
Precisamos falar sobre o Kelvin. Dir.: Lynne Ramsay. EUA. 2011
O mundo é chocado de tempos em tempos com a informação de um violento atentado cometido por algum jovem em uma escola qualquer, ou um ambiente com uma grande concentração de pessoas. Já aconteceu em países tão diferentes como EUA, Brasil ou Noruega. Invariavelmente, há mortes e muito sofrimento dos familiares das vítimas. Sempre, também, fica a questão depois que a cabeça volta a funcionar: como evitar o que não pode ser previsto? Como aprender com os episódios passados quando eles só têm em comum, aparentemente, a desgraça coletiva?Por conta dessa carga trágica – implícita e explícita –, esses massacres já se transformaram em filmes, que, coincidentemente ou não, tiveram uma grande repercussão. É o caso de “Elefante”, por exemplo, do cineasta Gus van Sant, de 2003, ou “Tiros em Columbine”, o documentário de Michael Moore, de 2002. Ambos trataram do mesmo episódio, o ataque em uma escola de ensino médio em Columbine, no estado norte-americano de Colorado. Em 20 de abril de 1999, dois garotos de 17 e 18 anos mataram 12 colegas e um professor, além de terem ferido 21 outros colegas, para depois cometerem suicídio.
O filme de Van Sant usa uma linguagem etérea para perseguir de perto, mas sem interferir, os dois assassinos até o dia fatídico. Entra no cotidiano deles, como se fosse um convidado invisível que tenta espiar alguma informação cifrada, alguma atitude que anuncie o desvio. Moore, por sua vez, tenta responder mais diretamente à pergunta que muitas pessoas se fizeram quando souberam do ataque: por quê? Por que dois meninos se armaram e entraram num colégio para eliminar colegas e professores? Ambos os longa-metragens, de certa maneira, colocam os assassinos no centro da questão para tentar debater por que alguém assassina aleatoriamente diversas pessoas.
Columbine foi o quarto mais violento ataque em centros educacionais nos EUA, e o mais grave numa escola de ensino médio. O primeiro é o episódio conhecido como desastre da escola de Bath, em Michigan, em 1927, onde 45 pessoas morreram em um incêndio provocado pelo zelador. O segundo mais letal foi o de Virginia Tech, em Virginia, já em 2007, quando 33 pessoas morreram, inclusive o assassino, Seung-Hui Cho, que ficou conhecido por conta de uma foto em que ele aparece apontando duas pistolas para a câmera. O terceiro colocado nessa lista mórbida é o ataque na Universidade do Texas, quando o estudante Charles Whitman matou outras 16 pessoas, incluindo sua esposa e sua mãe, antes de ser morto pela polícia.
Também no ano de 2003, chegou às livrarias americanas “We need to talk about Kevin” (“Precisamos falar sobre o Kevin”, na tradução brasileira), que tirava o foco dos agressores para colocar em uma outra figura-chave para entender esse processo, mas que não tinha sido abordada diretamente, até então: a família. Como os parentes dos assassinos lidam com o massacre, sabendo que eles eram, ao menos, próximos fisicamente do responsável por tanto desgraça? Tentam achar uma explicação para o que aconteceu? Procuram alguma indicação no passado para saber se eles tinham como prever a catástofre? Sentem-se culpados pelo massacre ou aliviados por não ter mais que lidar com o assassino?
Crueldade com a mãe
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Em 2011, após diversas reviravoltas na sua produção, a adaptação do livro chegou às telonas, com a elegante assinatura da diretora escocesa Lynne Ramsay. A versão cinematográfica está recebendo diversos elogios por conseguir manter o tom sombrio da versão original, sem perder o foco no drama: mostrar como uma mãe (sobre)vive após perceber seu filho, que ela nunca quis realmente, se revelar um monstro.
O longa é narrado em dois tempos: a realidade de Eva Khatchadourian, que tenta reconstruir sua vida após o massacre, mas sempre é confrontada com uma lembrança, sempre dolorosa, sempre aguda, e, às vezes, ainda por cima, viva, ao encontrar com alguém que perdeu um familiar no ataque. E a memória de Eva, então uma escritora bem-sucedida, que teve de lidar com o crescimento de uma criança não-desejada em uma família de classe-alta americana.
O garoto, desde bebê, mostra um comportamento no mínimo indócil. Com o passar do tempo, ele passa de apenas um garoto que tenta de todas as maneiras incomodar a mãe para um jovem perigo para a própria família. Particularmente contra a mãe, ele é cruel. Age de todas as maneiras que sabe para tornar a vida dela um inferno.
A mãe - não deve ser coincidência se chamar Eva, a quem a tradição cristã joga sobre as costas a culpa pelo pecado original e a saída do paraíso bíblico – se martiriza pelas consequências dos atos do filho. Após o massacre, aceita qualquer agressão das vítimas, e se torna uma mulher isolada, amedrontada, que se esquiva de ter contato com outras pessoas, para evitar sofrer mais.
De certa forma, a obra levanta a questão sobre qual é o quinhão de culpa dos pais no comportamento dos filhos. O quanto eles podem ser responsabilizados, por conta da criação ou do DNA, pelas ações de suas crianças? A infância pode ser moldada pelo seu entorno ou já é algo que segue um plano razoavelmente predeterminado desde a concepção?
Kevin, em certo momento do filme, dá uma resposta niilista que pode demonstrar como esses personagens se enxergam: o motivo é não ter motivo. Como se dissesse que a falta completa de perspectiva, a ausência de sentido o autorizasse a cometer qualquer ato, já que não haveria nenhuma punição. Uma resposta que resvala, novamente, na religião, e que pode ser exemplificada naquele famoso raciocínio atribuído a Dostoiévski de que se Deus não existe e se a alma é mortal, tudo é permitido.
Porém, esse raciocínio aparentemente vazio não consegue alcançar todas as possibilidades de interpretação, ao menos para esse caso específico. Não explica as razões que estão fora da oralidade, mas nos seus atos, para o comportamento do rapaz. Há uma lógica, mesmo que torta, em sua atitude. E isso pode ser percebido no fim da obra, com mais clareza. Descobrimos que Kevin escolhe um final bem mais cruel para a sua mãe, comparado ao que ele decide para o seu pai ou a sua irmã. Como se deixasse claro de quem ele, mesmo inconscientemente, queria se vingar.
* Ronaldo Pelli é jornalista e editor do blog Conto no Canto















































































