É melhor ser alegre que ser triste?

Nova animação da Pixar provoca reflexão sobre o valor das emoções

Agnes Alencar

  • Divertidamente

    Dir. Pete Docter, Ronaldo Del Carmen, EUA, 2015

    Há vinte anos, fui ao cinema assistir o primeiro filme da Pixar Animation Studios, Toy Story (1995). Eu tinha meus sete anos, minha irmã tinha cerca de quatro, fomos com dois amigos de idades semelhantes. Fizemos uma verdadeira farra em um dos antigos cinemas da Praça Saens Pena, hoje ocupado por uma drogaria. Lembro ainda da sensação que me invadiu após ver o filme, puro fascínio ao ver ‘nossos’ brinquedos ganharem vida. Perdi a conta de quantas vezes me escondi para tentar surpreendê-los em um momento de descontração. Para quase todas as crianças com as quais convivi, esse filme elevou a Pixar ao mesmo patamar da Disney, com filmes mágicos e tocantes.

    Este ano, esperei ansiosa pelo lançamento do novo filme dos estúdios Pixar. Apesar do trabalho primoroso e de lançarem mais filmes excelentes do que ruins, nem todas as franquias Pixar foram bem sucedidas. Depois de Up em 2009 e Toy Story 3 no ano seguinte, algumas sequências, como  Carros 2 (2011) e Aviões 2 (2014), não foram muito bem recebidas. O próprio Universidade Monstros (2013) não teve o sucesso que se esperava, dado o êxito de bilheteria do primeiro filme, Monstros S.A. (2001). Brave (2011) é outro exemplo, apesar de belo, não encantou tanto quanto o estúdio gostaria.

    A aposta de Divertida Mente é a proposta criativa e original ao mesmo tempo. Promove uma pergunta que volta e meia nos fazemos: “o que será que está passando na cabeça de uma determinada pessoa?” O filme nos leva para dentro da mente de Riley onde conhecemos os demais personagens: Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo. As cinco emoções básicas nos guiam pelo funcionamento da mente de uma menina de 11 anos.

    Jogadora de Hockey, filha única de dois pais aparentemente incríveis e engajados com seu crescimento, Riley repentinamente descobre que seu pai precisa se mudar em função de um trabalho. Ter 11 anos já é difícil por si só, experimentar bruscas mudanças em meio ao turbilhão de amadurecimento torna tudo mais incerto, duro e obscuro.  

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    A Alegria, nossa anfitriã e narradora, é a emoção dominante na sala de controle (onde “operam” todas as "emoções-personagem"), protagoniza a maior parte das memórias de Riley e predomina também entre suasmemórias base – quedefinem diferentes aspectos da personalidade da pré-adolescente, estes aspectos foram ilustrados como ilhas de personalidade, há a ilha da família por exemplo, da honestidade, também uma ilha da bobeira – que conjuga palhaçadas e caretas. Logo no início da narrativa, a Alegria demonstra ser capaz de descrever as funções de cada uma das emoções, exceto da tristeza. Além de ter dificuldade em aceitar e controlar a Tristeza, ela não consegue compreendê-la. Nem a própria Tristeza sabe dizer ao certo qual a sua função, é também por isso que as disputas com a Alegria se tornam constantes.

    Enquanto Riley está absorvendo as recentes mudanças, tem início outra querela entre Alegria e Tristeza. Mais uma vez, Alegria tentava manter a Tristeza sob seu controle absoluto, quando ambas acabam sugadas pelo tubo que leva diariamente as lembranças para o armazenamento de memórias de longo prazo, vão as duas juntamente com todas as memórias bases. Levadas da sala de controle, a mente da menina fica sob a responsabilidade do Medo, do Raiva e da Nojinho. Riley fica sem a possibilidade de recorrer às ‘ilhas de personalidade’ que lhe garantiam a singularidade de sua maneira de ver o mundo, as palhaçadas – por exemplo – que ficavam a cargo da ilha da bobeira perdem seu componente de humor.

    Alegria e Tristeza se veem forçadas a tentar encontrar buscar um caminho de volta para a sala de controle juntas. Neste trajeto, começam a perceber que existem muitas coisas em jogo no amadurecimento que Riley, a menina está experimentando algumas transformações que têm menos a ver com o ambiente onde vive e mais a ver com o crescimento e amadurecimento humanos. A proximidade forçada, em nome do trajeto compartilhado, leva as duas – alegria e tristeza - por uma jornada de autoconhecimento por meio da qual também se descobrem mutuamente.

    Este é um filme sobre a alegria que nos ensina o valor da tristeza, do fluxo e da mudança. Pois, há coisas que mudam sem que tenhamos qualquer controle. Os amigos mudam, o relacionamento com os pais muda, a maneira como encaramos certas situações também pode se transformar e a alegria nem sempre tem todas as respostas. Ao conhecer suas limitações, a Alegria descobre enfim algumas particularidades da Tristeza que atendem às necessidades de Riley na medida exata.  Talvez, a maior e mais esperançosa descoberta do filme seja, não que a Alegria pode chorar – sentimos isto na pele cotidianamente –, mas lembrar ou descobrir que a Tristeza também pode sorrir. 

     

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