Uruguai na Mira

Trinta horas: este era o tempo estimado para que as tropas brasileiras conquistassem o Uruguai, evitando que a esquerda assumisse o poder em 1971

Enrique Serra Padrós


  • “Vocês podem vencer, mas no outro dia terão os brasileiros metidos ali”, com essas palavras Fidel Castro teria advertido Mauricio Rosencof, um dos chefes do grupo guerrilheiro uruguaio tupamaros, sobre uma possível intervenção do Brasil no país platino. Em 1971, os governos do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos voltaram seus olhos, apreensivos, para o resultado das eleições presidenciais no Uruguai. O medo de uma vitória da esquerda levou a ditadura brasileira a elaborar um plano secreto de invasão e intervenção no país vizinho.

    O Uruguai era um fator de preocupação desde que acolhera centenas de exilados brasileiros após o golpe de 1964. Sua fronteira era freqüentemente atravessada por “pombos correios” que levavam informação e conectavam a resistência interna no Brasil com os exilados. O jornalista Flávio Tavares lembra, em suas memórias, que Montevidéu era “a meca da revolução nacionalista-popular no Brasil”. O ex-embaixador Pio Corrêa reconheceria, anos depois, que, desde 1964, existia no Uruguai um esquema brasileiro de espionagem dos exilados. A liberdade de ação de Leonel Brizola (exilado) no Uruguai e a formação do Movimento Nacionalista Revolucionário foram motivo de constante preocupação para a ditadura brasileira.

    Outra fonte de apreensão brasileira era a relação de forças continentais. Em meados de 1971, os regimes antiimperialistas de Allende (Chile), Torres (Bolívia) e Alvarado (Peru), segundo a perspectiva da Doutrina de Segurança Nacional, eram considerados hostis e vistos como parte de um cerco “subversivo” que ameaçava os setores anticomunistas do Brasil, da Argentina, do Uruguai e dos EUA.

    O país platino sofria uma escalada autoritária iniciada no final de 1967, com a morte do presidente Oscar Gestido, substituído pelo seu vice, Jorge Pacheco Areco. Uma profunda crise interna, se arrastava desde o fim da Guerra da Coréia (1950-1953), o que levou à perda dos mercados da carne e da lã uruguaia gerando, conseqüentemente, desemprego, pobreza, arrocho salarial, deterioração dos serviços estatais e violência policial. Tais fatores, combinados com o clima de Guerra Fria e o impacto da Revolução Cubana e da imposição de ditaduras no Brasil (1964) e na Argentina (1966) provocaram importantes mobilizações sindicais, estudantis e o surgimento da organização guerrilheira tupamara.


  • Diante dessa crise, o governo uruguaio aplicou medidas sociais e econômicas impopulares e recorreu a leis de exceção (as Medidas Prontas de Segurança), impondo, na prática, um estado de sítio quase permanente. Censura, repressão e militarização de empresas públicas, bancos e fábricas passaram a marcar o cotidiano do país. A morte de estudantes e trabalhadores nas mãos de unidades policiais e paramilitares acompanhou a intensificação e refinamento do uso da tortura a partir da colaboração de especialistas, inclusive agentes norte-americanos.

    O governo e as forças que representava, viram-se ameaçados, em fevereiro de 1971, com o surgimento da Frente Ampla, coalizão de esquerda integrada por comunistas, socialistas e democrata-cristãos, entre outros, e que postulava concorrer às eleições nacionais do final daquele ano. Seu programa socialista e a candidatura do general (retirado) Líber Seregni, contaram com adesão militante dos movimentos sociais, da central sindical e de influentes intelectuais.

    Semanas antes da eleição, começaram a circular rumores sobre movimentação de tropas brasileiras na fronteira comum, o que foi associado à possibilidade de invasão em caso de vitória da Frente Ampla. Tal movimentação era conhecida em certos círculos militares do Brasil e da Argentina.  O plano foi denominado “Operação Trinta Horas”, pela estimativa de tempo necessário, segundo estrategistas militares, para subjugar Montevidéu e controlar o Uruguai. Desde agosto de 1971, o governo Nixon vinha examinando, através das suas embaixadas, a posição de Brasília e Buenos Aires diante de uma hipotética vitória eleitoral da esquerda uruguaia; indagava, também, sobre a existência de um plano brasileiro de intervenção e até onde este poderia contar com o apoio argentino.

    Em 1970, as relações Brasil-Uruguai foram abaladas com o seqüestro do cônsul brasileiro, Dias Gomide, que ficaria em poder dos tupamaros durante quase seis meses. O presidente uruguaio, Pacheco Areco, negou-se a aceitar as condições de libertação: troca por presos políticos. Embora o Brasil pressionasse pela libertação do seu funcionário, prestou apoio incondicional ao governo uruguaio, inclusive transmitindo sua experiência anti-subversiva – familiares de presos políticos denunciaram a presença de torturadores brasileiros em “interrogatórios” no Uruguai. Desde 1970, estrategistas localizados na fronteira vinham avaliando as condições de manobra para o caso de intervenção.


  • As eleições uruguaias ofereciam duas possibilidades preocupantes para o governo Médici: a vitória da Frente Ampla ou a vitória de um partido de direita, o que intensificaria a ação da guerrilha. As duas alternativas eram consideradas perigosas e justificavam a invasão.

    A invasão e ocupação do país teriam que ser fulminantes para evitar reações contrárias da OEA ou da ONU. O semanário Marcha de 30 de junho, publicava um editorial intitulado La sombra de la Cisplatina, destacando as declarações do chanceler brasileiro Gibson Barboza: “A medida que nossos caminhos [do Brasil] vão chegando a todas as fronteiras, iniciamos um processo mais íntimo de convivência com os países vizinhos.” O semanário indagava: o que seria essa convivência mais íntima com os países vizinhos? Pois o Brasil, ditadura de Segurança Nacional, desempenhava um papel estratégico na região. Aquela afirmação reforçava o medo da sua expansão territorial ou de interferência nas questões internas dos outros países. Marcha relacionava a idéia de “caminhos que vão chegando à fronteira” com um documento do Departamento de Estradas do Brasil que informava ao então Ministro de Obras Públicas, Mário Andreazza, a construção de seis estradas sobre a fronteira com o Uruguai. A agência de notícias responsável por essa informação afirmava que a chancelaria brasileira, receando a deterioração política uruguaia, buscava consolidar uma frente continental antiguerrilheira para conter a irradiação do fenômeno tupamaro ou da ‘esquerdização’ do país diante de um eventual triunfo da Frente Ampla.

    Assim se pronunciava também o Diretor do Departamento de Integração Regional da Eletrobrás, general Amir Borges Fortes: “A Bacia do Prata é a grande arena onde estão em jogo os interesses nacionais” e “o Uruguai e a Bolívia são os países que mais preocupam [pela ameaça”comunista"] (...)". O general Torres acabou sendo derrubado da presidência boliviana por um golpe de Estado (agosto 71) apoiado pelo regime brasileiro. O Globo dizia em um editorial de setembro: “No pôquer da subversão latino-americana, a Bolívia acaba de liberar-se do castro-comunismo. O Uruguai, enquanto isso, parece disposto a candidatar-se para ocupar seu lugar”. Evidentemente, essas afirmações tensionaram, ainda mais, o cenário pré-eleitoral uruguaio.

    O Departamento de Estado dos EUA, num memorando secreto nas vésperas das eleições anunciaou a derrota da Frente Ampla na eleição presidencial, mas temia a possibilidade de vitória em Montevidéu. Por isso, sugeria aos governos do Brasil e da Argentina que avaliassem a possibilidade de uma intervenção conjunta no Uruguai para garantir a permanência dos setores conservadores no poder. A mensagem era bem direta. O equilíbrio da região não podia ser rompido pela radicalização da esquerda uruguaia nem por uma ação unilateral da Argentina ou do Brasil. O entendimento entre ambos devia nortear as ações na geopolítica platina.


  • A Frente Ampla acabou derrotada na eleição que confirmou o continuísmo do Partido Colorado, com Juan Maria Bordaberry.Nos meses seguintes,  repressão a repressão aumentou e, em pouco tempo, a os tupamara foram derrotados. Em junho de 1973, as Forças Armadas e Bordaberry fecharam o cerco sobre a enfraquecida democracia através de um golpe de Estado que impôs uma ditadura civil-militar que duraria até 1985. Com isso, a Operação Trinta Horas tornou-se desnecessária sendo desativada, negada e esquecida.

    Em 1985, porém, o coronel brasileiro Dickson Grael resgatou o tema ao admitir  que, no fim de 1971, a invasão do Uruguai foi efetivamente planejada. Segundo ele, a possibilidade de vitória da Frente Ampla preocupava a ditadura brasileira por dois motivos: Primeiro, um governo de esquerda na fronteira sul do Brasil poderia afetar sua “segurança nacional”. Segundo, a participação de exilados brasileiros na campanha da Frente Ampla, sobretudo na região de fronteira, poderia estimular ações mais ousadas (a volta ao Brasil infiltrando-se pelo Rio Grande do Sul ou a intensificação de campanhas de denúncias no exterior). Isso poderia ocorrer no momento em que o “milagre brasileiro” decolava e a ditadura capitalizava simpatias de certos setores médios da população.

    Grael não só estudou a participação da sua unidade no plano, como testemunhou a passagem pela região do Adido Militar dos EUA, general Arthur Moura, que visitou as guarnições e, descendo o rio Uruguai, fotografou atividades da Frente Ampla em uma ação concreta de monitoramento do governo dos EUA tanto em relação à situação do Uruguai quanto aos preparativos militares brasileiros decorrentes.

    Os círculos militares uruguaios tinham informação sobre a operação. Num depoimento prestado poucos anos antes da sua morte, o general Seregni afirmou que no inverno de 1971 sabia-se da grande concentração de tropas próximas à fronteira.


  • Novos depoimentos confirmaram as informações de Grael e enfraqueceram o silêncio oficial brasileiro. Em 1986, por exemplo, o tenente Marco Pollo Giordani, desde a sua obra revisionista, Brasil sempre, reconhecia o plano de intervenção (embora identificando-o como Operação Charrua). Em 1998 foi a vez do brigadeiro Sérgio Luiz Burger confirmar ter havido “realmente um plano de intervenção do Brasil no Uruguai, aprovado no governo do general Médici” no início dos anos 70 quando, após a eleição de Bordaberry, os tupamaros ameaçaram impedir sua posse. Da mesma forma, há poucos anos, Elio Gaspari confirmou ter encontrado documentos que confirmavam a mobilização da 2ª Brigada de Cavalaria Motorizada.
    Em 2002, os EUA liberaram documentos relacionados com o processo eleitoral uruguaio. Neles constata que os norte-americanos temiam que o Uruguai seguisse o exemplo do Chile de Allende. Confirmam, também, a sintonia entre Argentina e Brasil (e destes países com os EUA) para desencadear ações que impedissem a vitória da Frente Ampla. Nesse sentido, a troca de informação era intensa. Por exemplo, em 27 de agosto de 1971, desde Buenos Aires, a Embaixada dos EUA informava ao Departamento de Estado que militares argentinos, temendo o resultado eleitoral uruguaio e preocupados com a ineficiência do governo Pacheco Areco no combate à subversão, vinham fornecendo assistência na luta anti-subversiva, inclusive enviando especialistas em interrogatório após a prisão do líder tupamaro Raul Sendic.

     A Embaixada dos EUA em Buenos Aires informava que a Argentina, por razões de política interna, não se envolveria em uma intervenção direta, mas que apoiaria um golpe de Estado de Pacheco Areco caso a Frente Ampla vencesse as eleições. Tais documentos confirmaram, ainda, a colaboração das ditaduras vizinhas com o governo Pacheco Areco, inclusive fornecendo armamentos e explosivos à extrema-direita uruguaia. Finalmente, o general Seregni lembra que os EUA interferiram persistentemente nas questões internas uruguaias. A estrutura encoberta de grupos paramilitares e esquadrões da morte que funcionava no Ministério do Interior fora criada por eles e intermediada pelo Brasil.

    Os EUA conheciam o plano e o encorajaram. O monitoramento testemunhado por Grael e a documentação desclassificada daquele país são bastante eloqüentes a esse respeito. O único receio da superpotência residia na possibilidade de divergências entre Brasil e Argentina sobre como resolver o impasse, daí o apelo insistente para evitar ações unilaterais que pudessem destruir e desestabilizar o equilíbrio existente na região. Isto permite supor, considerando as boas relações entre os governos Nixon e Médici, que a ocupação do Uruguai, se tivesse ocorrido, teria sido transitória e fortaleceria os aliados locais confiáveis (possivelmente o próprio Pacheco Areco), aos quais devolveria o governo embora, supõe-se, mantendo grande capacidade de influência interna.

     

    Enrique Serra Padrós é Professor do Departamento de História da UFRGS e utor de A ditadura brasileira de Segurança Nacional e a Operação 30 horas: intervencionismo ou neocisplatinização do Uruguai? In: Ciências & Letras, Porto Alegre, n. 37, p. 227-249, jan./jun. 2005.

     

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