Angola é aqui

No vocabulário, na cultura e nos costumes, a identidade brasileira tem origem no outro lado do Atlântico

Mônica Lima

  • Dengo, farofa, moleque, neném, quitanda, samba... Quer palavras mais brasileiras do que estas?

    De fato, são brasileiras – mas nasceram na África. Foram trazidas da vasta região costeira central do continente, onde hoje se encontram Angola e Congo. Com origem no tronco lingüístico banto, que engloba línguas como o quimbundo, o umbundo e o quicongo, essas palavras substituíram vocábulos portugueses que eram utilizados para os mesmos fins. Ou seja, em alguns casos, os falares africanos conseguiram sobrepor-se aos outros. Como a língua é algo vivo, algumas palavras mudaram um pouco, outras adquiriram significados diferentes, mas não muito distantes do original.

    A linguagem é um dos aspectos mais evidentes da contribuição cultural dos africanos trazidos para o Novo Mundo. Mas nem de longe é o único. Houve diversos aportes civilizatórios da África para o Brasil, e algumas regiões foram especialmente relevantes nesse processo, como é o caso de Angola. Práticas religiosas, conhecimentos técnicos agrícolas e de mineração, valores sociais, costumes na vida cotidiana e hábitos de alimentação, entre outros elementos, fizeram parte da bagagem cultural que os escravizados trouxeram para a formação de nosso país.

    Manifestações religiosas como os calundus, de forte presença entre os escravos trazidos da região Congo-Angola, estão na origem de religiões afro-brasileiras, como o candomblé na Bahia. Há indícios de que a arte da capoeira tem origem na “dança da zebra”, o n’golo do sul de Angola. O jongo, tão presente em comunidades negras do Sudeste brasileiro, e a congada assinalam sua herança centro-africana em versos, personagens, palavras. Os movimentos de corpo característicos de algumas danças brasileiras – sobretudo o rebolado – também têm sua origem em Angola. De lá, portanto, viria boa parte da nossa ginga. Aliás, esta é uma palavra derivada da língua quimbundo, e nomeava uma rainha africana. De nome de rainha a elemento da congada, a ginga adquiriu muitos outros significados, hoje atribuídos principalmente aos brasileiros.

    Os laços que ligam o Brasil a Angola existem há muito tempo. Remontam à formação do Império português, do qual fizeram parte, e se estendem por séculos, chegando aos nossos dias.

    O Brasil é o país que por mais tempo e em maior quantidade recebeu pessoas escravizadas vindas da África. Aproximadamente 40% de todos os escravos africanos que deram entrada em portos do Novo Mundo foram trazidos para o nosso país. Desse total, uma ampla maioria embarcou em cidades do litoral da atual Angola. Segundo o historiador Philip Curtin, o Brasil recebeu 1.685.200 escravos no século XVIII, dos quais 550.600 vindos da Costa da Mina e 1.134.600 de Angola. O tráfico angolano abastecia principalmente o porto do Rio de Janeiro, e em segunda escala, Bahia e Pernambuco. As capitanias de Pernambuco, Maranhão e Pará detinham 20% do tráfico de escravos de Angola no fim do século XVIII e começo do XIX.

    Nas palavras do padre Antônio Vieira em 1648, “sem negros não há Pernambuco, e sem Angola não há negros”. No século XVII, quando Luanda foi invadida e ocupada pelos holandeses, uma expedição partiu do Rio de Janeiro a fim de retomar Angola para o Império português. A missão foi financiada principalmente com capital dos comerciantes do Rio, e as tropas eram formadas por indígenas, africanos e seus descendentes. O sucesso da expedição comandada por Salvador de Sá, governador do Rio de Janeiro, em 1648, reforçou a determinação de libertar Pernambuco do domínio holandês, o que aconteceu anos depois, em 1654.

    A retomada de Angola também fez crescer a presença dos brasileiros por lá. Durante um século, entre 1648 e o fim dos anos 1740, gente do Brasil – por nascimento ou por vínculo de residência – praticamente dominou Angola, ocupando as funções que seriam de Portugal no controle da colônia e no tráfico de escravos. Portugal teve que fazer esforços para retomar as rédeas do controle político da área, o que conseguiu apenas em parte. Economicamente, e muitas vezes administrativamente, a relação foi se tornando tão estreita que qualificava as cidades-porto do litoral angolano, como Luanda e Benguela, como extensões do Brasil colonial no início do século XIX.

    No processo de independência do Brasil, líderes políticos tinham interesse em anexar a colônia africana ao novo país. Não sem razão, no tratado que D.Pedro I teve que assinar para ter sua emancipação reconhecida pelo governo português, constava como exigência que o Brasil reconhecesse a soberania portuguesa sobre Angola. E à Inglaterra, mediadora do tratado, também interessava que o Brasil se distanciasse das rotas do tráfico escravista no litoral africano.

    Frustraram-se, portanto, as esperanças de um só reino, ou de dois reinos unidos, conjugando as duas margens do oceano, a brasileira e a angolana.

    A união entre Brasil e Angola não aconteceu, mas é claro que onde há fortes relações econômicas e políticas constroem-se intercâmbios pessoais, familiares e de parceria em diferentes atividades. Era comum que grandes comerciantes abrissem representações de suas casas de negócio em Angola, muitas vezes gerenciadas por parentes, ou mesmo por seus cativos. Famílias de negociantes se dividiam entre um lado e o outro do Atlântico, mantinham um ir-e-vir constante, não só de pessoas, mas de notícias, produtos, correspondências. Comerciantes escravistas na África mandavam seus filhos estudar no Brasil, para que aprendessem o português, conhecessem a dinâmica do comércio e da sociedade brasileira e pudessem tornar-se intermediários qualificados nesses negócios.

    A estreita convivência não terminou com o fim do tráfico atlântico. Aparentemente reduzida na primeira metade do século XX, depois encontrou outros caminhos. As lutas pela libertação de Angola do domínio colonial português foram acompanhadas com vivo interesse por brasileiros, ainda que naquela época amordaçados pela ditadura. Houve gente que participou ativamente dos movimentos de libertação. Nosso movimento negro festejou a independência de Angola, e o rápido reconhecimento das novas nações africanas pelo governo brasileiro criou uma abertura diplomática importante em direção à terra de nossos ancestrais.

    Na esteira dos novos interesses após a independência (1975), a influência de meios de comunicação brasileiros e de seus produtos passou a ser intensa no cotidiano dos angolanos. Telenovelas eram referência de entretenimento, para o comportamento dos jovens e a estética do vestuário. Nos canais de televisão locais são exibidos programas feitos no nosso país. Mercadorias brasileiras, legalmente importadas ou na candonga (contrabando), viraram produtos de consumo importantes, sobretudo roupas e calçados.

    A literatura e a música, fortemente impregnadas de memórias, ritmos, instrumentos e vozes de herança africana, também cruzaram o oceano e desembarcaram com grande sucesso no país independente, como Jubiabá, de Jorge Amado, e Tenda dos Milagres, de Guimarães Rosa.

    Encontros que abriram para os artistas brasileiros novas perspectivas de explorar nossa identidade cultural. Gilberto Gil compôs e cantou com grande propriedade: “Trago a minha banda/ Só quem sabe onde é Luanda/ Saberá lhe dar valor”. 

    Após a década de 1980, surgiram novas rotas de migração. Inicialmente provenientes de Angola, e acrescidas de recentes levas vindas do Congo, essas populações de refugiados são formadas principalmente por jovens do sexo masculino. A nova diáspora centro-africana para o Brasil é fruto das guerras e das impossibilidades geradas por séculos de espoliação.

    O que não se pode nem se deve deixar de lembrar são nossos fortes vínculos com esses povos e essa terra. As heranças congo-angolanas, que em grande parte nos tornaram o que somos, nos lembram o quanto é importante perceber, reconhecer e se orgulhar do nosso pertencimento à África.

    As rápidas transformações geopolíticas em todo o planeta trazem novos desafios para o Brasil. Para saber qual o seu papel nesse jogo, o país precisa primeiro conhecer sua verdadeira identidade. E isso inclui recordar os compromissos que tem com a própria História.

    Mônica Lima e Souza é professora do Colégio de Aplicação da UFRJ e autora da Tese "Entre Margens: O Retorno à África de libertos no Brasil, 1830-1870" (UFF, 2008).

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