Cor e melancolia

Filme 'A espuma dos dias' explora a delicadeza dos primeiros encontros românticos e a amargura do amor, no encontro com o tempo

Agnes Alencar

  • A espuma dos dias

    Dir. Michel Gondry, França, 2008

     

    Cartaz de Espuma dos Dias / ReproduçãoA maior parte dos relacionamentos começa em uma dimensão paralela, de contos de fadas, de expectativas irreais, alegrias inexplicáveis e parcamente cientes da realidade da vida e do tempo.  O filme de Michel Gondry, A espuma dos dias, baseado em um romance homônimo de Boris Vian, explora essa alegria dos inícios, a delicadeza dos primeiros encontros. A partir de uma estética que se relaciona com o retrofuturismo a película faz uso de efeitos mecânicos inimagináveis para retratar a vida farta e alegre de Colin (Romain Duris).

    A obra de Boris Vian, publicada pela primeira vez em 1946 e traduzida no Brasil pela Cosac-Naify é repleta de imagens surreais que buscam dar conta deste universo absurdo no qual Colin se insere juntamente com seus amigos Chick (Gad Elmaleh) e Nicolas (Osmar Sy).

    Nosso personagem principal é um bon vivant, com uma fortuna infindável e uma bela casa, seu maior passatempo é experimentar novas combinações de bebidas feitas a partir de notas musicais em uma invenção dele próprio. Colin vive em um universo seu no qual todas as coisas se encaixam de maneira delicada no equilíbrio de sua rotina fantástica. Todavia, dentro de seu mundo não existe ainda um relacionamento, enquanto para seus amigos o romance é uma constante, Colin encontra muitas dificuldades para lidar com mulheres até que Chloé (Audrey Tatou) entra em sua vida. Chloé traz consigo não apenas toda a alegria e o deslumbramento do primeiro romance, mas também, toda a realidade que estava estancada pelo mundo fantástico de Colin.

    Com o casamento de Colin e Chloé, o tempo, que parecia estar congelado começa a correr de maneira impiedosa e a escorrer com toda a juventude e alegria que outrora foram características da casa.

    Na lua de mel, Chloé contrai uma doença incurável, uma flor de lótus cresceria no seu pulmão até que a realidade se tornasse insustentável. Este elemento sombrio retira Colin de sua inércia ociosa e irreal. O tratamento caríssimo fez com que Colin tivesse que começar a trabalhar para pagar pelos gastos. A partir desta doença todas as histórias parecem ser contaminadas com a realidade melancólica. O casamento de Chick – um fanático pelas ideias de um filósofo Jean Paul Partre - aos poucos se degrada juntamente com o adoecer de Chloé. Chick gasta todos os seus recursos e os de Colin para adquirir novos livros do filósofo e alimentar seu vício.

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    A casa, bela e impenetrável do início, aos poucos se torna cada vez mais vulnerável. As cores exuberantes do filme aos poucos se desbotam. O vermelho vivo se dissolve em sombras escuras em tons de preto e cinza. Os objetos mudam, as pessoas mudam, tudo se transforma ao longo do filme. Os amigos que apresentaram o casal e vibraram com o casamento desaparecem e arruínam o relacionamento precioso que antes mantinham com Colin. O tempo leva embora não apenas o romance, mas também a lealdade dos que anteriormente eram amigos. Os objetos mudam. Gondry desejava essa mudança visível, pois ele acredita que os objetos não significam por si só, mas adquirem significado a partir da experiência. Os fabulosos mecanismos se quebram, se deterioram, tal qual o relacionamento entre Chloé e Colin.

    Colin perderá toda sua cor e sua força tentando salvar Chloe. Até que como um golpe de misericórdia face à morte, tudo se esvai. A casa, os objetos fantasiosos, os amigos, a vida em si e todo seu encantamento dão lugar a solidão e a melancolia da qual Colin sempre fugiu e qual as quais nunca teve de lidar.

    O filme de Michel Gondry é um retrato surreal de começos e finais. Todo o encantamento que se desfaz no amargor de relacionamentos interrompidos seja pelo tempo, pelas circunstâncias da vida, pela realidade em si que nos traz de volta para um mundo menos cor de rosa. Ao fim e ao cabo, restam para Colin apenas as memórias quase coloridas, desbotadas, de um início encantador, mas elas não são como no início puras e coloridas, são passados contaminados pela realidade melancólica do presente.

    Acredito que a exuberância do primeiro momento do filme e a riqueza de detalhes poderia ter sido melhor explorada e trabalhada pela narrativa do filme. Ainda assim, talvez por uma escolha de linguagem, certas coisas passam a existir pela falta. A partir da ausência é que nós, telespectadores, nos damos conta que algo mais se partiu. Algo que sempre esteve lá repentinamente se vai, e diante de tudo que se vive, sequer sabemos precisar em que momento aquele objeto deixou de estar, deixou de ser. De certa maneira, essa metáfora em muito se relaciona com pontos de chegada. Nem sempre sabe-se o momento em que as coisas mudaram, quando os tons começaram a desbotaram.

    O relacionamento de Colin e Chloé é também uma metáfora do amadurecimento. A crueza da vida invade em um dado momento até as mais surreais experiências, caberá ao Colin em algum momento decidir o que ele fará diante do mundo preto e branco com o qual agora se depara, parte desta realidade implacável que acaba por consumir até a última gota de seu ânimo, fôlego e alegria. Este é um filme desavisadamente melancólico, muito similar a vida real com a qual Colin e nós sempre nos deparamos.

     

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