Um radical a ferro e fogo

De crítico literário a agitador das massas, Silva Jardim encarnou como ninguém o espírito revolucionário do projeto republicano e terminou seus dias no exílio, engolido por um vulcão

Maria Fernanda Lombardi Fernandes

  • Os republicanos não tinham no horizonte nenhuma revolução, antes, esperariam pela reforma e viveriam em paz com a Monarquia, enquanto esta durasse. Pelo menos era assim que pensava Saldanha Marinho, um dos fundadores do Partido Republicano. Mas havia aqueles mais radicais que, especialmente entre 1888 e 1889 incendiavam audiências com seus discursos contra a Monarquia, nos meetings e na imprensa.

    Um destes radicais foi Antônio da Silva Jardim, nascido em 1860 no interior do Rio de Janeiro, filho de um professor de poucas posses, que se esforçou para enviar o filho para o curso secundário em Niterói. Em 1878, Silva Jardim ingressa na faculdade de Direito de São Paulo e conta ainda com a ajuda do pai para custear os estudos, além de lecionar Português em um colégio privado para complementar sua renda.

    A vocação de polemista de Silva Jardim começou cedo, já no primeiro ano da faculdade. Ainda estudante, escreveu suas primeiras obras: Idéias de Moço (1878); Gente do Mosteiro (1879), obra na qual acusa os colegas de serem autoritários e elitistas; e Crítica de Escada Abaixo (1880), em que busca enveredar pelo caminho da crítica literária, sem muito sucesso.

  • Em 1880 aproxima-se dos Andradas por meio do namoro e casamento com Ana Margarida, filha do conselheiro e chefe do Partido Liberal, Martim Francisco de Andrada, o que lhe rende um emprego em A Tribuna Liberal. Já republicano, alega que sua participação no jornal monarquista não é de viés político, mas de crítica literária, e que, portanto, não seria incompatível com suas convicções.

    A convivência com os Andradas resultou posteriormente em uma indicação para professor do Curso Anexo à Escola Normal, finalmente garantindo sua independência financeira. Em 1885 Silva Jardim mudou-se para Santos, onde chegou a ser proprietário de uma escola secundária. Ainda nessa cidade começou a exercer a advocacia, passando a defender escravos e a participar ativamente da campanha abolicionista e republicana. Em janeiro de 1888 debuta como grande propagandista, num meeting em Santos feito em solidariedade aos vereadores de São Borja (RS), destituídos do cargo após moção crítica às perspectivas do Terceiro Reinado e, desde então sua única atividade torna-se a propaganda republicana.

    Abolicionista convicto, Jardim sofria forte influência do Positivismo, apesar de haver rompido com a ortodoxia. Suas idéias destoavam da linha defendida pelo Partido Republicano, explicitada no Manifesto de 1870: defendia a ditadura republicana, uma presidência forte, e não via com simpatia a defesa extremada da descentralização política − e da federação, portanto. Sustentava ainda que a via parlamentar não poderia ser desprezada na luta pela República, mas acreditava que não seria por esse meio que a vitória se daria. Insistia na realização de conferências, meetings, comícios populares. Via a propaganda como a alma do movimento e a si próprio como um tribuno clamando diretamente às massas, mobilizando o sentimento popular de aversão à Monarquia − um misto de Desmoulins e Danton. Os comícios de Jardim se encerravam, quase sempre, com a Marselhesa, originalmente um canto de guerra revolucionário que se transformara em hino nacional francês.

  • A necessidade de convocar “o povo” aproximava Silva Jardim de idéias democratizantes. Defendia a integração do negro e do branco, que passariam a ser cidadãos iguais num regime republicano; lutava contra o limite censitário nas eleições, afirmando não ser possível basear a cidadania num critério de renda que considerava eleitores apenas 0,8% dos habitantes do país. Por outro lado, via a importância de congregar interesses diferenciados sob o “guarda-chuva republicano”, daí a aliança com setores mais conservadores do movimento, muitos dos quais desiludidos com a Monarquia pós-abolição.

    A agitação popular era importante para preparar o que Jardim chamava de Revolução, entendida não como as “quarteladas” inspiradas em caudilhos sul-americanos ou em guerra civil, mas sim como uma mobilização permanente da população e na sua pressão sobre o Trono. Só assim a República viria O exemplo mais acabado dessa revolução esperada era o movimento que levou à abdicação de D. Pedro I, em 1831.

    Em meados de 1888, Jardim empreende sua primeira excursão de propaganda, percorrendo 27 cidades em menos de um mês, levando a palavra republicana ao norte e oeste de São Paulo e parte do Rio de Janeiro. Na maior parte dos lugares encontra receptividade e percebe que esta aumenta notadamente com o 13 de maio, o que atribui à traição perpetrada pela Monarquia contra os proprietários de escravos. Afirma, porém, que a adesão dos fazendeiros à causa republicana poderia ser justificada pela superioridade da República e pelo bem que traria ao país.

  • Finalmente, decide se mudar para a Corte e participa ativamente da campanha republicana. Sua ação é desqualificada por abolicionistas como Joaquim Nabuco, que acusa os agitadores republicanos de traírem a abolição e fundarem a República na injustiça, porque baseada na defesa da escravidão.

    A crítica era dura a Jardim, que se orgulhava de ter o nome gravado no Quilombo do Jabaquara em São Paulo e de ter atuado como advogado de escravos. Porém, para ele, a República tudo valia, o que justificava a aliança com escravistas desiludidos. Se até maio de 1888 Jardim era aplaudido e mantinha boas relações com o movimento abolicionista, o mesmo não se pode dizer do período posterior. Suas pregações em defesa da República se tornaram alvo preferencial da Guarda Negra – uma milícia formada por libertos logo após a abolição para defender a monarquia; seus meetings tornaram-se ações de risco, com interrupções freqüentes e ocasionando até mortes. Certa feita, Silva Jardim chegou a sacar o revólver em meio ao tumulto. Na Bahia, fugiu para não ser linchado por uma multidão que gritava “mata o Jardim!”, e passou a ser visto com desconfiança por muitos negros.

    Para ele, era um erro contrapor República e Abolição. A questão era de “calendário”: uma vez feita a Abolição, como tentativa de a Monarquia se sustentar e viabilizar o Terceiro Reinado, tratava-se agora de dar o golpe final no regime agonizante, não de prolongar a agonia. A instrumentalização do sentimento de revolta não significaria apoiar medidas escravistas num eventual regime republicano. A obra da Abolição só poderia se completar com a República, que tornaria todos cidadãos. É nesse contexto que se colocam as polêmicas com Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, este último republicano histórico convertido à causa monárquica após o 13 de maio.

  • Também no campo republicano Jardim enfrentava problemas. O movimento e o partido, em especial,  enfrentavam uma divisão há tempos. Questões como federalismo, separatismo, envolvimento militar no processo eram motivos de divergências entre os republicanos. O grupo majoritário do partido, do qual faziam parte Bocaiúva e Saldanha Marinho, bem como Campos Sales e Prudente de Morais, seguia fiel aos princípios do Manifesto de 1870, defendendo o federalismo, a república liberal e a via evolucionária para a tomada do poder. O conflito entre os que defendiam a revolução e os que eram partidários da evolução fortaleceu-se a partir de 1888, com Silva Jardim assumindo a liderança dos chamados revolucionários e com Quintino Bocaiúva representando a linha evolucionária.

    Jardim era importante pela ação individual que produzia nos seus meetings e artigos na imprensa, porém, tornava-se elemento perigoso ao propugnar a revolução e inflamar os ânimos da população. Por isso, precisava de um “enquadramento”, que veio com as ações da cúpula do Partido Republicano. Em outubro de 1888, durante seu Congresso Federal, o partido orientou os propagandistas para que a “pregação” republicana fosse mais cautelosa para não provocar maiores incidentes com os partidários da Monarquia, cujos ânimos andavam muito exaltados. No entanto, Jardim a desconsiderou e intensificou seus ataques ao regime. O clímax chegou em dezembro, em conferências proferidas no Rio, nas quais houve enfrentamento entre os republicanos e a Guarda Negra. A própria organização do meeting já havia sido questionada pela direção do Partido Republicano, que havia se negado a apoiar o encontro. Jardim defendeu-se em carta aberta, colocando-se à proa do movimento e preparando sua candidatura à presidência do Partido.

    Em maio de 1889, ele é derrotado e Quintino Bocaiúva assume a chefia do Partido Republicano, provocando o rompimento de Jardim com a nova direção, o que o levou ao isolamento e ao alijamento da conspiração que propiciou a proclamação da República. Apoios a Jardim vinham de Pernambuco, do Rio Grande do Norte e de setores do Rio Grande do Sul, Minas, Bahia e São Paulo. Porém, a maior parte do partido prestava solidariedade a Bocaiúva, reconhecendo-o como o líder dos republicanos e acusando Jardim de “chefe da dissidência”.

  • Apesar do isolamento, Jardim continua a propaganda, planejando um meeting contra o gabinete Ouro Preto – recém empossado e último do Império – e uma viagem para o norte do país no mesmo vapor do Conde D’Eu, marido da princesa Isabel  e que enfrentava duras campanhas contrárias nesses anos finais da monarquia. O Partido Republicano desautorizou a organização do meeting e Jardim recuou, mas manteve a viagem.

    O Conde D’Eu programara sua viagem até o Amazonas, mas Jardim pretendia parar em Pernambuco, onde tinha fortes aliados. A viagem foi considerada provocação pelo partido, que, porém, beneficiou-se dos tumultos ocorridos na Bahia. Em Recife, os republicanos lançaram um manifesto em 19 de julho, marcando um comício em praça pública. Os monarquistas ameaçaram atirar a Guarda Negra sobre os republicanos. O clima ficou de tal modo pesado que o chefe de polícia local assinou um documento em que afirmava não poder garantir a ordem na cidade. A reunião foi cancelada, mas os republicanos cantaram vitória: a falta de garantias por parte da polícia mostrava a perda de controle da Monarquia. Cancelado o comício, Silva Jardim decidiu interromper a viagem. Acreditava que qualquer incidente poderia prejudicar o movimento republicano e sua posição, já que novos meetings poderiam ser vistos como sinal de imprudência e radicalismo estéril. 

    De volta ao Rio de Janeiro, Jardim retomou suas atividades jornalísticas. As vitórias trazidas do norte não foram suficientes para que participasse dos planos para a proclamação da República. Foi chamado só no último momento para “agitar as massas”. Na Câmara Municipal assistiu a Patrocínio, reconciliado com a República, proclamá-la “oficialmente” (cabia ao vereador mais moço o anúncio da queda dos gabinetes).

  • As eleições para a Assembléia Constituinte marcaram mais uma derrota de Jardim: concorrendo pelo Rio, viu sua chapa composta por republicanos históricos ser batida nas urnas por outra, articulada por Deodoro. Desgostoso com os rumos do novo governo viaja para a Europa.  Em carta a Alberto Torres, de março de 1891, faz uma análise da situação política brasileira e se queixa do “auto-exílio”. Mesmo assim, manifesta o desejo de voltar a participar da política do país. Não houve tempo para isso. Em 1º de julho de 1891, em excursão ao Vesúvio, Jardim foi engolido por uma fenda aberta no solo instável. Morto, foi apropriado como símbolo pela República e ganhou de José do Patrocínio, antigo desafeto, seu mais famoso epitáfio: “bela sepultura o vulcão, extraordinário destino o do grande brasileiro; até para morrer converteu-se em lava”.

    Maria Fernanda Lombardi Fernandes Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), doutora em Ciência Política e autora da tese A Esperança e o Desencanto: Silva Jardim e a República

Compartilhe