A imagem da capa

"Ao substituir Tiradentes pelos quatro inconfidentes negros, o artista propõe repensarmos a história e levantarmos o véu que ainda cobre a difícil barreira racial existente em nossa sociedade"

Camila Dazzi

  • A imagem da capa, realizada pelo artista João Teófilo, é uma provocação. Sobre um cadafalso, vemos os membros esquartejados de quatro homens negros dispostos em cima de um pano branco. A cena pode remeter às fotografias jornalísticas de chacinas que ocorrem no Brasil, nas quais os vitimados em tanto se assemelham aos protagonistas da aquarela de Teófilo. Mas foi uma pintura que lhe serviu de inspiração: “Tiradentes esquartejado”, produzida por Pedro Américo em 1893.

    Com a Proclamação da República (1889), fez-se necessária a construção de uma identidade nacional para a pátria. Era premente a escolha de mártires republicanos para o lugar de D. Pedro I, o herói da monarquia. Duas revoltas, em especial, poderiam conceder aos republicanos o personagem que buscavam: a Inconfidência Mineira (1789) e a Conjuração Baiana (1798). Na Inconfidência Mineira, somente Tiradentes foi condenado à pena última (que consistia em ser enforcado e esquartejado) por crime de lesa-majestade. Na Conjuração Baiana, foram quatro os condenados à mesma pena: João de Deus, Manoel Faustino, Luís Gonzaga e Lucas Dantas. Por que nenhum dos inconfidentes baianos foi alçado ao patamar de herói e mártir da República? Por que coube a Tiradentes esta glória? A aquarela de João Teófilo nos apresenta a resposta: os quatro baianos eram negros – ou, como eles mesmos se compreendiam segundo os registros do século XVIII, mulatos.

    Um dos principais desafios para a criação do panteão nacional republicano foi a aceitação dos heróis e mártires pelos brasileiros. No contexto das revoltas separatistas coloniais, Tiradentes se apresentava como a única escolha possível. A abolição ocorrera em 1888, apenas um ano antes da Proclamação da República, e embora os negros estivessem libertos, na prática continuavam tão subjugados quanto antes. Abundavam, no meio intelectual, teorias ligadas ao racismo científico, que atribuíam à presença do negro o motivo do atraso nacional em face das nações europeias. O debate em torno da raça, então em ebulição, tornava impossível a escolha dos inconfidentes baianos pelo simples fato de que uma parte significativa da população, da intelectualidade e do próprio governo não aceitaria negros ou mulatos no panteão de heróis republicanos.

    Toda imagem fala sobre seu tempo histórico de produção. Somente na contemporaneidade, quando os movimentos raciais e as estratégias de empoderamento negro se fazem cada vez mais presentes no Brasil, uma aquarela como a de João Teófilo poderia ser produzida. Ao substituir Tiradentes pelos quatro inconfidentes negros, o artista propõe repensarmos a história e levantarmos o véu que ainda cobre a difícil barreira racial existente em nossa sociedade.

     

    Ilustração João Teófilo (2015)

     

    Camila Dazzi é professora do Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico-raciais do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, do Rio de Janeiro.

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