Grafite x pichação: dois lados da mesma moeda?

Lei que proíbe venda de spray para menores de idade, debate na ABL e exposição em Los Angeles colocam a chamada arte de rua no foco da discussão

Nataraj Trinta e Julia Moreira

  • Afastada da exclusiva relação com o universo jovem e muito longe do estereótipo “coisa de negros, latinos e pobres”, a arte de rua, mais conhecida pelo termo em inglês street art, se tornou, depois da pop art, o movimento artístico de maior alcance neste mundo de configuração cada vez mais globalizada. Essa expressão designa o tempo no qual a arte transpõe muros, paredes e dialoga com toda espécie de mobiliário urbano. Mas se na prática estética e artística experimentamos o novo, instituições tradicionais ditam o tom da conversa e ressaltam a história, os significados e as contradições das primeiras manifestações do que hoje chamamos de arte de rua.Grafite dos artistas conhecidos como Os Gêmeos
    O assunto está em voga. Se nesta quinta-feira (26), foi publicada a lei que proíbe a venda de tintas em aerosol para menores de 18 anos, com a intenção de se tentar evitar a pichação, no final de abril a Academia Brasileira de Letras sediou o seminário Brasil, Brasis - Grafitismo: A arte das ruas. Na mesa de debatedores estavam a grafiteira Anarkia Boladona, os grafiteiros Acme, Airá (O Crespo), Alexandre Afã, o secretário Municipal de Conservação e Serviços Públicos do Rio de Janeiro, Carlos Osório, o acadêmico Antônio Carlos Secchin e o presidente da instituição Marcos Vilaça.
     
    Evento que ocorreu na ABL sobre grafite reuniu grafitistas e acadêmicos Anarkia começou sua apresentação estranhando o termo grafitismo no título do seminário. Com mais de dez anos de inserção na “cultura do spray” era a primeira vez que ouvia essa palavra. A grafiteira lembrou que as pessoas que escreviam suas tags, inscrições em paredes e vagões de metrôs em Nova York, no fim dos anos 60 e início de 70, se denominavam escritores. A mídia os apelidou de grafiteiros e essas tags, que se assemelhavam muito ao que chamamos no Brasil de pichação, com o tempo foram recebendo “enfeites” tais como desenhos figurativos e texturas. Com o passar dos anos o termo grafite foi visto e revisto para conceituar expressões artísticas diversas e em diferentes superfícies e locais. Hoje é difícil dizer o que exatamente significa. Para Airá (o Crespo), a definição é clara: “O grafite é desde um simples garrancho a um painel elaborado, mas a rua é o seu principal suporte!”. Em um diálogo entre o presente e o passado, Airá mostrou imagens de manifestações da street art. Alexandre Afã ressaltou o caráter de inclusão social do movimento e sua relação com o hip hop. Já o grafiteiro Acme falou, de modo descontraído, sobre sua biografia e trajetória profissional.

    O que hoje é visto como valiosa mercadoria, enquanto valor artístico dá o que falar e como liberdade de expressão é muitas vezes condenado. Porém o secretário Municipal de Conservação e Serviços Públicos do Rio de Janeiro, Carlos Osório, afirmou que a arte de vanguarda e contestação que se incorpora ao espaço e valoriza a paisagem é um tema importante para atual gestão administrativa.

    O que agradou a “gregos e troianos” e decretou o consenso geral da plateia foram as palavras do acadêmico Antônio Carlos Secchin, que explicou o neologismo grafitismo. Seria mais adequado se utilizar o sufixo “ismo”, presente também em palavras como vanguardismo e romantismo do que o sufixo “agem” como em malandragem e bandidagem. Desta forma, seria simbolizado o enobrecimento do ato de grafitar. Seguindo esses passos rejeitaríamos o nome grafiteiro, cujo sufixo “eiro” aparece em adjetivos pejorativos tais como macumbeiro, batuqueiro, arteiro para usar, então, a palavra grafitista (assim como baterista, artista etc).

    O mês de abril foi também o período de inauguração da mostra Art in the streets no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles – o MoCA.  A exposição é a maior do gênero já realizada nos Estados Unidos e ficará em cartaz até agosto. Em março de 2012, ela atravessará o país e será exposta no Brooklyn Museum, em Nova York.

    Além de grafites, são exibidas obras que se relacionam com as práticas culturais em torno no Hip Hop, do skate e de outras formas de aproveitamento dos espaços públicos como estênceis, adesivos, flashmobs etc. Jeffrey Deitch, que é curador e diretor do museu, trabalhou numa galeria que representava grandes nomes do movimento, como a dupla paulistana Os Gêmeos. O trabalho dos irmãos está espalhado em paredes de todo o mundo e ganhou espaço também no MoCA.

    Cena do documentário 'Luz, câmera, pichação' / Imagem cedida por Gustavo CoelhoOutra presença brasileira na mostra é o filme recém-finalizado “Luz, câmera, pichação”, dirigido por Gustavo Coelho e Marcelo Guerra e co-dirigido por Bruno Caetano. Sem estreia prevista no Brasil, o longa-metragem ainda está em busca de financiamento.

    Gustavo Coelho se envolveu com a cultura da pichação durante o mestrado em Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Decidi analisar as práticas culturais de uma juventude silenciada e despossuída”, explica. Para complementar sua pesquisa, começou a fazer vídeos. “De início, eu pretendia apenas criar um canal no Youtube, mas encontrei uma câmera boa num preço acessível e resolvi fazer algo mais profissional”, afirma Gustavo. Depois de um ano de convivência com pichadores das ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo, a equipe contava com 50 horas de material filmado. “Mas decidimos focar só no Rio, onde a cena é menos explorada. Já tem muita coisa sobre São Paulo”, diz o diretor.

    Contando com os brasileiros, a exibição no museu de Los Angeles apresenta 50 artistas – sendo que boa parte deles já é conhecida do público. Não à toa, as obras mais visitadas são as de Banksy, o britânico anônimo que recentemente concorreu a um Oscar de Melhor Filme Documentário. É apresentada ainda uma linha do tempo, com marcos como o início das gangues americanas do grafite e a invenção da lata de spray. Nos anos 60, quando começaram a ser realizadas, as intervenções em muros, pontes ou trens eram vistas por uma audiência aleatória. O artista só ganhava fama quando os jornais o noticiavam como vândalo e criminoso. A internet teve um papel fundamental para dar credibilidade e visibilidade a essas manifestações. Um dos primeiros fóruns online foi o Unurth, criado em 2008. Gustavo Coelho destaca também a importância de redes sociais como o Orkut e o Fotolog: “pichadores dos anos 1980, que já tinham parado de pichar, reencontraram antigos amigos e, aos poucos, voltaram às ruas. Por conta disso há uma grande quantidade de pessoas com 40 e poucos anos pichando hoje em dia”, comenta.


    Mas não foi só o sucesso que transformou a mostra em manchetes de jornal: assim que foi inaugurada, a polícia de Los Angeles responsabilizou a exposição por uma nova onda de intervenções em prédios, postes e caixas de correio da cidade. Com isso, criou-se a situação contraditória de prender uma pessoa por algo que é celebrado pela cena artística local.

    Pichações em muros da Lapa, no Centro do Rio / Imagem cedida por Gustavo CoelhoEm inglês, o termo correspondente a grafite também inclui o que nós conhecemos como pichação. Célia Maria Antonacci Ramos, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e autora de “Grafite, pichação & cia.” (Annablume Editora, 1992), diz que a principal diferença entre as duas práticas é o valor estético: “no grafite há uma preocupação em elaborar signos, agrupá-los e ambientá-los ao suporte, há uma preocupação poética consciente. A pichação é mais aleatória, trabalha com mais improviso, mais acaso; quando a poética acontece, e muitas vezes acontece, é por puro acaso.”

    Gustavo Coelho afirma que o Brasil é o único país do mundo em que essa distinção existe. Segundo ele, o grafite é mais romanceado e intelectual. “Ele se tornou antídoto contra a pichação”, explica. Enquanto o grafite vem sendo idolatrado, a pichação continua reprimida – postura que ficou bastante clara durante o seminário na Academia Brasileira de Letras. Hoje, a maior parte dos grafiteiros se formou em escolas de Design e Belas Artes, e ainda que tenham aventuras ilegais de vez em quando, “não sabem a linguagem da rua”, diz Gustavo. “Esses dois mundos praticam mais ou menos a mesma coisa, mas se desconhecem”, complementa. Gustavo defende, ainda, que o problema em relação à pichação é de comunicação. “Há mais arcaísmo no ato de rabiscar do que no de manter. Antes era o piche, depois veio o muro limpo”, conclui. Se a paisagem é um bem coletivo e a cena do grafite é muito semelhante à da pichação, isso quer dizer que ainda teremos muito diálogo pela frente. O bom é que, pelo que parece, a comunicação já começou.

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