Carta do editor

  • Intolerância é palavra que circula em todos os cantos, acionada para rejeitar comportamentos que violentam o convívio humanizado, respeitoso e fundado na liberdade de cada um.

    Esta edição traz um convite para conhecermos uma de suas mais poderosas raízes. Talvez o primeiro espanto que oferecemos no dossiê sobre a Inquisição seja o mais simples: ela atuou no Brasil, ainda que dela pouco se saiba. Afinal, caça às bruxas, fogueira de hereges, julgamentos célebres de pensadores da ciência parecem episódios da história dos outros.

    Reunimos uma seleção dos maiores pesquisadores brasileiros e internacionais para nos mostrar como a Inquisição agiu por aqui – nem sempre de forma tão espetacular quanto na Europa. Os cristãos-novos não tiveram descanso quando atravessaram o Atlântico para viver longe das perseguições no Velho Mundo. Outros grupos que se formaram nos trópicos, como africanos e indígenas, também foram alcançados pelo Santo Ofício, que reprovou atitudes fora da ortodoxia católica. E os gays, aproximados da heresia, viveram um pesadelo permanente.

    Aproveitamos para acertar as contas com alguns mitos curiosos que nasceram de algum desconhecimento: sobrenomes derivados de árvores, como Nogueira ou Pereira, indicam ascendência judaica?

    A Inquisição está bem viva entre nós. A reportagem especial traz denúncias de estudiosos do Direito contando que, nos inquéritos policiais e nas práticas jurídicas, há vestígios daqueles tempos de horror e intolerância.

    Apesar do garrote, alguma coisa fracassou. Mesmo com o patrocínio de uma instituição que agiu durante séculos, a intolerância não triunfou de modo generalizado entre os que habitavam o Brasil. Segundo as vozes e as experiências que aparecem nas páginas seguintes, travou-se uma luta que freou o Tribunal do Santo Ofício. 

    É mais um motivo para não esquecermos toda essa história.

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