Cidade de Deus e condomínio do diabo

Criado para abrigar ex-favelados, conjunto habitacional reproduz, no plano horizontal, a violência do tráfico e todas as mazelas sociais dos morros cariocas

Alba Zaluar

  • Quando cheguei na Cidade de Deus em 1980, os habitantes do local já viviam sob a tensão dos conflitos armados entre traficantes de drogas ilegais. Primeira guerra de quadrilhas na cidade do Rio de Janeiro e amplamente noticiada pela imprensa, a luta entre grupos rivais acontecia cerca de dez anos depois da transferência para lá de moradores de 63 diferentes favelas da cidade.

    Em discussão já nas décadas anteriores, a política de remoção de favelas tomou corpo no começo dos anos 1960, durante o governo de Carlos Lacerda (1960-1965). No projeto original, a transferência seria acompanhada de medidas de cunho social e a  construção das casas populares para os favelados não visaria o lucro. Mas quando a política foi implantada com força, durante o regime militar, houve mudança compulsória dos moradores das favelas e destruição imediata dos barracos vazios. Paralelamente, foi montada uma política habitacional para contornar a insatisfação presente na sociedade e a oposição ao governo. O sonho da casa própria, junto com os empregos gerados pela construção das habitações populares, seria o “bálsamo” para as “feridas cívicas” e o descontentamento de muitos, nas palavras da secretária de Serviços Sociais do estado da Guanabara, Sandra Cavalcanti, quando propôs a fundação do Banco Nacional de Habitação. Criado em outubro de 1964, o BNH tinha a finalidade de vender a prazo habitações construídas para todas as classes sociais. No final da década de 1960, mudanças políticas no governo federal transformaram a construção das casas populares em finalidade lucrativa, sem os fins sociais originais: os custos da edificação seriam integralmente pagos pelos beneficiados, com lucros para o sistema.

    Construído inicialmente com o dinheiro da Aliança para o Progresso (organização de ajuda econômica e social para a América Latina  criada pelos Estados Unidos em 1961), o conjunto habitacional de Cidade de Deus foi idealizado para abrigar os favelados removidos da Zona Sul da cidade. Outros conjuntos, como a Vila Aliança ou a Vila Kennedy, ficavam nos subúrbios distantes e receberiam moradores de outras zonas do Rio de Janeiro. Único localizado perto da orla marítima, e, portanto, da área urbana mais rica, Cidade de Deus era o conjunto maior, tendo inicialmente 6.658 unidades habitacionais, ao passo que a Vila Kennedy reunia 5.509 unidades e a Vila Esperança, apenas 464. Além de favelados removidos, ele receberia boa parte dos flagelados da enchente de 1966, apressadamente colocados nas casas de triagem, concebidas como provisórias, mas que estão lá até hoje.


    Dois momentos foram especialmente dramáticos para os removidos. Primeiro, a própria remoção, que os obrigou a deixar para trás empregos, vizinhos, amigos, associações vicinais e seus precários barracos de então. A Cidade de Deus não tinha iluminação pública nem rede de transporte eficiente. Os trabalhadores saíam na companhia dos filhos às 4 horas da manhã, andando no escuro durante uma hora, pelo mato, até chegarem ao ponto de ônibus mais próximo.


    Segundo momento, o despejo dos que deixaram as prestações atrasadas durante meses. Os que não conseguiram chegar a um acordo com a Companhia de Habitação Popular (Cohab), construtora dos conjuntos habitacionais, tiveram que enfrentar uma segunda expulsão. Mas os moradores se vingaram dos defensores da remoção e reproduziram no plano horizontal, cheio de ruas e praças, todas as formas de associação e todos os problemas que existiam nas 63 favelas de onde vieram. Acrescidos de mais um: a guerra de quadrilhas.


    Em 1980, os jovens da Cidade de Deus já falavam em fuzis e “três-oitões” com orgulho inconseqüente. Quanto mais mortífera e cara a arma, mais admiração passava a despertar nos colegas e vizinhos por causa do poder que se associava a ela. Mais do que consideração ou reconhecimento, era e é uma questão de poder: e para garanti-lo, era e é preciso usar a arma. Eliminar membros de quadrilhas ou comandos inimigos com esses instrumentos da morte aumenta esse poder, que se baseia no medo e no respeito pelo matador. Estava criado um estilo de masculinidade violento e cruel, que matará milhares de jovens nas décadas seguintes.

    Alba Zaluar é professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e  autora de Condomínio do Diabo, Rio de Janeiro: Editora da UFRJ e Revan, 1994.

     

     

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