Ode ao tempo

Em cartaz no Cine História, "Era uma vez na América" - um filme sobre a máfia e uma nação, o amor e a amizade, mas, especialmente, sobre o poder do tempo

Clarissa Mattos

  • Era uma vez na América. Dir.: Sergio Leone. EUA e Itália, 1984

     

    “Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante.”
    Carlos Drummond de Andrade


    O envelhecido David Noodles (Robert De Niro) percorre o bar e se dirige ao banheiro, como fora seu costume, e procura, como hábito há muito enferrujado, um buraco escondido na parede. Quando finalmente o encontra, retira o disfarce que tampava o esconderijo. Com olhos de uma angústia profunda, fita algum ponto, de familiaridade extrema, e na passagem quase imperceptível do tempo, antes que o espaço tome forma, “Amapolla” começa a tocar. Deborah (Jeniffer Connelly) dança seu infantil ballet em um velho depósito. Os olhos continuam lá, mas agora são de um adolescente. O passado toma forma e nunca esteve tão claro o quanto uma recordação pode ser importante para alguém. Até o ponto de não conseguir sair dela.

    “Era uma vez na América” é um filme sobre máfia, sobre uma nação, sobre amor e amizade, mas, especialmente, sobre o poder do tempo. Pelo simples recurso do flashback, Sergio Leone, o diretor desse épico filme, brinca com as temporalidades e deixa bem claro que suas personagens não existem sem todos os fragmentos ordenados de modo nada diacrônico nas quase quatro horas de película.

    O filme possui um enredo relativamente simples. Na década de 1920, alguns amigos cometem pequenos delitos nas ruas de um bairro judeu nova-iorquino. Ao longo das décadas, já como mafiosos, os amigos vivem seu apogeu e declínio. Situados em três décadas – 20, 30 e 60 -, os personagens centrais da trama são Noodles (Robert De Niro) e Max (James Woods). Ambos lideram a mesma gangue. Em determinado momento, o primeiro é preso. Dez anos se passam e, quando solto, muita coisa mudou.

    Para alguns o tempo foi precioso. A transformação foi bastante perceptível. Se as circunstâncias mudaram, os personagens sofreram juntos. Max se entregou ao jogo político que passou a envolver a máfia. Entendeu que para crescer nessa carreira, era importante a parceria, inclusive se submeter a chefes – situação que rejeitava fortemente quando criança. E não queria parar. Pelo contrário, continuou a mirar o futuro, com uma ambição que somente o maior dos crimes poderia saciar.

    Conflitos com o passado

    Deborah não queria dançar apenas no depósito do velho estabelecimento do seu pai. Ela queria se tornar uma grande atriz. E sabia que para isso não poderia se prender ao seu possível grande amor – e como seu amor era diferente dela... Nada como a cena na qual ela lê um trecho do Cântico dos Cânticos a Noodles: “O meu amado é branco e corado,/A sua pele é como o mais puro ouro,/Suas maçãs do rosto são como especiarias,/Apesar de ele não lavá-las desde dezembro./Seus olhos são como os dos pombos,/Seu corpo, um marfim reluzente,/ Suas pernas são pilares de mármore,/Em calças tão sujas que param em pé sozinhas./Ele é absolutamente adorável,/Mas será sempre um imprestável,/Por isso nunca será meu amado,/Que pena!”

    Mas, aparentemente, Noodles estagnou na prisão. Para ele, nada mudou. Ou melhor, o tempo passou, mas ele não se adaptou a ele. Quis continuar nos pequenos crimes de rua, dominar seu grande amor, ter uma vida independente. Na impossibilidade de restaurar o passado, destruiu a chance de construir um presente. Quando os seus amigos morrem – em uma fracassada tentativa de assalto – Noodles compra uma passagem para qualquer lugar. E o diretor Leone, sabendo melhor do que ninguém sobre seu personagem, opta por simplesmente não contar o que se passa com Noodles fora daquela realidade. O único mundo que interessa é aquele das recordações. O corte é preciso. Como se estivéssemos na mente de Noodles e parte de sua memória fosse esquecida.

    O filme é muito mais do que uma visão pessoal sobre o passado. Na narrativa, todos os personagens possuem uma relação conflituosa com a memória – inclusive a própria nação norte-americana. Cada sentimento revelado pelos personagens vai constituindo um relacionamento complexo com esse tempo que insiste em passar: tudo que sobra são as recordações. Os flashes dos anos 60 garantem que o espectador tenha essa sensação nostálgica.
    O tempo é irreversível e incontrolável. Não depende apenas da vontade individual. Diante disso, Noodles percebe que não podia controlar alguns eventos de sua vida, como deter a morte de seus amigos ou mesmo ter a pequena Deborah em sua vida.

    A saudade não vem de algo que não existiu. Ela causa dor porque existe, mesmo que seja apenas na mente de uma personagem saudosista. Mesmo que seja por uma seleção arbitrária de memórias, construídas de tal modo que deem um novo sentido à história. E qual história não é elaborada assim?

     


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