“Eu espero que tu me trates como devo ser tratado… Eu sou imperador, mas não me ensoberbeço com isso, pois sei que sou um homem como os mais, sujeito a vícios e a virtudes como todos o são”.Na carta que enviou a Domitila de Castro (1797-1867), futura marquesa de Santos, em 4 de maio de 1824, D. Pedro reconhece com humildade as enormes lacunas de sua formação e educação, e promete padrões mais elevados nas gerações futuras dos Bragança.
Com desgosto, também percebeu, muito cedo, que pouco aproveitara a biblioteca do pai, D. João, não por se julgar incapaz, mas por ser pouco instruído. Admirador da cultura estruturada e das boas maneiras, recomendaria ao filho, futuro D. Pedro II, já após a abdicação e numa perspectiva pedagógica: “O tempo em que se respeitavam os Príncipes por serem Príncipes unicamente acabou-se; no século em que estamos, …é mister que os Príncipes igualmente sejam e conheçam que são homens e não divindades e que lhes é indispensável terem muitos conhecimentos e boa opinião”.
Frequentemente, autores se referem a D. Pedro como um governante autoritário e violento e um indivíduo inculto, insensível e autocrático. Nada mais injusto e precipitado. A rapidez fulgurante com que agia, quer em assuntos privados, quer em questões de Estado, conduziram-no a atitudes e comportamentos reprováveis e inadequados. Alguns roçaram mesmo a violência gratuita e imperdoável, como o momento em que agrediu fisicamente a imperatriz, que estava grávida, humilhada publicamente e, mesmo assim, paciente e resignada. Contudo, não era esse o traço fundamental da sua personalidade. Quando, aos 25 anos, ardendo no fogo de uma paixão erótica avassaladora por Domitila, roído de ciúmes e ferido no âmago do seu amor próprio, lembra que é imperador, ele apela, em última instância, também para suas fragilidades de homem, reconhecendo seus erros [Ver RHBN nº 64].
"Alguns comportamentos roçaram mesmo a violência gratuita e imperdoável, como o momento em que agrediu fisicamente a imperatriz, que estava grávida"
Anos mais tarde, às vésperas de iniciar uma guerra cruenta contra o irmão, D. Miguel, recomenda ao filho e herdeiro que nunca esqueça sua condição de homem e se prepare para governar por meio de uma educação esmerada, para assim alcançar bom nome. Era possível esperar de um homem e, mais ainda, de um monarca, maior prova de humanismo? Sobre si mesmo, escreveu em carta de 13 de dezembro de 1827 à marquesa de Santos: “Às vezes tenho-me portado com alguma grosseria. Contudo, a fruta é fina, posto que a casca seja grossa”.
Dele ficaram escritos vários retratos, porventura contraditórios, oriundos do círculo que o rodeou e o conheceu de perto. A escritora inglesa Maria Graham (1785-1942), amiga e confidente de D. Leopoldina (1797-1826), com a qual ele não se mostrou cortês nem magnânimo, deixou este testamento sereno: “A natureza dotou Dom Pedro de fortes paixões e de grandes qualidades”. O almirante britânico Charles Napier (1786-1860) confessou: “Para fazer o resumo do seu carácter, as suas boas qualidades eram propriamente suas; as más, devidas à falta de educação; e homem nenhum conhecia mais esse defeito do que ele próprio”.
Na primeira carta que D. Leopoldina dirigiu ao pai, logo após a sua chegada ao Rio de Janeiro, em 8 de novembro de 1817, ela confessa que “meu mui amado esposo não me deixava dormir, até que lhe disse sinceramente que estava exausta”. Para ele, viver era sinônimo de agir, mesmo no plano sexual, onde revelou, pelo menos até a consumação do segundo casamento, um apetite insaciável. Ele foi escrevinhador compulsivo. Bastará lembrar que compôs mais de 200 cartas de amor para duas das suas amadas: Domitila de Castro e Clémence Saisset. A outros amores ocasionais, e foram muitos, também escreveu copiosamente, como era seu hábito, bem como aos filhos e amigos.
Não bastasse, por meio de pseudônimos redigiu para jornais sobre política, costumes e escravismo, usando linguagem violenta e ironia demolidora. É certo que muito do que escreveu se perdeu. Mesmo assim, resta o suficiente para se aquilatar sua sensibilidade e sua personalidade.
O encontro com Domitila de Castro, também ela carente e experiente, transtornou o imperador. Sentiu-se nos braços dela como a criança que nunca fora. E ofereceu-lhe tudo o que podia: sexo arrebatado, paixão, amor, ciúme, além de joias, honras, riqueza, títulos, influência e poder. As cartas que lhe enviou – mais de 150 – apontam para um comportamento próprio de um garanhão sôfrego e insaciável. A linguagem é desbragada e inconveniente, como esta, de 1826: “Forte gosto foi o de hontem à noite… ainda me parece que estou na obra. Que prazer! Que consolação, que alegria foi a nossa”. E termina assinando: “Deste seu Amante constante e verdadeiro que se derrete de gosto quando… com Você”. Essas cartas escancaram a sua intimidade, e sua linguagem roça a grosseria, como quando se despede: “Aceite abraços e beijos e fo… deste seu Amante”. As cartas para Domitila tresandam a sexo, a uma sensualidade primária e quase animalesca, não brotando de seres que se entrelaçam, impelidos por alguma espiritualidade que os una e que aponte para a fruição da beleza do parceiro. Neste aspecto, estão certos os que consideram a linguagem indigna do fundador do Império. E o contraste com o nível, a educação e o aprumo da imperatriz não deixa de ser chocante.
"Ele foi escrevinhador compulsivo. Bastará lembrar que compôs mais de 200 cartas de amor para duas das suas amadas"
Já no exílio, na cidade do Porto, sempre preocupado com os filhos, clamava por notícias deles para José Bonifácio: “Eu sou pai desses innocentes príncipes brasileiros, quero saber deles, de sua saúde e de sua educação… e de que hum dia serão dignos da Nação a que pertencem”. Lá recebera uma carta de mau agouro. A princesa Paula, nascida em 1823, estava em risco de morte. Começou a chorá-la desde logo, desesperado e saudoso, e implora ao amigo: se ela morrer, faça duas coisas, “a primeira he ter guardado para mim hum bocado do seu lindo cabello; a segunda he tê-la feito depositar no convento de N.ª S.ª da Ajuda e no mesmo lugar em que se acha depositada sua boa mai a minha Leopoldina pela qual ainda hoje derramo lágrimas de saudade… eu lhe peço como pai e como pai desolado de pena que me faça o favor de hir em pessoa depozitar aos pez do corpo de sua mai este fructo do seu ventre e de nessa ocazião rezar por uma e por outra”.
Diante deste pedido, será possível ainda considerá-lo egoísta, insensível, leviano? Que mais puros e nobres sentimentos se poderiam dele esperar? Agora chorava Leopoldina, que não compreendeu em vida. Se no amor carnal o sexo lhe derretia o entendimento e o privava de lucidez e de controle, no plano familiar redimia as suas culpas. Reconsiderou, arrependeu-se e mortificava-se mais tarde. Contudo, voltava a cair. Não será essa a condição de todo homem?
Eugénio dos Santos é professor catedrático jubilado da Universidade do Porto (Portugal) e autor de D. Pedro IV (Temas & Debates, 2008).
Saiba Mais
LEOPOLDINA (D.) Cartas de uma Imperatriz. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.
LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
RANGEL, Alberto, Cartas de Pedro I à Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
SOUSA, Octávio Tarquínio de. A Vida de D. Pedro I. São Paulo, Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.















































































