Ameaça negra

Escravos fugidos assombravam a Colônia e inspiraram lendas que a História não confirma

João José Reis

  • A formação de grupos de escravos fugitivos se deu em toda parte do Novo Mundo onde houve escravidão. No Brasil, estes grupos foram chamados de quilombos ou mocambos. Alguns conseguiram reunir centenas de pessoas. O grande quilombo dos Palmares, na verdade uma federação de vários agrupamentos, tinha uma população de alguns milhares de almas, embora provavelmente não os quinze, vinte e até trinta mil habitantes que alguns contemporâneos disseram ter.

    Depois de Palmares os escravos não conseguiram reproduzir no Brasil qualquer coisa próxima. Os senhores e governantes coloniais cuidariam para que o estrago não se repetisse. Foi criado o posto de capitão-do-mato (também conhecido como capitão-de-entrada-e-assalto e outros termos), instituição disseminada por toda colônia como milícia especializada na caça de escravos fugidos e na destruição de quilombos.

    Assombrada com as dimensões de Palmares, a metrópole lusitana procurou combater os quilombos no nascedouro. No século XVIII quilombo já era definido como ajuntamento de cinco ou mais negros fugidos arranchados em local despovoado. Essa definição, concebida para melhor controlar as fugas, terminou por agigantar o fenômeno aos olhos de seus contemporâneos e de historiadores posteriormente. Contados a partir de cinco pessoas, o número de quilombos foi inflacionado nos documentos oficiais. Mas se, em geral, não figuravam como ameaça efetiva à escravidão, eles passariam a representar uma ameaça simbólica importante. Os quilombolas povoaram pesadelos de senhores e funcionários coloniais, além de conseguir fustigar com insistência desconcertante o regime escravista.

    Para senhores e governo, o problema maior estava em que na sua maioria os quilombos não existiam isolados, perdidos no alto das serras, distantes da sociedade escravista. Embora em lugares protegidos, os quilombolas amiúde viviam próximos a engenhos, fazendas, lavras, vilas e cidades. Mantinham redes de apoio e de interesses que envolviam escravos, negros livres e mesmo brancos, de quem recebiam informações sobre movimentos de tropas e outros assuntos estratégicos. Com essa gente eles trabalhavam, se acoitavam, negociavam alimentos, armas, munições e outros produtos; com escravos e libertos podiam manter laços afetivos, de parentesco, de amizade.

    É claro que houve muitos casos de quilombos isolados, às vezes encontrados por expedições que até desconheciam sua existência. Mas as evidências para o próprio Palmares, e mais ainda para os quilombos que o sucederam Brasil afora, apontam para uma relação muito mais intensa entre quilombolas e outros grupos sociais. Quilombos como os que cercavam Vila Rica (atual Ouro Preto) no século XVIII, ou o do Catucá, que se desenvolveu nos arredores de Recife e Olinda entre 1817 e 1840, aqueles instalados em redor de Salvador e de São Paulo nas primeiras décadas do século XIX, o quilombo do Piolho nas vizinhanças de Cuiabá, na década de 1860, os fluminenses da bacia do  Iguaçu e da periferia da Corte, assim como os da periferia de Porto Alegre, ao longo do século XIX, todos mantinham redes de  comércio, relações de trabalho, de amizades, parentesco, envolvendo escravos, negros livres e libertos, comerciantes mestiços e brancos. A essa complexa trama de relações Flavio Gomes chamou de “campo negro”, um espaço social, econômico e geográfico através do qual circulavam os quilombolas, que incluía senzalas, tavernas, roças, plantações, caminhos fluviais e pântanos, alcançando vilas de pequeno porte e cidades do porte do Rio de Janeiro, quando já era a mais populosa do Brasil em meados do século XIX.

    Essas relações de alto risco atormentavam senhores e governantes coloniais e imperiais. Os amocambados também assaltavam viajantes nas estradas, às vezes tornando-as intransitáveis, e atacavam povoados e fazendas, onde roubavam dinheiro e outros bens, recrutavam ou seqüestravam escravos. Mas além de assaltar, roubar e seqüestrar, eles também plantavam, colhiam, caçavam, constituíam família.

    São numerosos os relatos que dão conta da destruição de roças de milho, frutas, algodão, cana e outros produtos cultivados pelos quilombolas. Cultivavam, sobretudo, a mandioca, com que faziam farinha eles próprios. Quando atacados, as roças eram arrasadas para “não tornarem a servir de Criminozo azilo”, como escreveu o capitão-mor que destruiu os quilombos do Orobó e Andaraí na Bahia, em 1796.

    Nas áreas de mineração os fugitivos se dedicavam à prospecção de pedras e metais preciosos, que trocavam clandestinamente com taverneiros por produtos necessários à sua sobrevivência, além de armas e munição. Em alguns casos conseguiam o suficiente para comprar a alforria, passando de negros fugidos a negros libertos.

    Segundo a historiadora norte-americana Mary Karasch, os quilombolas de Goiás descobriram numerosas lavras auríferas, que eram posteriormente apropriadas pelos caçadores de escravos. A caça ao quilombola e a procura do ouro caminhavam juntas nas expedições feitas ao interior. A entrada realizada em 1769, a partir de Minas Gerais, pelo mestre-de-campo Inácio Correia Pamplona, foi saudada por um sertanejo versejador, que entre loas ao comandante arrematava:

    Tudo feito nesta maneira
    pólvora, chumbo e patrona,
    espingardas à bandoleira,
    entrando duas bandeiras
    Procurando Negros e ouro,
    Deus nos depare um tesouro
    para garrochiar neste touro.

    O historiador e etnólogo Edison Carneiro, a propósito, escreveu que “o quilombo [...] serviu ao desbravamento das florestas além da zona de penetração dos brancos e à descoberta de novas fontes de riquezas”.

    No Rio de Janeiro oitocentista, os quilombolas de Iguaçu mantinham intenso comércio de madeiras com a Corte e também se empregavam nas fazendas de proprietários que sabiam estar contratando negros fugidos. No Maranhão, em 1867, um juiz de direito denunciava “A ambição desregrada de certos indivíduos, ambição que os leva a seduzir escravos para fugir, tendo em vista tirar vantagens com as colheitas destes, que as vendem por módicos preços”. Esta era, aliás, uma prática comum. Os donos de escravos frequentemente publicavam anúncios em jornais ameaçando de processo e exigindo indenização dos coiteiros. No sul da Bahia, na vila de Barra do Rio de Contas (atual Itacaré), em 1806, dezenas de escravos se aquilombaram numa comunidade de lavradores que os empregavam no cultivo da mandioca. Quando este quilombo, chamado Oitizeiro, foi disperso, descobriu-se que os próprios escravos dos lavradores eram prósperos produtores de mandioca e ativos coiteiros de calhambolas.

  • Isolados ou integrados, dados à predação ou à produção, o objetivo da maioria dos quilombolas não era demolir a escravidão, mas sobreviver em suas fronteiras, e se possível viver bem. A maioria dos quilombos abolicionistas existiu nos últimos anos da escravidão. São exemplos destes os quilombo do Jabaquara e do Pai Felipe, nas cercanias de Santos, reunindo, o primeiro particularmente, milhares de fugitivos das plantações de café nas vésperas da abolição. Abolicionistas e outros homens livres estiveram envolvidos na mobilização e organização desses quilombos, o que confirma uma história de aliança entre quilombolas e outros grupos que vinha de longe.

    Não procede, exceto talvez em poucos casos, a idéia de que os quilombolas fugiam para recriar a África no interior do Brasil, com o projeto de construir uma sociedade alternativa à escravocrata. Claro que os quilombos formados por africanos natos aproveitaram tradições e instituições originárias da África. Mas este não era um movimento privativo dos quilombos. Apesar da vigilância senhorial, o mesmo acontecia nas senzalas. Contudo, tanto nestas como nos quilombos, por pouco que se conheça realmente da dinâmica interna de ambos, predominaram a reinvenção, a mistura de valores e instituições várias, a escolha de uns e o descarte de outros recursos culturais trazidos por diferentes grupos étnicos africanos ou aqui encontrados entre os brancos e índios. Mesmo entre os palmarinos parece ter sido assim. Sobre a religião deles, Johan Nieuhoff, que visitou o Brasil na década de 1640, escreveu: ”Eles retêm algo do culto religioso dos portugueses, mas têm seus peculiares sacerdotes e juízes”. Mais de dois séculos depois, em 1877, no quilombo do Limoeiro, Maranhão, foram encontradas pela expedição repressora, segundo seu comandante, “duas casas de santos; sendo uma com imagens de Santos, e outra onde encontramos figuras extravagantes de madeira, cabaças com ervas podres e uma porção de pedras de que em tempos remotos os indígenas se serviam como machados, as quais a maior parte dos mocambeiros venera como a invocação de Santa Bárbara”.

    Essa disponibilidade para mesclar culturas era um imperativo de sobrevivência, exercício de sabedoria. Refletia a habilidade dos quilombolas em compor alianças sociais. Estas, inevitavelmente, se traduziam em transformações e interpenetrações culturais. É óbvio que escravos e quilombolas foram forçados a mudar coisas que não mudariam se não estivessem submetidos à pressão escravocrata e colonial. Mas foi deles a direção de muitas dessas mudanças.

    Da perspectiva da classe senhorial, os quilombolas constituíam um péssimo exemplo para os escravos. Daí o cuidado com que foram reprimidos. Em Minas Gerais, durante a primeira metade do século XVIII, autoridades locais e os próprios governadores, atormentados com a proliferação dos mocambos, conceberam punições bárbaras, como cortar uma das pernas ou o tendão de Aquiles dos quilombolas. Coube à metrópole controlar a sanha dos mineiros, recomendando a barbaridade menor de imprimir com ferro em brasa a letra “F” sobre a espádua e o corte de uma orelha no caso de reincidência. A lei também previa o corte de um braço do quilombola que cometesse “delito capital” e a pena de morte se reincidisse. Na Bahia, cinco quilombolas que atuavam perto da capital foram capturados, julgados sumariamente, enforcados e esquartejados, no início do século XVIII.

    Mas nada detinha a fuga e a formação de quilombos. Ambos faziam parte inevitável de relações sociais fundadas na força. Por isso os capitães-do-mato não bastaram para dar conta dos quilombos e periodicamente expedições especiais foram organizadas para assaltá-los, agrupando milícias locais (ordenanças), aventureiros e índios. Estes últimos se encontravam dos dois lados do conflito. Como os quilombolas, eles eram caçados no interior da Colônia. Os paulistas que venceram Palmares, antes fizeram guerra a populações indígenas no Ceará e Rio Grande do Norte. Em 1723, o Conselho Ultramarino mandou que se organizasse uma expedição ao sul da Bahia para extinguir índios hostis e destruir um mocambo com cerca de quatrocentos habitantes. Como nesta correspondência dos conselheiros do rei, os verbos extinguir e destruir foram os mais usados para se referir a índios e negros rebeldes.

    Mas os índios também se destacaram, em todo o Brasil e em várias épocas, como tropa anti-quilombo. Centenas, talvez milhares, foram usados no assalto final a Palmares, em 1694. Na Bahia colonial índios atuaram nesse ofício sistematicamente, sendo responsáveis, por exemplo, pela destruição do Buraco do Tatu, mocambo próximo a Itapoã, em 1763, e do Oitizeiro, no sul da Bahia, em 1806. Neste último caso, a tropa repressora de cinqüenta soldados era formada exclusivamente por índios cariris.

    A pressão militar era constante. Daí terem sido poucos os quilombos que sobreviveram por longo tempo. Na sua maioria eram móveis.  Além de formados, em parte, por escravos que circulavam por eles periodicamente, sem fixarem residência, os assaltos resultavam em mortes, prisões, tortura e na dispersão dos que conseguiam, uma vez mais, escapar. Sobretudo os quilombos suburbanos eram obrigatoriamente móveis, já que a proximidade de cidades e vilas facilitava a repressão.

    Também se temia que o quilombo de hoje se transformasse na revolta de amanhã. Nas Minas Gerais pós-Palmares essa possibilidade constou na agenda de vários governadores. Beirou a histeria por ocasião de uma suposta conspiração escrava, em 1756, que seria liderada por líderes quilombolas. A integração entre quilombos e levantes escravos se efetivou em várias ocasiões durante o ciclo de rebeldia escrava na Bahia da primeira metade do século XIX. Na revolta de fevereiro de 1814, quilombolas se uniram a escravos pescadores empregados nas armações pesqueiras vizinhas a Itapoã. A mais famosa das revoltas baianas iniciada por um quilombo ocorreu em 1826, de novo nas imediações da capital. O plano previa a concentração de escravos fugidos no quilombo do Urubu, de onde desceriam para ocupar a capital. O plano foi abortado por capitães-do-mato e tropas regulares. No ano seguinte, em São Mateus, na província do Espírito Santo, quilombolas ameaçaram levantar escravos das fazendas para invadir a vila, mas, como na Bahia, as autoridades se anteciparam e sufocaram o movimento no nascedouro.

     Acontecia também o inverso: revoltas que se transformavam em quilombos. Palmares teve início numa revolta de escravos de engenho. No final do século XVIII, em Ilhéus, escravos se levantaram no engenho Santana e se aquilombaram nas suas matas. Mais tarde apresentaram ao senhor um documento, a que chamaram ‘Tratado de Paz”, estabelecendo as condições sob as quais retornariam ao trabalho.

    Esses episódios sugerem que senhores e autoridades estavam certos quando imaginavam que uma grande rebelião escrava pudesse ter início num quilombo. Paradoxalmente, alguns historiadores com razão sugerem que a existência de quilombos pode ter funcionado como uma válvula de escape para tensões escravistas que, de outra forma, explodiriam nas senzalas. Pode-se ver a questão sob um outro ângulo, porém. Talvez o temor de que seus escravos fugissem para os quilombos fizesse com que muitos senhores os tratassem melhor. Neste sentido, além de refúgio de escravizados, os quilombos tiveram um papel importante na melhoria de vida daqueles que permaneceram nas senzalas.

    João José Reis é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia e autor de Rebelião escrava no Brasil (Companhia das Letras, 2003).

    Saiba mais - Livros:

    GOMES, Flavio. A hidra e os pântanos. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
    GOMES, Flavio. História de quilombolas. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
    GUIMARÃES, Carlos Magno. A negação da ordem escravista. São Paulo: Ícone, 1988.
    REIS, João e GOMES, Flávio (orgs.). Liberdade por um fio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

    Saiba mais - Links:

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