A culpa pela falta

Munida de sua principal arma, o corpo, Joe passa a vida em uma busca incansável por se sentir plena, na recente produção de Lars von Trier, ‘Ninfomaníaca’

Nashla Dahás

  • Nymphomaniac: Vol. I. Nymphomaniac: Vol. II

    Dir.: Lars von Trier. 2013.

     

    É possível que a maioria das pessoas queira ter a última palavra sobre si mesma. Achamos que nos conhecemos e, mais difícil do que mudar nossa opinião sobre as coisas e sobre os outros, talvez seja nos convencer de que não somos exatamente aquilo que pensamos ser. Estabelecer ainda uma conciliação com este “eu” desconhecido pode ser tarefa para a vida toda. De todo o modo, resta-nos ter paciência para imaginar o que aconteceu, repeti-lo na imaginação como nas histórias dos outros, e contá-las, e recontá-las, até que as contemos “bem”.

    Em seu conjunto de biografias chamado Homens em tempos sombrios, Hannah Arendt afirma que a falta de imaginação impede as pessoas de existirem, assim como a recompensa por contar nossas histórias é se tornar capaz de deixar partir. O título do livro parece apropriado à Ninfomaníaca, filme de Lars Von Trier apresentado ao público no ano passado em duas partes de cerca de duas horas e meia. A passagem citada também lhe cai bem, já que se trata da autobiografia de Joe, interpretada pela sempre tentadora Charlotte Gainsbourg. É ela quem se apresenta como ninfomaníaca, mas o que percebemos é que seu vício não é o sexo, mas a penetração, toda vez em que ela é punitiva. Na única cena em que isso não acontece, em que o sexo está acompanhado pelo amor, a personagem se desespera, perde o controle e a sensibilidade. A vida comum, o amor convencional, cristão, se torna insustentável, até que ela retorne ao comando de sua posição assumida de pecadora. Depois dessa experiência, porém, ela recorre à violência mais explícita. À penetração em todos os seus buracos possíveis, se soma o uso de instrumentos e técnicas de tortura que lembram uma espécie de submissão religiosa.

    Marido (o Jerome de Shia LaBeouf) e filho pequeno devidamente abandonados, Joe poderá seguir a infinita busca feminina pelo preenchimento do vazio que se segue aos buracos que carregamos. Ao mesmo tempo, terá culpa o suficiente para punir-se eternamente.

    Desde o volume I ela aparece cindida pelo desejo/falta de desejo, de um lado, e do outro a razão/controle do desejo (incluindo a virgindade que ela decide quando e como perder), de forma que suas “escolhas” aparecem ao espectador como sucessivos golpes nos outros, os homens. Os golpes cessam momentaneamente o conflito interno, distraem o cérebro que passa o tempo fazendo associações e criando explicações para cada movimento e sensação. Acima de tudo, os golpes de Joe funcionam como provas definitivas (científicas) da versão de si que ela elabora desde muito cedo: pecadora, ninfomaníaca, pessoa ruim. A arma utilizada é a mais fácil e simples que possui toda bela mulher, o corpo. No segundo volume, porém, é chocante como a experiência do amor - que como todo o amor, não é completo, e não a preenche totalmente -, a leva aos autogolpes. Ela se violenta até que não consiga mais se olhar, até que fique jogada num beco sangrando por pelo menos mais de um buraco.

    O filme oferece muitas possibilidades de interpretação para o vício da protagonista. Um capítulo inteiramente dedicado às memórias que ela tem do pai parece sugerir que foi ele quem primeiro despertou na menina o desejo do auto entendimento, da elaboração racional para as suas emoções. Ou, que nasce da relação de rejeição da mãe pelo pai – que ela ama -, a aversão ao amor. Ainda, que Joe passaria a vida repetindo o único gesto que todas as cinco horas de filme apresentam sobre sua mãe, a frieza diante do homem mais importante na vida das duas.

    O pai cientista (Christian Slater) morre na frente da jovem Joe, em agonia, debatendo-se em desespero após afirmar que a consciência profunda sobre a morte nos livra do medo de morrer. Essa é uma das poucas cenas em que há uma “contradição” no longa, em que alguém perde o controle sobre a própria narrativa. Uma outra já foi citada e é um marco na vida de Joe, e há ainda a senhora H, interpretada por Uma Thurman, a esposa traída em inesquecível momento de ira. Por último, Seligman (Stellan Skarsgard), o senhor que resgata Joe depois de encontrá-la semiconsciente e espancada em um beco, e para quem ela conta/constrói sua história. Velho, conhecedor dos livros e virgem, desde o começo ajuda a culpada mulher (agora com seus cinquenta anos) a dar sentido aos acontecimentos narrados. Faz pontes entre os egos pensante e volitivo da narradora, como quando justifica o capítulo da caça aos homens no trem como algo comum no universo masculino, mas hipocritamente rechaçado não no imaginário, mas pela moralidade feminina. É ele também quem explica à moça que a satisfação dos desejos, ou a busca consciente pelas possibilidades que a sexualidade oferece estão relacionadas com o grau de liberdade permitido às mulheres em sociedades de raízes judaico-cristãs. A subjetividade, nesse caso, passa a integrar um quadro maior e mais geral frequentemente chamado de História. Ele enquadra o questionamento individual numa versão da história social da mulher que naturaliza o problema e lhe dá coerência (especialistas dizem que o cérebro gosta de coerência, é preguiçoso). Mas não acaba aí. Na última cena, Seligman não resiste e aparece com o pênis “adormecido”, pronto a aprender “seu trabalho” com a “profissional” que descansa em sua cama, afinal, “você já transou com tantos homens!”.

    A vontade, como afirma Hannah Arendt em outra obra, A vida do espírito, tem uma liberdade infinitamente maior do que o pensamento, e mesmo em sua forma mais livre, mais especulativa, não pode escapar ao princípio da não-contradição. Segundo a filósofa alemã, esse fato inquestionável jamais foi tido somente como uma benção, aliás, muitos pensadores o consideraram uma maldição, bem próximo do que Lars Von Trier nos apresenta em Ninfomaníaca. Enquanto Joe supostamente pagava um alto preço (odiar a si mesma) pela onipotência daquilo que acreditava ser sua própria vontade, Seligman confirma em ação a história da qual parecia discordar. Triunfo do fatalismo; o mesmo que nenhum homem da “era da razão” ousa defender, mas que continua sua assombrosa carreira no pensamento social, confortando por séculos e séculos a pulsão do eu-quero.

    O filme pode atingir um ou outro espectador, aqui e ali, independente do gênero. Esse seria o caso de tentarmos entender essas subjetividades às voltas com a sexualidade, moralidade, impotência e vazio a partir de suas narrativas e histórias pessoalmente mais profundas. Mas Ninfomaníaca pode encontrar ressonância num público feminino bem mais amplo, confuso diante do enigma do sexo e das metáforas que ele oferece em relação ao modo como nos comportamos diariamente. Não seria surpreendente.

     

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    Para a professora Mary Del Priore, as mulheres brasileiras do último século teriam se saído muito bem em suas conquistas públicas, adquiriram o direito ao voto e aos anticoncepcionais, alcançaram a independência profissional e usam biquíni fio dental sem constrangimentos. Mas ainda hoje elas seriam vítimas de seu próprio machismo. “São elas as transmissoras dos piores preconceitos. Na vida pública, elas têm um comportamento liberal, competitivo e aparentemente tolerante. Mas em casa, na vida privada, muitas não gostam que o marido lave a louça; se o filho leva um fora da namorada, a culpa é da menina; e ela própria gosta de ser chamada de tudo o que é comestível, como gostosa e docinho, compra revistas femininas que prometem emagrecimento rápido e formas de conquistar todos os homens do quarteirão”, afirma a autora de História das mulheres no Brasil.A possibilidade de elaboração feminina acerca de seus impasses existenciais é bastante recente e cheia de enfrentamentos. Conta a historiadora Norma Telles que foi no século XIX que, ao menos no Brasil, surgiram os primeiros registros de mulheres que buscavam nas palavras o caminho para a “autodefinição”. Treinadas socialmente para reprimir suas vontades e para conservar moralmente uma vida de dedicação aos outros, essas moças tiveram que descobrir a interiorização e o conhecimento individual em meio a experiências-limite: “o homem bom a abandona, o seio fica mutilado e a feminilidade aleijada”. Mais de cem anos depois, a revisão dos próprios processos de socialização seguida pela construção de um Eu alternativo ainda seria tarefa por demais corajosa e sacrificante. Talvez, por isso, consciente ou inconscientemente, muitas sigamos o caminho da distração e da obsessão por estarmos privadamente acompanhadas.

    Não parece simples mudar nosso imaginário assim que nos damos conta dele, e nem viver alegremente a apologia do “fracasso” diante de uma sociedade que em grande medida louva Deus, a família tradicional e a propriedade, nem que seja a do Iphone. Parafraseando Clarice Lispector em A paixão segundo G. H., é real e poderoso o medo de não pertencer mais a um sistema, assim como quem perde uma terceira perna que até então impossibilitava o caminhar. Sabe-se que é somente com duas pernas que se pode dar os passos, mas a ausência da terceira faz tanta falta e assusta tanto. Era ela, a terceira perna inútil, agora perdida, quem “fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”. 

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