A Holly de Audrey

Sob censura moral de órgão que regulava o cinema de Hollywood nos anos 1960, o filme ‘Bonequinha de luxo’ tentou preservar características excêntricas da personagem principal criada por Truman Capote

Angélica Fontella

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    A experiência de contemplar Audrey Hepburn no cinema – em sessão especial no Rio de Janeiro, em junho passado - foi única, mas a pergunta que fiz na primeira vez que assisti à Bonequinha de Luxo voltou com ainda mais indignação: como uma mulher independente, autossuficiente e imprevisível – uma verdadeira kook (excêntrica) – pode merecer um final tão “tradicional”?

    O filme, exibido em 1961, é uma adaptação do livro homônimo de Truman Capote publicado em 1958. E conta a história de Holly Golightly, uma menina caipira que se casa cedo, mas abandona a família em busca de uma vida com mais glamour. Mudando-se para a badalada Nova Iorque dos anos 60, conhece o aspirante a escritor Paul Varjak (George Peppard), a quem fascina desde o primeiro encontro. O ímpeto de Holly, somado a sua vida boêmia levam a crer que se trata de uma acompanhante de luxo. Entretanto, sua ingenuidade e a sutileza das cenas, tornam esse rótulo impreciso. A adaptação para as telas foi feita com muitas alterações da história original, que se deveu principalmente à censura moral que pairava sobre o cinema de Hollywood daquela época.

    Com o crescimento do mercado cinematográfico, a partir da década de 1930, setores da sociedade civil, entidades religiosas e governamentais passaram a acompanhar de perto a produção de cinema, exercendo pressão sobre as produtoras norte-americanas por meio de órgãos e códigos de censura. O roteiro do longa-metragem de George Axelrod (indicado ao Oscar por melhor roteiro adaptado) teve que passar pelo crivo da Production Code Administration (PCA, também conhecida como Breen Office). A equipe envolvida na pré-produção da obra queria manter ao máximo o espírito livre da protagonista Holly, bolando verdadeiras armadilhas para o censor.

    Fugindo da censura moral

    O roteiro exagerou no apelo sexual de outros personagens, para que a atenção dos censores fosse desviada e deixassem o enredo da personagem principal em paz. E deu certo! À exceção de algumas orientações de figurino (“Holly deve estar usando combinação e não anágua e sutiã”) e particularidades da biografia da personagem (“a personagem deve especificar que o casamento com Doc [Buddy Ebsen] não acabou em divórcio, mas foi anulado”), a essência de Holly seria capturada.

    Também para o desenvolvimento do roteiro, Axelrod fez mais mudanças, acrescentando elementos diferentes, que se distanciavam mais uma vez do estilo Capote. A Holly do roteirista era mais sonhadora, mais caipira do que a imaginada pelo escritor, até para contrabalancear com a irreverência da personagem nas telas, que tinha que ser aceita pelo público conservador. O elo emocional entre ela e Paul (George Peppard) foi ampliado, culminando num final tradicional, blasé, aquém da personagem. Tudo isso para que o longa estreasse sem chocar muito, ganhando o status de “alta comédia sofisticada”, como classifica o autor Sam Wasson, de Quinta avenida, 5 da manhã (2011).

     

    Audrey Hepburn na pele de Holly

    Outra “adaptação” que fugiu às expectativas de Truman Capote foi a escalação de Audrey Hepburn como Holly Golightly. Ele queria Marilyn Monroe, talvez pela amizade que compartilhavam ou por traços em comum que ela dividia com Holly (ela também teve uma infância difícil e casou-se cedo). Mas os produtores Marty Jurow e Richard Sheperd estavam convencidos de que a personagem precisava ser forte, impressão que passava longe da estrela de O Pecado Mora ao Lado (1955). Por sorte ou destino, a equipe da atriz negou a proposta. A mulher que mais transpirava sexo em Hollywood não podia “fazer um papel de dama da noite”, como disse sua conselheira Paula Strasberg aos produtores. Então quem o faria? Alguns nomes foram cotados, mas, ou estavam ocupados, ou eram inadequados. Não cabia ninguém sexy demais, como Elizabeth Taylor, nem conformista demais, como Doris Day. De repente, os produtores se lembraram de Audrey Hepburn.

    Audrey já passava dos 30, estava casada, tinha um filho pequeno e já contabilizava 16 filmes, um Oscar, um Globo de Ouro e um Henrietta Award. Em indicações, somava duas ao Oscar e três ao Globo de Ouro. Ela estava apta, só faltava aceitar o papel. Sam Wasson conta em seu livro que primeiro ela relutou, mas o sagaz empresário Martin Jurow fisgou a atenção da atriz com um desafio: sugeriu que se ela não via Holly como a romântica ingênua que realmente era, talvez não fosse a escolha certa para representá-la. Ela disse sim.

    A escolha da bailarina belga para o papel significou uma revolução cinematográfica. Ela estava fora dos padrões de beleza “hollywoodianos”, não tinha o corpo certo, a altura certa nem o cabelo certo. Por outro lado, era exatamente disso que o filme precisava: frescor e modernidade. Estavam antecipando a fervorosa década de 1960 e retratavam com sutileza o não conformismo. A Holly de Audrey era uma prostituta de luxo sem ser, insinuava sensualidade sem vulgaridade e exalava independência e desprendimento. As meninas não precisariam mais escolher entre ser como Sandra Dee – esposa perfeita conformada - ou Marilyn Monroe – vida libertina com final trágico -, agora, elas tinham a Holly de Audrey. A quem os estúdios Paramount concederam o título de kook e não hooker (prostituta), por meio de copiosos releases.

    Para montar a Holly Golightly que o PCA aprovaria, que Audrey Hepburn interpretaria e de quem os recém-descobertos adolescentes e suas mães gostariam, não bastou a leveza de eufemismos como: “um bom cavalheiro sempre dá 50 dólares para ir ao toalete”. A figura do gato, animal de estimação da personagem, encontrado perto de um rio e levado para casa, amarrou a excentricidade da moça. Ela nunca dá um nome ao animal, pois não pertenciam um a outro, “ninguém pertence a ninguém” diz Holly. E, respondendo a minha pergunta, o desfecho que mais agradaria ao público, tornando “aceitável” todo o comportamento da personagem, só poderia ser o final “feliz”.

    Para saber mais

    - Wasson, S. Quinta Avenida, 5 da manhã: Audrey Hepburn. Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna. Copyright da edição brasileira 2011. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor LTDA, 2011. 264 páginas.

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