Correspondência insólita

Longa finlandês une padre e ex-presidiária para contar história que demonstra o valor da generosidade e da compaixão.

Agnes Alencar

  • Postia Pappa Jaakobille

    Dir. Klaus Härö, Finlândia, 2009.

     

     

    Sentada ao lado de uma janela entreaberta está Leila Sten (Kaarina Hazard), uma mulher de feições sombrias, que esboça indiferença em todos os seus gestos.  Ouvimos primeiro a voz de um homem que sabemos em seguida ser o diretor de um presídio feminino. Leila cumprira 12 anos de uma pena perpétua e recebeu um indulto misteriosamente. Ao longo de mais de uma década Leila se recusou a receber visitas e qualquer tipo de gentileza que pudesse lhe dar algum alívio ou prazer. Diante das escassas possibilidades para uma condenada o diretor – cujo nome ficamos sem saber - lhe avisa que um padre cego requisitou uma das ex-presidiárias para lhe servir de assistente pessoal. Com o mesmo desprezo com que tratou o diretor ela reage, igualmente indiferente ao pedido. De fato ela nunca tinha considerado voltar à liberdade, e diante do inesperado ela tinha poucas opções. O diretor – irritado com as respostas evasivas e apáticas - apenas lhe sinaliza de maneira rude que ela não tinha outro lugar para ir e ironicamente pergunta se ela quer ir para casa de sua irmã. A feição sombria demonstra pela primeira vez um traço de emoção, dor. Nada mais é dito.

    O estranhamento com a estética do filme começou já na primeira cena. Esta foi a primeira vez que vi um filme finlandês, e a barreira do idioma se apresenta imediatamente. As palavras raramente se assemelham a alguma língua mais familiar. A narrativa inicial do filme, com muitos silêncios, dita parte do ritmo que segue ao longo de toda a trama.

    A casa do padre Jaakobille (Heikki Nousiainen) surpreende pela mistura de objetos simples, e rústicos, com outros elementos – talvez de outro momento da vida – como um lustre antigo e empoeirado. Localizada no final de uma estrada de terra, cercada por um imenso matagal e algumas outras casas – de madeira como a dele. O padre, gentil, aguardava Leila Sten com ansiedade e preparara um chá com bolo para a convidada. Leila, diante da mesa posta, imediatamente muda o lugar de seus talheres e xícaras, se colocando no extremo oposto da mesa. Neste momento o padre começa a explicar o uso que fará de uma assistente, muitas cartas são enviadas – ele explica – e precisa que alguém as leia, já que ele não pode mais. Impaciente, Leila aceita o serviço, mas avisa que não ficará por muito tempo.

    O ambiente monocromático da tensa interação dos dois raramente muda, nas poucas vezes em que é rompido, é justamente pela exclamação em finlandês que dá título ao filme, é o carteiro que se aproxima gritando “postia pappa Jaakobille” - cartas para o padre Jacó! Sentada no que devia ter sido um jardim da casa, antes da grama ficar alta e revolta, ela começa a ler as cartas, e se depara com pedidos de oração. Jaakobille os recebe, os acolhe, de maneira sincera faz uma prece por cada um dos que recebe e responde alguns.

    O filme, que se passa em 1970, não nos deixa saber qual era a função social deste clérigo, ou o porquê de receber correspondência de tantas pessoas e lugares. Provavelmente era um padre importante daquela localidade. A mesma incompreensão que temos fica estampada nos olhos de uma cética Leila, cujos olhos indiferentes começam a se encher de uma ira gigantesca. Descrente da gentileza do mundo, ela rejeita todos os gestos amáveis deste sacerdote, que parece alheio a maldade do mundo, como se a cegueira física o tivesse tornado também cego a latente perversidade humana. Jaakobille de fato parece ser um daqueles antigos personagens de literatura, como o Idiota de Dostoievski, incapaz de agir cruelmente, incapaz de crer que existem pessoas que escolhem miseravelmente fazer mal a outras. Ou pior, um ser que sabe quão desumano o mundo pode ser, mas que escolhe ser um arauto de amabilidade.

    Heikki Nousiainen consegue estampar uma fragilidade delicada em todos os gestos do padre. O caminhar letárgico, as mãos trêmulas com um bule de água quente nas mãos, o sorriso gentil com as cartas que recebe e pelas quais ora. Tudo permite-nos acreditar que esse pobre velho vive em um mundo que não existe fora de sua própria cegueira.

    No processo de leitura de cartas começamos a conhecer histórias distintas, a senhora que pede pela vida profissional de seu neto, um rapaz que com frequência escreve pedindo que reze por seus estudos, a história de uma mulher que escreve para dizer que está em segurança; ela fugira de um marido abusivo, e agora finalmente seus filhos estavam voltando a sorrir. Ela escreve e envia de volta parte do dinheiro que o padre lhe havia emprestado para fazer a viagem, agradece também pelas preces que não pediu, mas que sabe que ele fez. Neste momento ele apenas sorri com lágrimas nos olhos. Jaakobille lhe havia emprestado todas as suas economias, o que reforça para Leila não sua bondade, mas sua estupidez. 

    Sten não sente nenhum tipo de compaixão para com Jaakobille, ao contrário, direciona a ele toda a amargura e fúria que sente por crer ser ele o responsável pelo indulto que recebeu. Kaarina Hazard carregou Leila Sten de uma rudez axial para a personagem, uma crueza misteriosa misturada à indiferença que já mencionei e que é sutil. Não estamos falando de uma rebeldia simplória que bufa diante de cada tarefa que considere pouco aprazível, mas de tons, acentos nas frases, na linguagem corporal, no comportamento dos olhos.

    Enfadada de ler as cartas, ela simplesmente se livra de parte delas, sem nenhuma consideração pelo pároco que não apenas lê e ora por cada um dos pedidos, bem como guarda cada um dos envelopes que recebe. Como se seus desejos fossem atendidos, um dia as cartas param de chegar. Repentinamente, sem qualquer explicação. As feições gentis do padre começam a se deteriorar, como se sua energia vital dependesse daquela missão, como se sua visão do mundo estivesse entrelaçada ao seu ministério.

    As cartas garantiam-lhe motivo para viver, para ele representavam que ainda havia algo a ser feito, eram sua maneira de tornar o mundo mais belo, como se vivesse ainda apenas para orar por aquelas pessoas – conhecidas ou desconhecidas – pelas quais fizera tanto quanto podia.

    Convencida de que Jaakobille precisa voltar a fazer algo pelas pessoas Leila decide fingir que chegaram cartas para ele. A primeira que supostamente lê pede por um caõzinho que fugiu. Ainda que o pároco dê a entender que percebeu o que ela estava fazendo, não se zangou. Já cansado de viver nem mesmo esse gesto de rara compaixão o comove. Stein por sua vez não desiste e insiste que há mais uma carta a ser lida. Ela conta então a história de um bebê que apanhava violentamente da mãe, e que era protegido – sempre que possível – por sua irmã mais velha. Mais tarde, a criança torna-se uma menina grande e forte, mas ainda assim vulnerável e sua irmã – mesmo sendo metade do seu tamanho – continuava protegendo-a. Quando a mais velha se casou os papeis se trocaram, seu marido batia nela brutalmente. Aquela irmã – que antes tinha sido protegida por sua irmã mais velha – não consegue lidar bem com a violência a que se submete a sua irmã, e em um ato fúria incontrolada ela entra em casa e mata o marido de sua irmã. Antes que ela diga, o padre Jaakobille percebe aquilo que olhos molhados de Leila já nos diziam, aquela ‘carta’ conta a história da própria Leila Sten.

    A maneira de estar no mundo de Leila Sten passava pela culpa e penitência. Receber o indulto a tinha desarticulado, sobretudo por representar um perdão que ela não se considerava apta para receber.

    O filme de 2009 choca por sua simplicidade. Com apenas quatro personagens, duas ou três locações – primordialmente a casa de Jaakobille e a igreja -, uma trilha sonora com um piano solitário, o filme consegue fazer aquilo que se propõe de maneira delicada. Além disso, tem o mérito de conseguir permear temas religiosos sem proselitismo. Klaus Härö encontra um caminho sensível para lidar com questões exauridas como culpa, perdão e redenção. Estas temáticas, ainda que soem como cansativas, encontram voz de forma menos explicita e enfadonha no longa finlandês.

    Rubem Alves menciona um poema de Bertolt Brecht no qual ele escreve que vivemos tempos sombrios nos quais somos forçados a silenciar sobre a beleza das árvores, pois isso ignora o vale de ossos secos, e Alves afirma que se atreveu a falar sobre árvores, pois ossos secos não tem como dar vida a ossos secos, mas as árvores por sua vez estão prenhes de vida. Dentro de nós, ele afirma, mora a nostalgia da beleza. Lutam melhor – segundo o poeta - aqueles que têm os sonhos permeados por essa formosura.

    A generosidade de Jaakobille é uma maneira de ser e estar no mundo. Uma opção viável, tanto quanto outras – consideradas melhores por serem mais realistas ou pessimistas. Sua maneira de ver o outro valoriza árvores aos ossos secos. O filme não nos permite saber se essa maneira de ver transforma a culpa de Leila Sten em perdão, mas manifesta que uma mulher sofrida e impassível pode passar a tolerar e aceitar a conduta amável de um pobre clérigo que, quando em crise com sua missão, esquece de ver árvores por onde passa. Todos esquecemos em um momento ou outro de que essa beleza é possível, ainda assim, podemos crer na sua existência e potencialidade sem que isso nos torne alheios a atuação crítica no mundo.

    Esta é uma história de generosidade e compaixão, que demonstra – a seu modo – uma maneira respeitosa de lidar com as lutas internas as quais todos estamos suscetíveis. O filme foi também como um convite delicado para avaliar a maneira como vejo e toco as pessoas à minha volta. Em um mundo já tão escuro, penso eu, por vezes uma breve luminescência de esperança é suficiente para acender novos rumos.

     

    Agnes Alencar é pesquisadora da Revista de História da Biblioteca Nacional.  

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