A intolerância foi incorporada pela população?

Marco Antônio Nunes da Silva

  • Inácio de Souza Brandão acusou Cristóvão Ribeiro de Lira de “algumas heresias”. Lira respondeu dizendo que “todos os hereges se salvavam, que ninguém se perdia porque Cristo Senhor Nosso morrera por todos os homens”. O argumento de Lira assegurava a possibilidade de se encontrar salvação na lei de Moisés ou na de Maomé. Inácio, além de vigário da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, também era o comissário do Santo Ofício na Bahia, no fim do século XVII.

    A ideia de “universalismo religioso” contida nas palavras desse homem era defendida tanto por cristãos-novos como por cristãos-velhos. No caso de Lira, não há qualquer indício de que ele tivesse nas veias “sangue infecto”, o que poderia indicar sua condição de cristão-velho. É natural que pessoas como ele forjassem sua concepção de mundo baseando-se em experiências pessoais. Grande parte do que diziam continha mensagens de esperança ao alcance de muitos outros, o que de fato era motivo de preocupação para a Inquisição.

    A noção de intolerância está quase sempre associada à ideia de infalibilidade, eficácia e invencibilidade, características que, para muitos, marcaram a ação inquisitorial. A análise aprofundada dos documentos revela que a Inquisição não primou pela eficiência, muito menos conseguiu silenciar as pessoas, pois o registro de críticas é farto. A mordaça não foi tão bem apertada. É possível ouvir as vozes que gritam nos documentos.

    O segredo exigido dos presos é ponto fundamental nesta discussão. Os réus deviam “ter segredo em tudo o que se passou no decurso de suas causas” e eram terminantemente proibidos “de levar para o exterior recados de outros presos”. No entanto, bilhetes eram trocados com a ajuda dos guardas, o que prova a falta de controle dessa máquina perseguidora.

    A Inquisição foi, sim, intolerante, mas não de forma generalizada. E os documentos provam que a sociedade impôs limites ao Santo Ofício.

     

     

    Marco Antônio Nunes da Silvaé professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autor da tese “OBrasilholandêsnoscadernosdoPromotor:InquisiçãodeLisboa, séculoXVII” (USP, 2003).

     

     

    Saiba Mais - Bibliografia

     

    MEA, Elvira Cunha de Azevedo. A Inquisição de Coimbra no século XVI. A instituição, os homens e a sociedade. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1997.

    PEREIRA, Ana Margarida Santos. A Inquisição no Brasil. Aspectos da sua actuação nas capitanias do Sul, de meados do séc. XVI ao início do séc. XVIII. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2006.

    SARAIVA, António José. Inquisição e cristãos-novos. 6ª ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1994.

    SCHWARTZ, Stuart B. Cada um na sua lei: tolerância religiosa e salvação no mundo atlântico ibérico. São Paulo: Companhia das Letras; Bauru: Edusc, 2009.

     

     

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