Especial Gilberto Freyre 110 anos - Dando o que falar

Desde o seu lançamento, Casa-Grande & Senzala foi alvo de elogios, mas também de duras críticas

Guillermo Giucci

  • Elogiado, denunciado, admirado, criticado, o livro Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, provocou e ainda provoca as mais diversas reações e interpretações. Visto como uma obra clássica e inovadora ou como um reflexo do pensamento da classe dominante, o livro, desde o seu lançamento, em 1933, até hoje, atrai a atenção de estudiosos.  

    A primeira impressão sobre Casa-Grande & Senzala é a transgressão. O movimento do autor em assuntos inteiramente novos, com documentação prodigiosa, seria apenas parte dessa ruptura. O crítico carioca Agripino Grieco assinalou numa elogiosa resenha, em 1934, que se tratava de História do Brasil contada “à moderna”, captando o espírito de uma obra que procurava distanciar se de modelos anteriores.

    Em relação ao estilo, Grieco comenta que o livro dá a impressão de ter sido escrito às pressas. Menciona as repetições, as pequenas incoerências, as erratas, a falta de índice de nomes e de assuntos. Mas destaca a excelente formação intelectual de Freyre e o lugar da experiência pessoal dele na construção do livro.  

    Em geral, as resenhas da década de 1930 classificam a obra como um clássico e afirmam que se trata de um livro de grande sentimento nacional. Um crítico paulista, Plínio Barreto, comenta até que a casa grande não foi exclusividade do Nordeste do Brasil nem teve o açúcar por única base, já que o café também propiciou a mesma estrutura.

    Ao mesmo tempo, o argumento de que o livro mais famoso de Freyre é regionalista também tem peso. O crítico Miguel Reale, por exemplo, declara que falta a Gilberto Freyre conhecimento direto do Brasil meridional, de São Paulo aos pampas, o que o leva a estender a todo o país observações mais válidas para o Norte e o Nordeste. Essas críticas a Casa-Grande & Senzala como obra regionalista, ainda que brilhante, são fortes até hoje.

    As menções à linguagem de Casa-Grande & Senzala chamam particularmente a atenção. Nas resenhas, admite-se que a linguagem “oral” e “vulgar” pode ser usada em obras de ficção, mas não em obras científicas. Os reparos à crueza de alguns termos, ao caráter pouco técnico, têm a ver com a superação de um sistema que distingue radical¬mente ciência de ficção. Curiosamente, é no híbrido de literatura e sociologia, no humor e no prazer da leitura, que se encontra parte da riqueza da obra.

    A valorização do negro é ponto fundamental na história de recepção do livro, já que é unanimemente aceita pelos resenhistas dos anos 1930. Segundo esses autores, Freyre não só inverte uma tradição que via no negro uma das causas do fracasso do Brasil, como revê a contribuição deste para a cultura brasileira. Para José Lins do Rego, a grandiosidade do livro está na maneira como trata o negro, e Mário de Andrade afirma, em notas manuscritas na sua edição de Casa-Grande & Senzala, que “o autor defende apaixonadamente o negro”.
    De modo geral, as resenhas desse período são elogiosas e extremamente generosas, a ponto de Mário Marroquim poder afirmar que a vida literária brasileira se divide em antes e depois de Casa-Grande & Senzala.

    Todo esse panorama se transforma completamente a partir do final da década de 1960, quando surge uma onda crítica à obra de Gilberto Freyre, fundamentada principalmente no questionamento à metodologia e apoiada na imagem do autor como intelectual de direita, aceito pelos grupos de poder, mas não pelos jovens intelectuais universitários.

    Nesse período, começa um longo processo na história da recepção do livro, disseminado a partir da Universidade de São Paulo (USP) e que permanece até o presente – ainda que, desde fins da década de 1980, haja interpretações renovadoras que tentam distanciar-se desta visão.

    O texto-base para esta formulação é o livro O caráter nacional brasileiro – História de uma ideologia, de Dante Moreira Leite, publicado de 1968. Segundo Moreira Leite, o método de Freyre é um enorme processo de deformação, porque constitui uma teoria correta, a da miscigenação, que distorce a realidade existente. Sem um ponto de vista teórico bem definido, sem um método de explicação antropológico, sociológico ou histórico, suas hipóteses básicas se fundamentam em intuições pessoais. Freyre adota um processo sujeito às contradições, carente de comprovação objetiva, que se limita à história anedótica, despreza a cronologia e o espaço geográfico dos fatos descritos.

    A crítica ao método se completa com a denúncia de que a interpretação de Freyre seria incapaz de ultrapassar a perspectiva de seu meio social. Um exemplo seriam a significação e a influência exageradas atribuídas à família patriarcal no Brasil. Somente uma perspectiva conservadora da história social poderia perceber “doçura” nas relações entre senhores e escravos. Freyre não admite plenamente a crueldade do sistema de trabalho colonial, porque sua tese da miscigenação serve como justificativa ideológica do domínio da elite.

    O livro que popularizou a interpretação ideológica de Freyre foi Ideologia da cultura brasileira (1933 1974), de Carlos Guilherme Mota. Para o autor, Casa-Grande & Senzala é produto da República Velha e indica os esforços de compreensão da realidade brasileira levados a cabo por uma elite aristocratizante que progressivamente perdia poder. A indefinição conceitual e estilística de Freyre seria, consequentemente, uma máscara, um perverso procedimento para encobrir a realidade da dominação.

    Os ensaios mais recentes mostram, além do processo de consagração da obra no Brasil, uma perda de terreno da orientação crítica que classificava a obra dentro da pré-história das Ciências Sociais no Brasil.  As leituras contemporâneas, críticas ou não, situam Casa-Grande & Senzala como uma interpretação poderosa da sociedade brasileira.

    Guillermo Giucci é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e co-autor, com Enrique Larreta, de Gilberto Freyre. Uma biografia cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

    Saiba Mais - Bibliografia

    AMADO, Gilberto et alii. Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.

    ARAÚJO, Ricardo Benzaquen de. Guerra e paz: Casa-Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.
    FONSECA, Edson Nery da. Casa-Grande & Senzala e a crítica brasileira de 1933 a 1944. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1985.


    Saiba Mais - Internet

    Fundação Gilberto Freyre:   www.fgf.org.br

Compartilhe