Especial expulsão dos jesuítas - Cortados pela raiz

Pombal não é o único culpado. Interesses ingleses contribuíram para a expulsão da Companhia de Jesus

Tiago C. P. dos Reis Miranda

  • Existe ainda uma certa tendência para explicar a expulsão dos jesuítas com base em aspectos da biografia do todo-poderoso marquês de Pombal. O primeiro desses aspectos é a sua passagem como diplomata pelo Reino Unido (1739-1744), onde teria ficado “infeccionado” pela heresia anglicana. O segundo teria a ver com certas características de personalidade, que se traduziriam numa espécie de impulso persecutório, decididamente voltado contra os missionários logo no início do seu longo período de maior influência na governação (1756-1777).

    Mas nem tudo se explica por fatores pessoais, nem os fatores pessoais dispensam também sua história. Sabe-se, por exemplo, que a ascensão de Sebastião de Carvalho ao posto de secretário de Estado, em 1750, contou com o apoio de jesuítas próximos da Corte. Durante algum tempo essa relação resultou, inclusive, numa maior influência dos sacerdotes sobre os negócios do Reino e do Ultramar – onde, na época, se iniciavam os trabalhos para a delimitação das fronteiras ao sul do Brasil, fixadas com o Tratado de Madri.

    Para entender o processo de expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses, é preciso considerar o complicado equilíbrio entre as diversas potências europeias em meados da década de 1750. Multiplica-se então uma série de contatos e acordos diplomáticos, com resultados surpreendentes. De uma hora para a outra, a França, a Áustria e a Rússia se aliam contra a Inglaterra, a Prússia e o Estado de Hanover. Nesse primeiro momento, Parma, Espanha e as duas Sicílias mantêm-se neutras. O mesmo acontece com as Províncias Unidas (Países Baixos), literalmente entaladas entre os dois lados. De uma forma geral, a sensação é de perigo iminente. O início das hostilidades em campo europeu ocorre em maio de 1756, com a invasão de Minorca (no Mediterrâneo) pelos franceses. No fim do verão, Frederico II, rei da Prússia, ataca a Saxônia.

    Portugal acompanha as notícias das tropas e as perspectivas de novas batalhas em posição de angustiante fragilidade. Porque, além de ter o Exército e a Marinha extremamente mal equipados e quase sem treino de guerra efetiva, vê a cabeça do império ainda sujeita aos últimos rescaldos do grande terremoto de 1º de novembro de 1755. Os arquivos do reino estão praticamente desfeitos. O rei e a Corte, vivendo em barracas. Tudo é muito precário, diante da ameaça de ter de escolher um aliado europeu ou fazer frente a uma possível invasão estrangeira. Ao mesmo tempo, sucedem-se diversas disputas internas pelo governo, que acabam levando à mudança de dois secretários de Estado e vários ministros das legações diplomáticas, com uma clara derrota política da alta nobreza e dos simpatizantes da Companhia de Jesus.

    Do Brasil chegavam informes com impressões nada favoráveis sobre a atuação dos religiosos. Em relatos como o do general Gomes Freire de Andrade, comissário para as Partes do Sul, e o do governador do Maranhão e do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, os padres eram acusados de não colaborar com as missões demarcatórias nas fronteiras, de incitar o desacato aos representantes da Coroa e pretender a constituição de um Estado à parte. A custosa campanha pelos territórios de sete populosas missões a leste do Rio Uruguai daria lugar a uma violenta batalha de panfletos, que ganharia escala europeia, tendo os jesuítas como personagens centrais.

    Com a Europa em polvorosa, o que em princípio interessava a Lisboa era manter a neutralidade que D. João V adotara depois do desfecho da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1713). Neutralidade algo enganosa, por repousar sobre os princípios do Tratado de Methuen (1703), que previa uma espécie de troca de tecidos britânicos por vinhos portugueses. De qualquer modo, ao longo dos anos, com os proventos do ouro das Minas Gerais, tinha sido possível a Portugal o exercício de alguma firmeza na sua relação com a Inglaterra. E logo no início do segundo semestre de 1756, alarmado com o quadro existente, o ministério de D. José chegou a ensaiar uma mudança estratégica, remetendo uma embaixada a Versalhes. Seu objetivo era tentar estabelecer com a França um tratado comercial e uma aliança militar defensiva que dissuadisse qualquer aventura de outras potências.

    A iniciativa esbarrou no ambiente encontrado na Corte francesa. Os secretários de Luís XV andavam exultantes com os sucessos das primeiras campanhas e pareciam mais empenhados em conseguir integrar a Coroa espanhola à sua rede de alianças continentais. Além disso, tanto no seio da família real como no círculo mais próximo da favorita do rei, Madame de Pompadour, ocorria uma notória ascensão de partidários da Companhia de Jesus, que desenvolviam contatos com o suspeito infante D. Pedro, irmão mais novo do rei português, e sua tia D. Maria Bárbara. A tentativa de garantir maior segurança para os domínios de D. José tinha de ser relançada em outras bases. E elas viriam a ser bases britânicas.

    Em meados de 1757, Martinho de Melo e Castro, enviado extraordinário na Corte de Saint James, foi instruído a alertar o ministério britânico e os negociantes da Bolsa de Londres sobre os perigos que poderiam advir de uma conjugação de interesses entre os jesuítas e as Coroas ligadas à dinastia dos Bourbon (especialmente França e Espanha). Logo nos meses seguintes, multiplicaram-se as trocas de ideias a esse respeito com o secretário de Estado William Pitt e o próprio monarca, Jorge II. Daí em diante, todas as medidas tomadas contra a Companhia de Jesus passaram a ser acolhidas pelos ingleses com enorme entusiasmo. O fluxo de panfletos portugueses antijesuíticos em direção à Inglaterra atendeu a uma forte e generalizada demanda local.

    Tamanho interesse pelo assunto tinha razão de ser. Estava viva na memória dos britânicos a aguerrida campanha missionária jesuítica em seu território, e era enorme a importância simbólica das sucessivas derrotas que lhe tinham sido impostas pelo Anglicanismo. Entre elas, a mais celebrada era a de 1605, quando se evitara a explosão de uma grande quantidade de pólvora acondicionada debaixo das Casas do Parlamento com a intenção de matar o monarca, Jaime I, e todos os membros da Assembleia. Reza o processo que o complô fora inspirado pelas doutrinas dos sacerdotes da Companhia, que aceitavam o assassinato de soberanos desde que fossem despóticos ou ilegítimos. Poucas entidades invocavam de modo tão claro, para os ingleses da época, a traição, a perfídia e a maldade.

    As acusações portuguesas contra os jesuítas foram o cardápio de um jantar oferecido por Lord Mansfield, responsável pelo sistema de Justiça da Inglaterra e do País de Gales, ao enviado português Martinho de Melo e Castro, em maio de 1758. Durante o encontro, o dono da casa quis saber se esses padres continuavam a ser tolerados nos territórios do Maranhão e do Paraguai. Algo surpreso, Martinho de Melo e Castro confessou não ter recebido qualquer informação que o levasse a pensar o contrário. O britânico foi taxativo: “Estou certo de que jamais deixarão o país em sossego. Semelhante casta de gente é como as ervas de ruim qualidade: se não se lhes arrancam as raízes, por mais que se lhes corte a rama, sempre produzem, e ordinariamente com mais força, que a antecedente”.

    Cerca de um ano depois, o mesmo Martinho de Melo e Castro receberia o encargo de comunicar oficialmente ao rei Jorge II a intenção de expulsar todos os padres jesuítas dos domínios portugueses, com um expresso pedido de apoio militar à Inglaterra, para o caso de alguma outra potência se opor à medida. As instruções enviadas acumulavam uma longa série de argumentos, adiantando, inclusive, que se o assunto não fosse tratado com celeridade, brevemente “nem haveria Brasil para Portugal, nem em Portugal e no Brasil comércio que fosse de alguma consequência para Inglaterra”. Mas nem era preciso apresentar essa ameaça com todas as letras. Confiante nas novas feições que a guerra assumia na Europa e, sobretudo, no Canadá e na Índia – onde a França colhia insucessos –, Jorge II assegurou seu apoio irrestrito à decisão d’el-rei D. José, e ainda decidiu sugerir que os sacerdotes aprisionados fossem mantidos sob cerrada vigilância, para que as suas calúnias não engrossassem o caudal dos libelos antiportugueses.

    No mais, o rei da Inglaterra podia dormir tranquilo: pelo menos a médio prazo, as “ervas daninhas” que seu povo tanto combatera estavam feridas de morte.


    Tiago C. P. dos Reis Miranda é pesquisador do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa, autor da tese de doutoramento “A Inocência da Razão: António Freire de Andrade Encerrabodes (1699-1783)” (USP, 1998) e da dissertação “‘Ervas de Ruim Qualidade’: a expulsão da Companhia de Jesus e a aliança anglo-portuguesa (1750-1763)” (USP, 1991).

    Saiba Mais - Bibliografia

    AZEVEDO, João Lúcio de. O Marquês de Pombal e a sua época, [1ª ed., 1909], prefácio de Francisco José Calazans Falcon. São Paulo: Alameda, 2004.

    MONTEIRO, Nuno Gonçalo. D. José. Na sombra de Pombal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006.
    NOVAIS, Fernando A. “Política de neutralidade”, in Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), 2ª ed. São Paulo: Editora Hucitec, 1983.

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