Walter Neves: “Luzia é apenas a ponta do iceberg”

Docente em Evolução Humana pelo Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP fala sobre suas descobertas e critica arqueologia no Brasil

Carolina Ferro

  • Walter Neves em foto do acervo do Laboratório de Estudos evolutivos Humanos (IB/USP)Ele é mineiro, de origem humilde, e considerado um dos mais importantes arqueólogos do mundo. Com mais de 30 anos de carreira, atualmente é professor titular em Evolução Humana no Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, onde criou o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos. Responsável pelo desenvolvimento de pesquisas sobre as origens do homem americano e pela divulgação da importância do crânio de Luzia, Walter Neves acha que até hoje os norte-americanos não se recuperaram do susto provocado pelas pesquisas em Lagoa Santa: “Abateu-se sobre o tema um silêncio sepulcral”.

    RHBN - Como se tornou arqueólogo?

    Walter Neves: Nem Deus sabe! Aos 8 anos de idade já sabia que queria ser um cientista. Aos 12, já sabia que queria trabalhar com evolução humana. Levando-se em conta que vim de uma família muito humilde e que morava no interiorzão de Minas, não deixa de ser curioso. Minha trajetória tem sido um ato de insanidade mental. Qualquer pessoa com um mínimo de sanidade, não teria sobrevivido a ela. Isso porque passei por várias áreas da antropologia e da arqueologia, 90% do tempo como auto didata. Mas, felizmente, aqui e ali sempre surgiram pessoas muito generosas que aditivaram minha carreira. Entre elas Oswaldo Frota-Pessoa, Francisco Mauro Salzano e Luigi Luca Cavalli-Sforza. Por isso digo sempre pros meus alunos que parti de ombros de gigantes. Aprendi uma coisa fundamental com esses três gigantes: ciência demanda generosidade. Coisa, aliás, que nunca vi ser praticada na comunidade arqueológica brasileira. Uma gente mesquinha, limitada e com um medo danado de ser superada.

    RHBN - Quais foram os primeiros estudos que o senhor se dedicou?

    Walter Neves: Fiz de tudo um pouco desde o início. Minha iniciação científica, por exemplo, foi sobre moluscos de um sambaqui do litoral paulista. Mas ao mesmo tempo já vinha me dedicando também à arqueologia de caçadores-coletores do interior de São Paulo e à antropologia biológica dos construtores dos grandes sambaquis do litoral do Paraná e de Santa Catarina. Em resumo sempre trabalhei em pelo menos duas grandes frentes: a arqueologia e a antropologia biológica ou física. No que se refere à primeira foi essencial a parceria com Solange Caldarelli. Devo a ela minha transmutação de biólogo para arqueólogo. Além disso, me fez criar um gosto muito grande pela etnografia, principalmente a de caçadores-coletores. Ainda acalento com muito carinho a idéia de que um dia voltemos a trabalhar juntos. Fazíamos uma dupla ótima, muito produtiva. Tudo isso se deu institucionalmente no âmbito do falecido Instituto de Pré-História da USP, do qual fomos sumariamente demitidos em 1985, juntamente com todos os nossos alunos. Perdemos tudo, anos e anos de trabalho de campo e de laboratório. Uma outra coisa que caracterizou minha carreira desde o início foi a divulgação científica para o grande público, sob a forma de artigos e de exposições museográficas, essas últimas em parceria com Cristina Bruno, também do Instituto de Pré-História da USP à época. Se devo a Solange Caldarelli minha transmutação de biólogo para arqueólogo, devo a Cristina Bruno a compreensão do que implica ser um profissional de museu. Em síntese, não importa o que eu faça, elas estão sempre presentes...

    RHBN - Fale um pouco sobre sua pesquisa com os crânios descobertos por Peter Lund.

    Walter Neves: Pois é. Depois que fui enxotado da USP, em 2005, abriram-se três oportunidades muito boas de trabalho: um pos-doutorado com Robert Eckhartd, na Penn State University, sobre evolução da morfologia humana, um pós-doc com o grande Glynn Isaac, em Harvard, e um posto de pesquisador no Museu Goeldi, no Pará. Por razões pessoais muito difíceis de serem explicadas em poucas palavras, acabei ficando no Brasil mesmo, tendo aceitado o convite para instalar no Museu Goeldi  um núcleo de pesquisas sobre adaptações humanas à florestal tropical. No meio dos anos 1980, o Museu Goeldi estava passando por uma fase efervescente, sob a batuta de Guilherme de La Penha, o melhor administrador científico que já conheci. Um belo dia ele me chamou na Diretoria e me pediu que representasse o Museu numa reunião internacional sobre arqueologia de salvamento, em Estocolmo. Minha resposta foi muito simples: aceitaria desde que pudesse passar alguns dias em Copenhague para conhecer e estudar a famosíssima coleção Lund.  Foi assim que em 1988 pude medir os 17 crânios recolhidos por Lund na Gruta do Sumidouro. E foi a partir disso que fiz minha “grande descoberta” sobre os primeiros americanos. Muita gente me pergunta por que tive que ir à Dinamarca para medir os crânios do Lund, se no Brasil eles também existem em quantidade. A resposta é: eu simplesmente não tinha acesso aos crânios de Lagoa Santa existentes no Brasil! Passei a ter acesso a eles apenas a partir da metade da década de 1990. Pode?  Foi com o material do Lund que demonstramos, eu e Hector Pucciarelli, de La Plata, Argentina, que os primeiros americanos se pareciam muito mais com os australianos e africanos atuais do que com os índios e os asiáticos de hoje. Publicamos pelo menos uma meia dúzia de artigos no Brasil e no exterior com base apenas na coleção Lund.

    RHBN - Como foi descoberto o esqueleto de Luzia?

    Walter Neves: Primeiramente gostaria de esclarecer que não fui eu que encontrei o esqueleto de Luzia. Na verdade quando ele foi encontrado eu nem mesmo havia iniciado minha carreira como arqueólogo. Segundo, esclarecer, também, que não se trata de um fóssil. O esqueleto de Luzia nunca se fossilizou. É puro osso. Muito frágil, diga-se de passagem. Luzia foi encontrada nos anos 1974 e 1975 pela missão arqueológica franco-brasileira coordenada pela grande Annette Laming-Emperaire, que faleceu subitamente em 1977. Com sua morte a missão foi prematuramente encerrada, de tal forma que há muito pouca coisa publicada sobre as escavações em Lapa Vermelha IV, o sítio onde Luzia foi encontrada. Por isso, muito pouca gente sabia de sua existência e muito menos ainda de sua importância. Eu sempre soube que se tratava de um material precioso, mas como disse anteriormente eu só passei a ter acesso aos esqueletos de Lagoa Santa depositados em instituições brasileiras a partir de meados dos anos 1990.

    RHBN - Qual importância dessa descoberta e como isso mudou as teorias da Arqueologia sobre a evolução humana no continente?

    Walter Neves: Como já disse a “grande descoberta” de que os primeiros americanos se pareciam mais com australianos e africanos do que com os índios e os asiáticos atuais se deu em 1989, quando Hector Pucciarelli e eu publicamos nosso primeiro artigo com base nos crânios de Lund. Luzia só surgiu dez anos depois. Mas o fato dela ter grande antiguidade e de confirmar nossas descobertas anteriores, deu, finalmente, grande visibilidade ao nosso trabalho e a nossas idéias sobre a ocupação do Novo Mundo. Pesou muito, também, o fato de Richard Neave, da Universidade de Manchester, ter feito a reconstituição de sua fisionomia. Sem saber de nossos resultados, ele chegou a conclusões similares, utilizando um método muito distinto: a reconstituição “artística” de sua fisionomia. O sucesso midiático de Luzia foi tamanho que obrigou a comunidade científica norte-americana a finalmente admitir que nosso trabalho existia. Os dez anos de publicações anteriores a Luzia foram solenemente ignorados pela comunidade científica norte-americana. Mas com seu advento, já não era mais possível empurrar nosso trabalho pra debaixo do tapete...

    RHBN - Como os ancestrais de Luzia chegaram ao continente americano?

    Walter Neves: Pois é, as pessoas fazem a maior confusão sobre o assunto. A maior parte delas pensa que pelo fato de termos demonstrado uma grande similaridade biológica entre os primeiros americanos e os australianos e africanos atuais, que propugnamos migrações transoceânicas seja pelo Atlântico, seja pelo Pacífico. Nada poderia ser mais errado. Jamais propusemos tal coisa. Assim como os ancestrais dos indios atuais, os ancestrais dos primeiros americanos (o povo de Luzia) também vieram do nordeste da Ásia e chegaram ao Novo Mundo pelo Estreito de Behring. Como sabemos isso? Muito simples: populações humanas com a mesma morfologia craniana dos primeiros americanos, chamada tecnicamente de morfologia paleoamericana, também estavam presentes no Leste da Ásia no final do Pleistoceno. Isso fica claro quando, por exemplo, se analisa a morfologia craniana dos esqueletos da Caverna Superior de Zhoukoudian e de Liugiang, ambos na China. Se eu e meus associados estamos corretos, duas levas distintas de humanos deixaram a Ásia em direção à América no final do Pleistoceno: uma primeira, com morfologia craniana paleoamericana e uma segunda, logo depois, com morfologia craniana mongolóide ou ameríndia. De qualquer forma, quero enfatizar mais uma vez: o povo de Luzia veio da Ásia e não da África ou da Oceania.

    RHBN - Além de Luzia, existem outros fósseis semelhantes?

    Walter Neves: Sim. Felizmente muitos! Isso nos permite realizar abordagens populacionais e não tipológicas ou raciológicas, como se fazia no século XIX (e no Brasil, pasmem os leitores, até o início da década de 1980).  Nosso último trabalho usando apenas crânios antigos de Lagoa Santa contou com mais de 80 espécimes. Todos datados diretamente ou indiretamente entre 11 e 7,5 mil anos atrás. Temos trabalhado muito também com uma boa amostra de crânios antigos da Colômbia, e com indivíduos isolados do Chile, da Flórida, e de várias partes do Brasil. Luzia é apenas a ponta do iceberg.

    RHBN - Qual a repercussão de sua pesquisa entre os arqueólogos norte-americanos?

    Walter Neves: Como disse anteriormente, até o advento de Luzia, nossa pesquisa foi ignorada solenemente pela comunidade científica norte-americana. Quando Luzia estourou nas paradas de sucesso, começaram a dizer que havia um cucaracha no Brasil propondo todo um novo modelo de ocupação do continente americano com base em apenas um crânio.  Quando publicamos em 2005 no PNAS, um dos três periódicos científicos mais importantes do mundo, nossa síntese final sobre Lagoa Santa, com mais de 80 espécimes de antiguidade inquestionável, abateu-se sobre o tema um silêncio sepulcral. Acho que até agora não se recuperaram do susto. Para o bem ou para o mal.

    RHBN - Como foi a fundação do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos e como ele funciona?

    Walter Neves: Quem disse que funciona? Brincadeirinha...Aquilo é uma mistura de circo com hospício. Lidamos ao mesmo tempo com trocentos projetos de pesquisa, idéias, publicações e atividades de divulgação científica para o grande público. Paulo Duarte, um dos fundadores da USP, quando criou o Instituto de PréHistória, onde trabalhei de 1978 a 1985, pensou grande. Para ele nossos ancestrais só poderiam ser bem estudados se de maneira interdisciplinar, com especialistas de várias áreas atuando num mesmo espaço. Quando criei o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, em 1994, eu o fiz, antes de mais nada, como uma homenagem, ainda que muito modesta, a Paulo Duarte. De certa forma, retomei seu plano original quando concebeu o falecido Instituto de Pré-História. Embora nossas instalações sejam bastante modestas, temos um espaço dedicado exclusivamente à Antropologia Biológica, outro dedicado ao estudo da megafauna pleistocênica, outro dedicado à Arqueologia e finalmente um outro dedicado ao estudo da ecologia humana de populações tradicionais. Esta última área está a cargo de Rui Murrieta, que tem uma formação humanística de primeira e trafega muito bem pela biologia evolutiva. Dos mortos, me encarrego eu. Ah, dispomos também de duas reservas técnicas climatizadas para vestígios orgânicos. Não é totalmente impossível que venhamos, no futuro, a transformar o Laboratório num Centro de Estudos Evolutivos Humanos ou num Centro de Antropologia Evolutiva. Mas como qualquer empreendimento na universidade pública brasileira se transforma num pesadelo...  

    RHBN - Como você avalia o campo da arqueologia no Brasil hoje?

    Walter Neves: Não saberia dizer, porque da arqueologia brasileira desejo apenas uma coisa: distância!

    RHBN - Para o jovem que pretende pesquisar na área de arqueologia, quais dicas o senhor dá?

    Walter Neves: Fazer as malas e seguir em linha direta e reta para os aeroportos de Cumbica ou Galeão.

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