Entre o passado e o presente

Nesta semana, o Cine História traz um comentário sobre o filme “A chave de Sarah”, que faz uma reflexão sobre a perseguição de judeus na França, durante a Segunda Guerra Mundial

Agnes Alencar

  • A Chave de Sarah. Dir.: Gilles Paquet-Brenner. França, 2011

     

    “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação (...). Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação.” (Theodor Adorno – Educação após Auschwitz)

     

    Julia (Kristin Scott Thomas) é uma jornalista americana que vive na França com o marido e a filha. O ano é 2009. À procura de pautas, ela assiste a um antigo pronunciamento do ex-presidente francês Jacques Chirac (que cumpriu mandato entre 1995 e 2007) em que ele decide romper o silêncio referente ao destino dos 13 mil judeus franceses presos e, depois, deportados, em julho de 1942.  A jornalista toma para si a tarefa de recontar esta história, reunindo indícios escassos e dolorosos desta memória silenciada.

    Julia começa a pesquisar e encontra no meio de documentos antigos os nomes de Sarah Starzynski (Mélusine Mayance) e seu irmão caçula, Michel (Paul Mercier) – crianças judias presas em 1942, que não constavam como deportados para qualquer campo de concentração. A partir de então, ela traça uma busca incansável para encontra-los.

    "A Chave de Sarah" (Gilles Paquet-Brenner, 2011) não é apenas um filme sobre o nazismo ou sobre o holocausto: não fala sobre ações alemãs, e sim da perseguição antissemita protagonizada pelas forças policiais francesas, que prenderam judeus no chamado velódromo de inverno (Vel' d'Hiv), para mais tarde deportá-los para campos de concentração, entre eles Auschwitz. O filme conta a história da menina Sarah e como o encontro de Julia foi transformador.

    Passado e presente entrelaçados

    Ao entrecruzar a vida destas duas personagens, o filme – que conta com atuações envolventes e intensas tanto de Thomas quanto da pequena Mayance – promove também um encontro entre o presente e o passado, que permite um caminho para uma aprendizagem que nos afaste da repetição do horror do holocausto. É por isso que, entre as idas e vindas do tempo, somos colocados diante de nós mesmos, enquanto pessoas que não viveram o horror da guerra, levantando questões como: será que realmente agiríamos de forma diferente? O que faríamos diante das mesmas situações? Ao deparar-me com estas questões, foi impossível ignorar uma reflexão voltada para o presente.

    O filósofo alemão Theodor Adorno – aqui colocado como epígrafe – acredita que é imperativo que toda e qualquer educação se dedique a evitar que Auschwitz se repita. Acredito que estas questões nos abrem caminho para este aprendizado. Sobretudo para pensar em como nos deparamos com os nossos outros hoje. Não quero de forma alguma insinuar qualquer possibilidade próxima de um retorno ao desumano – se é que em algum momento ele deixou de estar presente -, nem quero o tom depressivo – coisa difícil de evitar em um comentário sobre um filme referente à experiência da Segunda Guerra –, mas, de alguma forma, ao encontrar-me com Sarah, refleti sobre como Adorno tinha razão. Não só na imperatividade de que Auschwitz não aconteça, mas também na responsabilização de todos pelo ocorrido.

    Enquanto usamos o pronome “eles”, nos isentamos da culpa e não nos consideramos capazes de tais feitos monstruosos. Entretanto, uma vez que somente o homem é capaz do desumano, é indispensável que tenhamos toda a consciência de nosso potencial de crueldade. É necessário que, como ser humano, o holocausto nos diminua individualmente. Para que as mortes não sejam apenas numerais, para que a materialidade dos rostos siga conosco, para que continuem incomodando. Não estou falando de um incômodo silencioso, que guardamos inertes. O filme é justamente um convite a escrever outra história, tentar prosseguir. Nem todos conseguimos. Cabe, sim, aos que continuam a olhar para trás, para que não existam outras Saras. E para que nunca mais aconteça.

     

     

     

     

     

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