Quando as epidemias grassaram nas Américas, dizimando numa guerra bacteriológica boa parte das populações indígenas; quando a exploração do trabalho dos nativos pelos colonos levou à escravização indiscriminada; quando a atuação das ordens religiosas reduziu os índios nas missões, ainda assim, não foram esses todos os desafios que os povos indígenas enfrentaram. Outro ainda estava por vir: a atuação do Tribunal do Santo Ofício.
Estudos indicam que 33 índios e mamelucos foram prisioneiros da Inquisição em Lisboa entre os séculos XVI e XVIII. Mas, se levarmos em conta as denúncias, o número de casos é bem maior. Somente no século XVIII, foram registradas 273 denúncias contra índios e descendentes mestiços de diferentes procedências étnicas por diversas razões.
Uma índia de nome Narcisa, por exemplo, foi acusada em Vila de Borba Nova, em1755, de fazer um malefício: uma boneca, com cabelos, ossos de peixes, retalhos de roupas rotas e amarrilhos, tudo cravado com agulhas e alfinetes. Ao desmanchar a boneca, a irmã da enferma, Benta de Souza, teve as mãos feridas em chagas sem que houvesse curativo, a não ser com exorcismos e azeite bento.
Narcisa e mais 157 índios acusados de feitiçaria e práticas mágicas não escaparam dos agentes da Inquisição. Outros foram envolvidos em roubo, venda de hóstias consagradas para a produção de amuletos – as populares bolsas de mandinga – ou cartas de tocar, que são os escritos usados como magia amorosa para seduzir o amado.
Havia ainda índios que, por virtuosismo, descobriam os malefícios com adivinhações, por meio de quibando, uma prática de adivinhação, recorrendo a peneiras e tesouras. Nomeavam seus malfeitores e desenterravam as velhacarias. Um caso célebre é o de outra índia, Sabina, em Belém, que atendia o próprio governador do Grão-Pará, João de Abreu Castelo Branco.
O Tribunal foi mais rigoroso com aqueles que se consagraram em verdadeiros rituais gentílicos, tão mais espantosos aos ouvidos do inquisidor. Vários índios foram acusados de beber jurema e “descer demônios”, enquanto o mestre tocava o maracá entoando a dança embalada pela cantoria indígena. Uma dessas descrições é a de D. Souza e Castro, índio principal dos tabajaras, que foi dar conta pessoalmente à Mesa do Santo Oficio, em Lisboa, em 1720. Contava por meio de seu intérprete, o padre Antônio Leal, que a índia Antônia Guiragasu “invocava os demônios que lhe respondiam várias perguntas do outro mundo”. Para isso, “tomava umas grandes fumaças de tabaco de cachimbo até ficar como fora de si”.
Outra razão de delações foi a bigamia. Das 78 denúncias, 24 foram processados, mas não há sentença final em 17 deles. Outros seis foram tomados como “casos extraordinários de absolvição” pela “ignorância e rusticidade” dos índios. Essa sentença “benevolente” não poupou Custódio da Silva, em 1741. Aos 28 anos, prestou seu depoimento por meio de um intérprete. Foi julgado e qualificado como bígamo. Condenado, abjurou de leve, por ser suspeito de ferir os preceitos da fé católica. Sob o olhar de uma multidão, fez auto da fé na forma costumeira. Foi açoitado pelas ruas de Lisboa até a Igreja de São Domingos, onde, na presença do rei D. João V, do príncipe e dos infantes D. Pedro e D. Antônio, inquisidores, ministros e toda a nobreza, foi sentenciado ao degredo por cinco anos para trabalhar nas galés de Sua Majestade.
Como se vê, essas narrativas extraordinárias mostram o quanto ainda precisamos conhecer sobre a história do nosso Brasil indígena.
Maria Leônia Chaves de Resendeé professora da Universidade Federal de São João del-Rei e autora de “Devassas gentílicas”: inquisição dos índios na Minas Gerais inquisitorial, in: Resende, Maria Leônia Chaves de; Brügger, Sílvia Maria Jardim (orgs.). Caminhos Gerais: estudos históricos sobre Minas. São João del-Rei, Ed. UFSJ, 2005, p. 9-48.
Saiba Mais - Bibliografia
CARVALHO JR.“Índios hereges”, in: Índios cristãos. A conversão dos gentios na Amazônia Portuguesa (1653-1769). Campinas: IFCH/Unicamp, 2005 (Tese de doutoramento).
VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.















































































