Origem das epidemias

Em mais uma rodada do #PergunteaoHistoriador, professor da Faculdade de Medicina da UFG responde a questão formulada pelo twitter sobre provável início de doenças na China

Joffre M. de Rezende

  • Uma coincidência? Uma questão de saúde pública? Um problema ainda maior e não decifrado? Ou a generalização de uma ideia preconcebida? “Por que as origens de grandes epidemias (Peste Bubônica; Pandemia H1N1; Cólera) são geralmente atribuídas à China?”, perguntou no dia 14 a conta de twitter História da Medicina (@med_hist_ufpb) para o #Pergunteaohistoriador. Recorremos ao médico Joffre M. de Rezende, que também é professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, além de membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina e autor de "À sombra do plátano - crônicas de História da Medicina" (Unifesp), que gentilmente produziu um artigo sobre o assunto para a Revista de História. Confira a resposta e se tiver uma dúvida, a envie também. Saiba como aqui. [Só lembrando que excepcionalmente antecipamos a resposta de sexta por conta do feriado prolongado.]

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    Em primeiro lugar devemos distinguir as epidemias por vírus das epidemias por bactérias. A gripe é produzida por vírus; a peste bubônica e o cólera por bactérias

    A gripe, ou influenza, para usar o nome correto da terminologia médica, é causada por um vírus que só foi isolado em 1933 e que apresenta a propriedade de sofrer mutações a intervalos variáveis de dez a 20 anos. Admite-se que este vírus tenha tido sua origem na China, em aves aquáticas e, por recombinação de genes, tenham surgido cepas infectantes para outras aves, mamíferos e o próprio homem. Entende-se, portanto, por que se diz que as epidemias de gripe vieram da China,

    Há três tipos de vírus da influenza: A, B e C, sendo que somente o tipo A causa grandes epidemias e pandemias. Na superfície do vírus A encontram-se anticorpos hemaglutininas que facilitam sua adesão e penetração no interior da célula; e a enzima neuraminidase, que possibilita a expulsão das novas partículas virais que se formam.

    Há 16 formas diferentes de hemaglutinina e nove de neuraminidase, as quais servem como referência para a classificação dos subtipos do vírus A. Na nomenclatura oficial, a hemaglutinina é representada pela letra H, seguida de um número, e a neuraminidase pela letra N, também seguida de um número. Assim, a notação AH1N1 da gripe recente significa que o vírus é do tipo A, com hemaglutinina da forma 1 e a neuraminidase também da forma 1. Em outras epidemias já foram identificados os subtipos H2N2 (gripe asiática, 1957), H3N2 (gripe de Hong Kong, 1968), H5N1 (gripe aviária, China, 1997).

    O mesmo não se pode dizer da peste bubônica, causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida pela pulga, e do cólera, cujo agente é o Vibrio cholera, que se transmite pela água contaminada.

    A existência da peste perde-se na Pré-História, sendo que a primeira referência escrita data do século XII a.C. e se refere à peste dos filisteus, narrada na Bíblia, no livro Samuel l.5.9/6.5. Já então se fazia associação da peste com os ratos.

    No decorrer dos séculos, várias foram as epidemias e pandemias que assolaram a humanidade, muitas das quais se propagaram do Oriente para o Ocidente, sem que se possa afirmar que tenham se iniciado na China. A maior delas, do século XIV d.C., conhecida como peste negra, pelas manchas escuras que surgiam na pele, manifestou-se primeiramente na Mongólia e China e, por via marítima, trazida em navios com tripulações contaminadas, chegou à Europa em 1347.

    Já o cólera é endêmico na Índia e não na China. Foi na Índia que Koch encontrou e identificou o vibrião colérico em águas contaminadas. A higiene precária e os hábitos tradicionais da população indiana favorecem a manutenção da endemia no país. Permaneceu limitada à Índia até o início do século XIX, quando surgiram casos em outros continentes pela maior facilidade de comunicação e intercâmbio comercial, que disseminaram o bacilo. As epidemias de cólera não têm a gravidade da peste bubônica e causam muito menor mortalidade.

    Além das citadas, há epidemias de outra natureza como a malária, o tifo exantemático, a febre tifóide, registradas no passado em diferentes regiões que não a China. Concluindo, podemos afirmar com segurança que somente a influenza teve sua origem na China.

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