (1922-1945)”, (UFRJ, 2013).

Compartilhe

Comentários (4)