Museus do Brasil

Artigo de professor passeia por importantes instituições do país e revela: nunca o culto ao passado esteve tão em alta quanto agora

Luiz Cruz

  • Museu de Arte Sacra da Diocese de São João da Boa Vista / Foto: Luiz CruzEm São Paulo, o cemitério de São João da Boa Vista é um passeio obrigatório para quem gosta de arte. A falha é que não há informações sobre as esculturas, verdadeiras obras-primas. Para tentar conseguir mais detalhes, fui, então, ao Museu de Arte Sacra da Diocese de São João da Boa Vista, onde conheci o artista paulista Fernando Furlanetto, que nasceu em 1897 e falecera em 1975. Furlanetto teve formação na Itália, no Instituto de Belas Artes de Pietrasanta, onde estudou por oito anos e se destacou por seu trabalho e talento, tendo recebido reconhecimento e prêmios. Retornou ao Brasil e se dedicou à escultura, muitas delas para o cemitério de São João da Boa Vista. Suas obras variam entre o pequeno e o grande formato, o bronze e o mármore. O artista deixou uma frase registrando seu encantamento pela pedra: “Para mim, o mármore é um fascínio”.

    Sorte foi ter buscado informações sobre Furlanetto no Museu de Arte Sacra. Apesar de uma série de problemas com espaço e manutenção, o museu trata-se de grata surpresa. Possui um acervo de mais de dez mil peças e sua criação remonta a 1987, quando um grupo de senhoras se mobilizou em torno do engenheiro João Batista Merlim para recolher peças que estavam inadequadamente depositadas na Catedral São João Batista.  Coube a Merlim conseguir mais apoio, tanto local quanto de outras cidades, como Salvador e Rio de Janeiro, e especialmente da Diocese de São João da Boa Vista.

    Porém, após a visita à instituição, algumas questões não sumiram: por que uma comunidade se mobiliza em torno da ideia de se criar um museu? Por que se cria museu de arte sacra? Podemos encontrar uma resposta com a experiência de São João da Boa Vista. O museu de arte sacra é para armazenar, restaurar, conservar, socializar, educar e manter a própria religiosidade. Na verdade vai refletir toda a história e desenvolvimento da comunidade através dos objetos devocionais construídos e agrupados ao longo de gerações. Por isso, não é um espaço estático, ou congelado. As mostras temporárias, com curadorias especializadas, dão um vigor surpreendente à dinâmica do museu, tanto para o visitante quanto para o acervo e a própria instituição. Um museu como este é um lugar onde a memória do indivíduo se torna coletiva. Também quando no coletivo, o indivíduo se identifica como parte, lembrando aqui Ecléa Bosi, em “Memória e sociedade”.

    Museu Soumaya, da Cidade do México / foto Wikimedia-ccHá alguns anos, acreditava-se que os museus ficariam obsoletos e gradativamente perderiam público. Até os mais tradicionais museus, como o Louvre, mantém-se com um pé fincadíssimo na modernidade, não só por uma pirâmide de vidro, mas por um conceito afinado com a museologia contemporânea. Estamos assistindo exatamente ao contrário. Comparando com outras manifestações como o cinema e o teatro, a situação fica mais acentuada. Nunca se fechou tanto cinema como nos tempos atuais. Nunca se abriu tantos museus como agora. Acabamos de assistir à inauguração de um dos mais ousados projetos museográficos, o Museu Soumaya, propriedade do homem mais rico do mundo, o empresário Carlos Salim Helú. Com acervo de mais de 66 mil peças, exibindo 6.220 obras, em 17.000 metros quadrados de área expositiva. Dentre as atrações está a maior coleção de Rodin fora da França, 380 obras. O prédio do Soumaya é de autoria de Fernando Romero, que é genro de Slim, e está em uma área bastante deteriorada da Cidade do México. Além do museu que tem visita franca, a região passa por um amplo projeto de revitalização urbanística, avaliada em US$ 800 milhões. Há severas críticas tanto ao projeto arquitetônico, quanto a falta de linearidade da coleção. Mas é fato que o Museu Soumaya vai transformar a região onde está inserido, propiciando novas frentes de emprego, inserção social e melhoria na qualidade de vida. Além de contribuir com mais uma atração cultural para o México.

    E como vão os museus brasileiros? O Ibram, Instituto Brasileiro de Museus, acaba de lançar o Guia dos Museus Brasileiros e com ele podemos apreciar a grande variedade que temos nas nossas 2.607 instituições. De 2001 a 2007, o setor movimentou cerca de R$ 1,5 bilhão e gerou cerca de 40 mil empregos diretos. Entre 2003 e 2008, o público visitante ficou em torno de 29 milhões. E, finalmente, as grandes exposições tem tido recordes de visitação: a 29ª Bienal de São Paulo teve 535 mil visitantes, entre as mais visitadas no mundo, segundo a revista “The Art Newspaper”. A revista trouxe também outras exposições em destaque como as montadas no CCBB - Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio e de São Paulo, além das organizadas pelo Museu Imperial (RJ), Museu de Arte Moderna (SP) e Museu de Artes e Ofícios (MG).

    Diante tantas possibilidades e diversidades, algumas experiências se destacam como o Museu de Arte Contemporânea. Construído na década de 1990, no Mirante da Boa Viagem, em Niterói (RJ). Visitar este museu é sempre um grande prazer, pois a ele se associam muitos fatores: arquitetura ousada, arte contemporânea, cultura e atividades educacionais, lazer e contemplação de uma das paisagens mais lindas do mundo. O museu exibe parte das 1.217 obras da Coleção de João Sattamini.

    Museu da Língua Portuguesa fica no coração de São Paulo, na Estação da Luz /Foto: Daniel Guimarães-Governo de São PauloInhotim é uma proposta museológica das mais bem sucedidas, associando arte contemporânea e um parque ecológico. Projeto idealizado por Bernardo Paz, em Brumadinho (MG), com a participação e incentivo do paisagista Roberto Burle Marx. Em uma área de 97 hectares, mata com trilhas, lagos, amplos jardim e enorme coleção de palmeiras – os galpões abrigam obras de artistas brasileiros e estrangeiros. São cerca de 500 obras de cem artistas. Associado a isso, oferece visitas guiadas, caminhadas monitoradas e programas sócio-educacionais. Inhontim já figura entre os centros de maior visitação no Brasil. Recebeu o prêmio de Atração do Ano no Guia Brasil 2011.

    São Paulo tem muitos museus, mas de longe o maior sucesso dos últimos anos tem sido o Museu da Língua Portuguesa, instalado na Estação da Luz. Idealizado por Ralph Appelbaum, que já tinha realizações museográficas de forte impacto como o Museu do Holocausto, de Washington (EUA). O Museu da Língua Portuguesa foi implantado por meio de projeto coordenado pela Fundação Roberto Marinho, que além de mobilizar um significativo número de empresas parceiras, envolveu enorme corpo técnico para desenvolver os diversos aspectos da museografia. É um museu tecnológico, mas que busca as origens da Língua Portuguesa e remonta a anos antes de Cristo. Como se trata de tecnologia, a interação dos visitantes é fundamental para que a visita tenha melhor proveito. Neste caso, som e imagens são fundamentais. A língua portuguesa é apresentada em alguns eixos. A primeira mostra do museu foi dedicada ao escritor e diplomata mineiro, de Cordisburgo, João Guimarães Rosa, celebrando os 50 anos da publicação do romance “Grande sertão: veredas”.

    Projeto do Museu da Imagem e do Som, Rio de JaneiroO Rio de Janeiro também possui diversos museus. Mas aqui, gostaria de tratar de um outro conceito museográfico: o museu-casa. A casa de Eva Klabin, que é a sede da fundação que tem seu nome e abriga sua preciosa coleção de obras de arte, objetos, mobiliário, tapeçaria e tudo mais que constituía a própria casa da colecionadora. Localizada à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, à Rua Epitácio Pessoa 2480, com fácil acesso, a casa museu possui acervo de cerca de duas mil peças, um dos mais importantes de arte europeia existentes no país, além de núcleos egípcios e greco-romanos.  O jardim da casa é um dos projetos de Roberto Burle Marx. A casa-museu foi idealizada nos anos de 1970 e aberta ao público a partir de 1995. A casa de Eva Kablin foi um dos marcos da efervescência da vida cultural carioca e onde se hospedavam personalidades como David Rockefeller, Henry Kissinger, Shimon Peres e outros. Visitar esta casa-museu é uma experiência imperdível.

    Brevemente o Rio de Janeiro receberá mais três novos museus. O Museu da Imagem e do Som que será construído em Copacabana, com projeto assinado pelo escritório americano Diller Scofidio + Renfro e inauguração prevista para 2012. Integrando o projeto de revitalização portuária, o Píer Mauá ganhará dois museus: o Museu do Amanhã, com projeto do espanhol Santiago Calatrava, previsto para 2012 e o Museu de Arte do Rio, o MAR, que ocupará o Palacete Dom João VI e o edifício vizinho, onde funcionou um hospital e o terminal rodoviário Mariano Procópio, com projeto arquitetônico do escritório carioca Bernardes e Jacobsen e previsão de inauguração para 2012. Ambos sob coordenação da Fundação Roberto Marinho, com amplo apoio do estado e da prefeitura.

    Essa coleção de casos de sucesso mostra que os museus brasileiros são ótimos lugares para quem gosta do passado, e têm um longo futuro à vista.

    Luiz Cruz é professor e associado fundador do Centro Cultural Yves Alves

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