Tristeza sem fim

Desmoronamentos no Rio de Janeiro, como o desta semana no Centro, traumatizam a cidade há décadas, acompanhados de falhas e impunidades perenes

  • “Caía a tarde feito um viaduto”, verso de João Bosco e Aldir Blanc no clássico “O Bêbado e a Equilibrista”, pode soar como uma incógnita para muitas pessoas – principalmente que não são do Rio ou nasceram longe dos anos 70. Juntamente com o contexto político da época, a inspiração veio de um dos maiores desabamentos ocorridos no Rio de Janeiro. O Viaduto Paulo de Frontin, que liga o Túnel Rebouças à Linha Vermelha com saídas para a Ponte Rio-Niterói e a Avenida Brasil, estava sendo concluído em 1971 quando veio abaixo ao meio-dia de 21 de novembro de 1971.

    Quando um caminhão passava com oito toneladas de concreto por cima do elevado, a estrutura recém-construída não resistiu. Um trecho de 122 metros de viaduto – o equivalente a 30 carros enfileirados – desmoronou em cima de um ônibus e de automóveis que cruzavam a esquina da Avenida Paulo de Frontin com a Rua Haddock Lobo. Quarenta e oito pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Ninguém foi culpado pelo acidente – como, aliás, é de hábito nesses casos.

    De lá para cá, o Rio se “acostumou” com cenas assim. Quando não é um bueiro indo pelos ares ou uma marquise vindo abaixo, é um prédio inteiro que desmorona, como aconteceu nesta semana. Dois edifícios – um de 20 andares e outro de 10 –, além de um sobrado de quatro andares, desmoronaram ao lado do Theatro Municipal. Até agora já são 27 vítimas, sendo nove mortos e 18 desaparecidos.

     

     

    Em setembro de 2002, outro prédio desabou no Centro, desta vez na esquina das ruas do Rosário com 1º de Março. No local funcionava o Hotel do Rosário e um restaurante. Cinco andares vieram abaixo matando dois hóspedes. Na época, autoridades disseram que o incidente foi provocado por uma demolição inadequada durante a obra – mesma suspeita do desabamento desta semana. Ninguém foi culpado.

    Há 14 anos, o trauma foi em pleno domingo de carnaval. Na madrugada de 22 de fevereiro de 1998, moradores do Edifício Palace II, na Barra da Tijuca, foram acordados por um estrondo seguido de um tremor. Um dos pilares de sustentação do prédio estava danificado, e a Defesa Civil, acionada, interditou o edifício às 4h. Meia hora depois, 44 apartamentos desmoronaram. Oito pessoas morreram soterradas e 150 ficaram desabrigadas.

    A Prefeitura do Rio anunciou a implosão do prédio dentro de cinco dias. No limite do prazo, dia 27, houve um novo desmoronamento de 44 apartamentos. No dia seguinte, a prefeitura implodiu o Palace II, transmitido pela televisão em cadeia nacional. O Ministério Público acusou a empresa Sersan, do ex-deputado federal Sérgio Naya, de ter usado material de baixa qualidade para erguer o edifício. Naya chegou a passar 137 dias na prisão, mas acabou absolvido. Ele morreu em 2009 de enfarte. Algumas famílias lutam até hoje para serem indenizadas.



    Irmão de Nelson Rodrigues

    O histórico de desabamentos matou também um irmão de Nelson Rodrigues. Em 1967, um deslizamento atingiu uma casa e dois prédios na Rua General Glicério, em Laranjeiras, matando cerca de 120 pessoas. Entre as vítimas estavam Paulinho Rodrigues, sua esposa e seus dois filhos.

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