Quando nós somos os monstros

No especial terror do Cine História, veja como o clássico "A noite dos Mortos-Vivos" reciclou o medo no século XX e transformou a história de um exército de moribundos em paródia sobre a competição desenfreada

Alexandre Leitão

  • A Noite dos Mortos-Vivos. Dir.: George Romero. EUA, 1968.

     

    Mil novecentos e sessenta e oito é um ano paradigmático. Muitos historiadores ressaltam como definidor de uma época o papel do poder jovem, das manifestações estudantis que varreram o mundo. Porém, 68 representaria também o ovo da serpente de um movimento muito mais sutil, sub-reptício na cultura do mundo ocidental até os anos 2000.

    No bojo deste novo quadro cultural e social, um monstro é redefinido nas telas de cinema: o zumbi. Até então, zumbis representavam os escravos espirituais criados por sacerdotes de cultos africanos, figurando em diversos filmes desde, pelo menos, a década de 1930. A partir dos anos 60, ele para de ser tratado nas telonas como um indivíduo lobotomizado, com design inspirado no sonâmbulo do filme expressionista alemão "O Gabinete do Dr. Caligari" (1919), e passa a representar o medo das multidões sem rosto.

    Em vez de um ser estranho, vagando pelas ruas de Porto Príncipe, cumprindo ordens para o seu mestre, os zumbis são reeditados pelo cineasta George Romero, que os transforma num indivíduo ameaçador, numa massa descontrolada, ávida por carne humana, seguindo lenta e febrilmente em direção à casa mais próxima para se alimentar daqueles que ainda estão vivos. Numa época de protestos e críticas sociais, a imagem tende a representar o modelo de consumo da sociedade norte-americana dos subúrbios. Uma sociedade padronizada e adestrada que, para os críticos, tratava-se de adequar as pessoas a pensar sempre na obtenção dos novos produtos como o ápice das esperanças do American way of life.

    Pelas lentes de Romero, o filme “A noite dos mortos-vivos” (Night of the Living Dead) cria esta imagem dos mortos-vivos, que rapidamente seqüestrarão a alcunha de zumbis - antes propriedade da cultura haitiana. Pois até 68, se um filme de terror trouxesse a palavra zumbi no título, o expectador deveria esperar um exploitation movie sobre o vudu e seus escravos de além-túmulo, como em "I walked with a zombie", de 1943.

    Romero redefiniu esse conceito, introduzindo esses personagens no mundo do entretenimento. Hoje podemos encontrá-los em videogames (Resident Evil), séries de TV (The Walking Dead), e dezenas de outros filmes, incluindo comédias (Shaun of the Dead). Sua grande façanha foi, portanto, retirar o elemento religioso da gênese dos mortos-vivos. Saem o vudu e os rituais de magia negra, e entram em cena as explicações científicas, vírus de origem intergalática, pandemias globais, canibalismo, e a declaração do estado de emergência. É uma nova versão do Apocalipse, produzida única e exclusivamente no século XX.

     

    Isolamento como fonte do terror

    Em "A Noite dos Mortos-Vivos" encontramos um grupo de indivíduos, que por uma série de circunstâncias específicas, acabam sendo isolados numa mesma casa de campo, tendo de unir forças para sobreviver àquelas que serão as piores horas de suas vidas, quando um exército de moribundos começará a marchar lentamente em direção a eles. A justificativa para tantos mortos nas imediações de um singelo sítio no interior americano é simples: a casa está localizada próxima a um cemitério, o qual estava sendo visitado naquela mesma manhã fatídica pela primeira personagem em cena, Bárbara.

    A ingênua jovem nos oferece a verdadeira dimensão do terror que Romero tencionava mostrar. Os mortos-vivos que ela encara são pessoas idosas, enterradas com suas melhores roupas, sendo a encarnação perfeita da tristeza do luto. Deduzimos que muitos têm ou tiveram seus entes queridos, foram mães, pais ou filhos de alguém, que naquele momento se encontram despidos de qualquer traço de ligação emocional. Uma das sub-tramas, aliás, enfoca na tentativa desesperada de um pai em proteger sua filha da fúria dos sobreviventes. Isso após ela, já devidamente metamorfoseada pela mordida de um morto-vivo, ter assassinado a própria mãe e devorado parte de seu corpo.

    O medo em "A Noite dos Mortos-Vivos" é ancestral. Envolve a perda de todos os traços de humanidade, de amor e de compaixão – a apoteose de um mundo onde ninguém pode confiar em ninguém, trate-se de amigos, parentes ou conjugues. Romero diria desde então que ele tencionava fazer uma paródia sobre o consumismo do livre mercado, e como a competição desenfreada criaria um espaço de todos contra todos. Podemos dizer que se esse era de fato seu intento, a execução ficou próxima da perfeição. Não apenas os zumbis, mas os grupos de sobreviventes armados, prontos a fazer qualquer coisa para passar ilesos pelo fim dos tempos, ajudam a criar o pior cenário de caso possível, no qual a civilização decai a partir da perda da integridade.

    Não é à toa que anos depois, quando Romero fizesse sua continuação (Dawn of the Dead), ele escolheria colocar o novo grupo de sobreviventes da narrativa embarricados num shopping center, para o qual os zumbis continuam a vir, como se levados por alguma memória de quando estavam vivos. Falo em outro grupo de sobreviventes pois o original de 1968 inovou em mais um aspecto: apresentou ao mundo o primeiro final niilista de um filme de terror. Não há salvação no apocalipse zumbi, não importa o quão preparado ou virtuoso você seja, pois o bicho-homem ainda estará por toda parte, mesmo onde não houver zumbis.

     

    O culto dos zumbis

    Mais de quarenta anos depois, a fama dos famigerados mortos-vivos cresce incessantemente. Em 1983 já assistimos à primeira participação musical dos mesmos, quando Michael Jackson os coloca no curta-metragem especial de 14 minutos da música-título de seu álbum, Thriller. O vídeo, mostrando as aventuras de Michael e uma garota tendo de fugir de dezenas de zumbis, solidificou a carreira do artista e iniciou a era dos videoclipes. Thriller acabaria por tornar-se o álbum de música mais vendido de todos os tempos.

    No âmbito das telas, onde os mortos-vivos nasceram para a glória (ou ressuscitaram – dependendo de como você encara a questão), a primeira grande mudança naquilo que acabou tornando-se uma mitologia moderna, com suas regras e detalhes, veio com Danny Boyle, diretor de Trainspotting, em seu filme Extermínio (2002). Nele o cineasta, pela primeira vez, coloca os “infectados” com a capacidade de correr. Sua desculpa era de que em tese os monstros de seu filme não eram oficialmente mortos-vivos, mas vítimas de uma forma avançada de raiva. De qualquer maneira, a moda acabou por firmar-se, e vê-se já em 2004, no remake do clássico “Madrugada dos mortos” (Dawn of the Dead), um exército de zumbis ágeis, fortes e dotados de uma mentalidade de colmeia. Já neste ano será lançado Warm Bodies, pela Summit Entertainment, a mesma da série Crepúsculo, uma história de amor entre um zumbi e uma jovem humana.

    A maior ironia talvez seja que figuras criadas com o objetivo de criticar o quão consumista a sociedade se tornara tenham se tornado a logomarca máxima do consumo. Aguardem: mais dia, menos dia, o McDonald’s poderá lançar a coleção “Zumbis” no McLanche Feliz.

     

     

    Alexandre Leitão é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional

     

     

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